Justiça
“Passava o dia inteiro a ver filmes de guerra”: como começou um dos maiores casos de terrorismo em Portugal
Abdesselam Tazi Foto d.r.
Marroquino que é a testemunha-chave do caso de alegado terrorismo em Portugal contou no centro de refugiados da Bobadela que o irmão, que vivia em Aveiro com o compatriota Abdesselam Tazi (suspeito de ser recrutador de militantes para o Daesh), não podia sair de casa sem autorização
Texto Hugo Franco
Duas funcionárias do centro de acolhimento de refugiados da Bobadela, nos arredores de Lisboa, revelaram em tribunal a queixa que deu origem a uma das maiores investigações de terrorismo em Portugal. Em março de 2015, o marroquino Amine, que se encontrava neste centro, pediu autorização para ir visitar o irmão Hicham el Hanafi a Aveiro. Hicham vivia com Abdesselam Tazi, um antigo polícia marroquino, naquela cidade e ambos já haviam passado pelo mesmo centro, que dá apoio aos requerentes de asilo.
Depois de ter tido luz verde, Amine, juntamente com outros dois amigos marroquinos, viajaram para Aveiro. Mas quando regressou à Bobadela “vinha muito preocupado com o estado do irmão”, contou uma assistente social ouvida esta segunda-feira no Campus da Justiça, no primeiro dia do julgamento do alegado terrorista Abdesselam Tazi, que se encontra em prisão preventiva na cadeia de alta segurança de Monsanto.
“Tazi não o deixava sair de casa. Hicham passava o dia inteiro a ver filmes de guerra e com livros que Tazi lhe mandava ler”, relatou. Ainda de acordo com esta testemunha, Amine tinha razões para acreditar que o irmão “iria para a Turquia para depois passar a fronteira com a Síria”. E pediu à assistente social para alertar as autoridades.
Um depoimento semelhante ao de outra funcionária da segurança social da Bobadela. “Amine encontrou o irmão em casa a ver vídeos com práticas relacionadas com o Daesh.”
Entrada do prédio, em Aveiro, onde Hicham e Tazi viveram Foto d.r.
Esta segunda testemunha recorda-se que os três marroquinos que foram a Aveiro chegaram a pedir para se mudar para esta cidade, para junto de Tazi e de Hicham, mas que mudaram de ideias depois da visita-relâmpago ao apartamento onde moravam os dois homens.
Tazi tinha ascendente sobre Hicham
O depoimento de um inspetor da Polícia Judiciária que chegou a fazer vigilâncias a Tazi e Hicham em Aveiro e em Viana do Castelo conta que o único arguido do caso, de 65 anos, tinha “um ascendente muito grande” sobre o mais novo, de 29. E explica que Tazi pagava quase sempre as despesas quando saíam juntos e liderava as orações religiosas. “Hicham não tinha grande capacidade de decidir por ele próprio.”
Hicham el Hanafi foi detido em França, a 20 novembro de 2016, por suspeitas de preparar um atentado terrorista num mercado de inverno naquele país. Cinco meses depois de Abdesselam Tazi, que tinha sido preso na Alemanha por fraudes com cartões de crédito. “Hicham e outros amigos marroquinos visitaram-me na prisão”, contou Tazi durante o primeiro dia do julgamento.
O marroquino, que é defendido pelo advogado Lopes Guerreiro, assume os crimes de falsificação de cartões bancários mas não os de terrorismo. “Não recrutei ninguém para o Daesh nem financiei o terrorismo”, disse o arguido várias vezes durante a sessão.
Negócio das tâmaras no Brasil
Abdesselam Tazi viajou pelo mundo antes e depois de chegar a Portugal em 2013 num voo proveniente da Guiné-Bissau.
Argumentou em tribunal que as viagens tinham um objetivo: angariar dinheiro para poder abrir uma loja em Portugal. Alguns dos negócios passavam pela abertura de contas bancárias na Alemanha para poder obter cartões de crédito com nomes falsos. Comprava e vendia produtos que exportava para Marrocos com a cumplicidade de um motorista de autocarro que fazia as viagens entre aquele país e Marrocos.
Chegou a ir à América do Sul para obter cartões falsificados mas também para abrir portas para “um negócio de tâmaras”, que seriam vendidas da Argélia para o Brasil.
