Para ler o Semanário e o Diário

Disponível na capa da revista E
Se ainda não tem acesso

para assinantes

Em Destaque

Expresso

Classificados

Siga-nos

Eleições

Socialistas espanhóis vão governar sozinhos? Talvez, mas só depois de 26 de maio

<span class="creditofoto">Foto epa</span>

Foto epa

Propaga-se a sensação de que os pactos ou coligações apenas serão formalizados depois das eleições autonómicas e municipais de 26 de maio

Texto Ángel Luis de la Calle, correspondente em Madrid

Os estrategas dos principais partidos espanhóis afinam os seus instrumentos face ao delicado processo para comporem o novo mapa político do país resultante das eleições deste domingo. As urnas, pela primeira vez em vários anos, ofereceram mais certezas do que incertezas e os frios dados permitem vaticinar que se avizinha uma etapa de estabilidade desconhecida nos últimos tempos.

O Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) vence o sufrágio sem maioria absoluta, mas com um número de assentos parlamentares que lhe permite exibir poder para negociar. O Partido Popular (PP) sofre uma derrota histórica e já há analistas que asseguram que nos próximos meses o Ciudadanos ocupará o lugar de liderança do centro-direita espanhol, papel que era tradicionalmente ostentado pelo PP, enquanto este partido reorienta as suas antenas.

<span class="creditofoto">Foto epa</span>

Foto epa

O Podemos paga as culpas das suas divisões internas e de alguns desvarios do seu líder, Pablo Iglesias, mas mantém uma posição digna que poderá levar algum dos seus dirigentes até à própria sala do Conselho de Ministros. A extrema-direita do Vox irrompe no panorama parlamentar nacional, mas com muito menos força do que eles mesmos previam. Agora sim, Portugal é a única ilha continental isolada do fenómeno ultradireitista.

Dando por adquirido que a negociação e o pacto irão a partir de agora fazer parte da normalidade política espanhola, apresentam-se vários cenários distintos: a investidura de Pedro Sánchez como novo chefe de Governo para um período de quatro anos e a formação de um Executivo para levar a cabo os programas com que os vencedores do sufrágio concorreram a este. De acordo com a aritmética parlamentar, Sánchez contaria desde já com 175 deputados, menos um do que a maioria absoluta, fixada em 176 assentos, para aspirar à investidura desde a primeira convocatória.

Mas na segunda sessão, somente precisa de alcançar mais sins do que nãos, e essa circunstância está desde já assegurada com a soma dos votos dos partidos de esquerda, incluindo a Esquerra Republicana de Catalunya (ERC), da qual não se conceberia que virasse as costas à formação de um Governo progressista em Espanha.

<span class="creditofoto">Foto epa</span>

Foto epa

Os números também dizem que o PSOE e o Ciudadanos somariam 180 lugares (123+57), mas ninguém vê Pedro Sánchez contradizer os militantes que gritavam diante da sede do partido em Madrid, celebrando a vitória: ”Com Rivera, não; com Rivera, não…” nem o próprio líder do C’s, Albert Rivera, desdizer os seus anátemas sobre Sánchez como um “pesadelo para Espanha” ou procurar apoios para “fazer sair Sánchez de La Moncloa como uma necessidade vital dos espanhóis”.

<span class="creditofoto">Foto epa</span>

Foto epa

A ERC, evidentemente, já atribuiu um preço para a sua possível colaboração com o PSOE: “Formalizar uma mesa de diálogo sobre a Catalunha, colocar em cima dessa mesa o tema do referendo de autodeterminação e encerrar os processos judiciais abertos contra líderes independentistas”, reclamou o número dois da ERC, Gabriel Rufián. O PSOE também respondeu: “Diálogo, sim, mas dentro dos limites da Constituição e das leis”.

Nas primeiras horas que se seguiram à finalização do escrutínio eleitoral surge a ideia de que é possível que os socialistas, animados pelos resultados, negoceiem acordos para a investidura, mas decidam governar sozinhos, sem formarem nenhuma coligação.

A vice-presidente do Governo, Carmen Calvo, admitiu em declarações à estação de rádio SER que “o PSOE irá tentá-lo”. Meritxell Batet, ministra em funções das Administrações Públicas e uma das figuras mais sólidas do socialismo catalão, ratificava em conferência de imprensa esta tese: “Dialogaremos com os diferentes grupos parlamentares, mas o nosso objetivo é governarmos sozinhos, sem depender de ninguém”.

Mais prudentes pareciam outros pesos pesados do PSOE, como o secretário da organização, José Luis Ábalos, para quem um Governo a sós, sem apoios externos, “é apenas um dos muitos cenários com que se lida”.

Pablo Iglesias, líder do único partido, Unidas Podemos, que exprimiu claramente o seu desejo de passar a fazer parte de um futuro Executivo de esquerda, pediu “tempo e muita discrição”. ”Queremos somar para governar, e não para ganhar”, sublinhou Iglesias.

Está a forjar-se a teoria de que antes de passarem as eleições municipais, autonómicas e europeias do próximo dia 26 de maio as grandes formações com representação parlamentar não irão pronunciar-se sobre a natureza dos diferentes pactos possíveis para assegurar a governabilidade.

Se o PSOE, para referir um exemplo, consolidar nessas eleições o poder que as urnas lhe deram numa circunscrição como a de Madrid, onde ganhou pela primeira vez desde 1986, verá a sua posição sensivelmente reforçada. Não é o mesmo governar Espanha com a capital, Madrid, nas mãos da oposição política, ou dispor de correligionários à frente das instituições municipais e autonómicas madrilenas. O mesmo sucede noutras importantes capitais e províncias espanholas.

Comunidade Valenciana: reedita-se o pacto de esquerda

Ximo Puig, actual presidente da Comunidade autónoma do País Valenciano e líder da fação local do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), recebeu inúmeras críticas dos seus detratores, e também de muitos dos seus seguidores, quando decidiu adiar as eleições autonómicas para as fazer coincidir com as legislativas em todo o país. A aposta parecia demasiado arriscada aos antagonistas, dado o perigo de que todo o esforço realizado para dar voz às reivindicações, sobretudo em matéria de financiamento, das aspirações regionais ficasse submerso pelo ruído e a confrontação de umas eleições nacionais.

A aposta foi ganha por Puig, que poderá reeditar o seu Governo de esquerda (conhecido como Pacto do Botânico, devido ao local onde foi assinado o primeiro dos acordos), em coligação com os nacionalistas do Compromís e os populistas do ramo valenciano do Unidos Podemos, que viriam a fazer parte do Governo valenciano pela primeira vez na sua recente história, como um ensaio geral do que pode suceder à formação dirigida por Pablo Iglesias após as eleições de 26 de maio.

A partir da sua posição de vantagem (52 lugares para a coligação, estando a maioria absoluta fixada em 50 deputados autonómicos) numa das comunidades autónomas mais dinâmicas de Espanha, Ximo Puig, responsável pela vitória socialista nas urnas valencianas pela primeira vez nos últimos 28 anos, pode ser fundamental para a estabilidade de um futuro Governo de Pedro Sánchez. Tal como no resto do país, o Partido Popular caiu a pique nesta Comunidade e o Vox irrompe com força, arrastando os votos que os populares deixam pelo caminho, dos quais também beneficia, com um crescimento notável, o Ciudadanos.