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Se o convidarem para almoçar para uma entrevista de emprego, suspeite

A entrevistas de emprego em restaurantes estão cada vez mais populares. Mas os riscos para o candidato são muitos <span class="creditofoto">Foto getty</span>

A entrevistas de emprego em restaurantes estão cada vez mais populares. Mas os riscos para o candidato são muitos Foto getty

Os recrutadores descobriram uma nova forma de selecionar os melhores candidatos. Levam-nos a almoçar e servem-lhes um prato cheio de... contrariedades. Garantem os especialistas que é uma das melhores formas de avaliar a autenticidade de um candidato

Texto Cátia Mateus

Para um diretor de recursos humanos, mais importante do que saber como um profissional gere o sucesso é perceber como reage ao fracasso, às dificuldades ou àquilo que não controla. Avaliar cada um deste parâmetros numa entrevista de emprego e, preferencialmente, antes da contratação, não é fácil. Mas os recrutadores mais experientes parecem ter encontrado uma fórmula eficaz para o conseguir. Basta levar o candidato a almoçar e servir-lhe um menu de contrariedades.

Imagine-se num daqueles cenários em que tudo o que não poderia acontecer acontece de facto. É exatamente essa a nova estratégia dos recrutadores para escolher o candidato certo. O processo é simples. O diretor de recursos humanos convida o candidato a emprego para uma entrevista mais informal, durante a refeição - pode ser um pequeno almoço ou um almoço (é menos habitual que seja um jantar) - e, previamente, combina o “menu” com o empregado de mesa que os vai servir.

Tudo o que o candidato pedir será intencionalmente trocado ou ignorado pelo funcionário. Se pedir água ele servirá vinho, se a indicação for para um prato de carne servirá peixe e até o tratamento será diferenciado face aos outros clientes. Qual o objetivo? Conhecer a verdadeira natureza do candidato e a forma como este reage às adversidades.

Reações são difíceis de fingir

Alison Doyle, especialista em recrutamento da plataforma americana de aconselhamento profissional The Balance Careers, diz que são cada vez mais os especialistas em recrutamento a aplicar esta técnica de seleção. Tudo porque, justifica, “é fácil encontrar um bom argumento para explicar a um empregador como reagimos às adversidades, mas é muito difícil fingir uma reação quando algo de facto nos corre mal”. Para um recrutador perceber se face à adversidade um candidato reage com agressividade, frustração por se sentir incompreendido ou compreensão, procurando um caminho para resolver o problema, é de extrema importância em contextos fortemente concorrenciais como o atual.

Ter um ataque de fúria pela aparente incompetência do funcionário garante, obviamente, a exclusão imediata do processo de seleção. Mas atenção, “calar e comer” fingindo que está tudo bem também não pontua a seu favor. “O recrutador pode interpretá-lo como um sinal de passividade e fuga ao confronto.”

A melhor solução, garante a especialista, é, com educação e cordialidade, explicar ao funcionário que pediu outra coisa, mas que se não for possível satisfazer o seu pedido pode escolher outra opção. “É uma forma de demonstrar que está focado no que é verdadeiramente prioritário, a solução”.

Entrevistas de digestão difícil

A prática de escolher o momento da refeição como cenário para uma entrevista não é recente. O que é novidade é a encenação, que agora ganha adeptos. Mas a verdade é que mesmo sem ela, as entrevistas à refeição sempre comportaram elevado grau de risco.

Talvez por decorrerem num ambiente de maior informalidade, para o candidato sempre foi difícil encontrar um meio termo entre o profissional e o casual na forma de se apresentar e comportar. Na prática, sabe que está a ser avaliado mas não sabe o que pesará mais na decisão do recrutador, se o seu percurso de carreira e qualificações, se as escolhas que faz à mesa.

Uma entrevista num restaurante deve ser preparada com a mesma atenção do que qualquer outra, mas requer alguns cuidados adicionais. A forma como se apresenta deve ter em conta a formalidade do ambiente. Não vai para um restaurante na praia vestido de fato, mas também não precisa de ir de chinelos de praia. Deve fazer alguma pesquisa prévia antes do encontro.

Deve também ter em mente que ao agendar a entrevista num restaurante, o empregador poderá mesmo querer perceber como se comporta à mesa. Isto é comum em processos de recrutamento para funções que impliquem o contacto direto com clientes em contexto de refeição.

A bebida é outra das questões fundamentais. Deve ou não consumir bebidas alcoólicas durante a refeição? Se o entrevistador pedir vinho pode acompanhá-lo mas não é obrigado a fazê-lo. Se optar por beber, restrinja-se a um copo e mantenha-se focado na conversa. E no fim, quem paga a conta? Quem convida. Mas é um ponto a seu favor, independentemente do desfecho do processo, enviar um email a agradecer no dia seguinte.