A lista de países onde passou é quase infindável: Suécia, Canadá, Finlândia, Noruega, Espanha, Alemanha, Holanda, Brasil, El Salvador, Honduras, Panamá, Gâmbia, Mauritânia, Senegal, Guiné-Bissau.
Antes do início do julgamento, o advogado Lopes Guerreiro assegurou ao Expresso que a investigação se baseia apenas no depoimento do irmão de Hicham el Hanafi, que será ouvido em breve pelo tribunal.
Nesta primeira sessão do julgamento Abdesselam Tazi confirmou esta tese. “Ele e outro marroquino queriam que eu guardasse o haxixe deles no meu apartamento. Como eu recusei vingaram-se e foram ao SEF dizer que eu era um terrorista. Foi a polícia portuguesa que avisou a francesa das acusações contra mim quando prenderam o Hicham el Hanafi em França em novembro de 2016.”
Abdesselam Tazi encontra-se em prisão preventiva na cadeia de alta segurança de Monsanto há dois anos. Há precisamente um ano, o marroquino, de 65 anos, foi acusado pelos procuradores do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) de um crime de adesão a organização terrorista internacional, outro de falsificação com vista ao terrorismo, quatro de uso de documento falso com vista ao financiamento do terrorismo, um de recrutamento para terrorismo e um de financiamento do terrorismo.
Ao Expresso, o advogado do ex-polícia marroquino, Lopes Guerreiro, é taxativo: “Não há provas que Tazi é terrorista ou tenha angariado pessoas para o Estado Islâmico.” E defende que este processo “nasceu torto”, já que, na sua ótica, o Ministério Público (MP) baseia-se nas informações prestadas por uma testemunha-chave, o irmão do cúmplice de Tazi, que “em sede da instrução deu o dito pelo não dito”.
As autoridades suspeitam que Tazi usou cartões de crédito para financiar as atividades de recrutamento de jovens para o autodenominado Estado Islâmico (Daesh). E de acordo com a investigação, persuadiu pelo menos dois cidadãos marroquinos, que também passaram por Portugal, a juntarem-se à organização terrorista na Síria. Ser-lhes-ia prometido um salário de 1800 dólares (cerca de 1600 euros) para lutar no califado.
O acusado é conhecido pela alcunha de “Salim Adam” e chegou a ser preso na Alemanha no verão de 2016 por fraude informática. Acabou por ser extraditado para Portugal. A defesa garante que este é o único crime pelo qual é suspeito.
Hicham El Hanafi, o alegado cúmplice, de 29 anos, com quem viajou para Portugal, foi detido em França em novembro de 2016, por suspeitas de preparar dois atentados naquele país nos mercados de Natal. As autoridades suspeitam que Tazi financiou as atividades terroristas de Hanafi.
Os dois homens aterraram no aeroporto da Portela a 23 de setembro de 2013 num voo proveniente de Bissau, com passaportes falsos. Alegaram ser perseguidos em Marrocos por motivos políticos, obtendo o estatuto de refugiados e autorização de residência em Portugal. Nos anos seguintes, viveram entre Aveiro e Lisboa.
As autoridades vigiaram os dois homens quase desde o início da sua presença em território nacional e seguiram de perto algumas das viagens por países da Europa e até pela América do Sul. De acordo com a PJ e o SIS, este périplo internacional teria um único objetivo: o financiamento do terrorismo de cariz jiadista.
Guerra com Ivo Rosa
O caso gerou uma polémica extra, quando em novembro do ano passado o Tribunal da Relação de Lisboa desmontou alguns dos principais argumentos do juiz de instrução Ivo Rosa.
Meses antes, o polémico magistrado − que também tem em mãos a instrução da Operação Marquês − considerou que não havia razões para acusar o marroquino Abdesselam Tazi dos crimes de terrorismo, deitando por terra a acusação do DCIAP.
Para Ivo Rosa só fazia sentido pronunciar este ex-polícia por falsificação de documentos e contrafação de moeda. Mas os desembargadores decidiram em sentido contrário, dando razão a um recurso do Ministério Público.
No acórdão da Relação, é referido que “causa evidente perplexidade” que o juiz de instrução não tivesse aceitado alguns dos factos descritos na acusação; “não se vislumbra” que tenham sido confundidos meios de prova; ou que Ivo Rosa “deveria ter tido em consideração” algumas das provas em vez de as ter “omitido” na sua fundamentação.
A Relação corroborou as principais suspeitas dos procuradores do caso.