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Feira do Livro de Guadalajara

Leila Guerriero

“Admira-me que tantos jornalistas tenham contas nas redes sociais e as alimentem de qualquer maneira”

<span class="creditofoto">Foto Joana Beleza</span>

Foto Joana Beleza

Nome incontornável no jornalismo em língua espanhola, Leila Guerriero passa metade do dia a escrever para jornais. Sejam artigos longos ou crónicas breves, a jornalista argentina escreve “no mínimo dos mínimos” 12 horas por dia, incluindo fins de semana, e só desafia esta média quando viaja - como é o caso esta semana ao marcar presença na Feira do Livro de Guadalajara para participar num “encontro sobre crónica”. Aos 51 anos, Guerriero só consegue escrever em casa e foge das redes sociais, porque lhe “comem o tempo” para refletir: “Preciso de contemplar o mundo e não posso estar o tempo todo a ser bombardeada com informação banal”

Texto Joana Beleza (em Guadalajara)

A lista de colaborações regulares de Leila Guerriero é impressionante: escreve no El País, de Espanha, e no El Mercurio, do Chile, assim como nas revistas de fim de semana desses mesmos jornais, Babelia e Sábado; assina ainda na revista mexicana Gatopardo, na brasileira Piauí e na Rolling Stone argentina. Fora todas as outras colaborações pontuais que vai tendo e os livros que publica.

Para esta mulher da imprensa, tudo aquilo que escreve “é crónica e faz parte do jornalismo narrativo, um jornalismo mais literário, que não pode ser confundido com opinião”. “A crónica é informação”, defende, e o desafio hoje já não passa por discutir se constitui um género literário ou não, mas sim “como pode renovar-se no momento em que dá os passos mais sólidos de sempre”. Nunca como hoje o mercado editorial lançou tantas obras de não-ficção, muitas delas antologias de crónicas publicadas inicialmente em jornais. Sinal dos nossos dias, é possível que o trilho do jornalismo passe mais por aqui?

Na Feira do Livro de Guadalajara, Leila Guerriero participou num debate em que todos os convidados salientaram a crónica como “a combinação mais fabulosa entre rigor e liberdade criativa”, lembrando ainda que todos os jornalistas devem assumir que escrevem sempre a partir de “uma subjetividade honesta”. Para a jornalista argentina, este é o momento ideal para repensar as temáticas da maioria das crónicas que são publicadas na América Latina: “se não escrevermos sobre meninos mortos, não passamos a prova de fogo”, mas é vital “poder escrever sobre temas menos duros, porque há um público para isso”. E concluiu: “o mais importante é a crónica estar bem escrita”, independentemente do tema.

Ao fim da tarde desta quarta-feira no auditório 4 da FIL, o debate foi intenso, mas divertido - “todos concordamos sempre com o que a Leila diz”, afirmou logo a começar o moderador Jaime Abello Banfi. Na plateia estavam muitos estudantes de comunicação social, mas também figuras de destaque do jornalismo espanhol, como Ignacio Escolar, diretor do eldiario.es, que em 2018 venceu o galardão mais importante de informação em língua castelhana, o Prémio Nobel Gabriel Garcia Márquez, na categoria Reconhecimento da Excelência. Ao Expresso, Leila Guerriero deu uma entrevista no fim desse debate na sala de convívio reservada a escritores.

<span class="creditofoto">Foto Joana Beleza</span>

Foto Joana Beleza

Como é que se organiza para colaborar com tantas publicações? Tem uma agenda?

Sim, tenho uma agenda e cumpro-a o mais estritamente possível. Escrevo muitas horas por dia, sou muito organizada.

Quantas horas em média por dia?

No mínimo 12 horas, incluindo fins de semana. É muito difícil ter dias livres para mim. O que mais me desorganiza são as viagens, que interrompem e cortam a continuidade, o que complica muito a minha agenda.

Prefere escrever em casa?

Não prefiro, só consigo escrever em casa. Não é uma questão de preferência e, além disso, quando viajo não posso fazer investigação nem entrevistas. Estou longe, não entrevisto pessoas pelo skype. Por isso tento não ter prazos muito apertados, porque sei que não consigo cumpri-los. Agora estou a escrever dois perfis muito longos. Um é sobre um músico argentino para a revista Gatopardo e o outro é sobre uma atriz argentina muito sofisticada que viveu em França. Estou a trabalhar nos dois textos em simultâneo desde agosto passado e vou entregá-los em dezembro. Mas, além disso, publico muitas colunas e isso sim tento cumprir. Posso estar a morrer, mas entrego sempre.

Como é que escolhe os temas sobre os quais escreve?

Depende. No El Mercurio tenho mais espaço, por isso escolhi escrever sobre questões relacionadas com jornalismo e literatura. No El País tenho uma coluna com dois tipos de temática: numa cabem todos os assuntos que se relacionam com a América Latina - política, sociedade, aborto e todas as questões relacionadas com as mulheres - e noutra parto de uma perspetiva mais intimista, relacionada com a condição humana - o vazio, o amor, o desamor, as recordações de infância, etc.

O que é que a inspira mais: a atualidade ou a vida quotidiana?

Ambas. Por vezes a atualidade está repleta de coisas sobre as quais quero falar. Por exemplo, nos últimos tempos têm acontecido muitas coisas nesta região (América Latina) e a mim interessa-me que isso seja visível num grande jornal como é o El País. A atualidade convoca-me muito, mas, outras vezes, estou muito mais metida para dentro, muito mais introvertida, e aí procuro escrever sobre questões mais relacionadas com a condição humana. Estas colunas de crónica não podem ser forçadas: ou surgem com sentido ou então não as escrevo.

Tem medo de repetir temas?

Tenho um arquivo muito organizado e sei que vou repetir-me, porque os temas que me interessam não são infinitos. Por exemplo, assuntos que me interessam imenso como tudo o que diz respeito às mulheres, os abusos de menores e a hipocrisia na Igreja Católica, a política na América Latina, o machismo… Sei que vou repetir-me, mas sei que tenho sempre um olhar distinto sobre esses temas.

Gosta mais de escrever crónicas curtas ou longas?

Gosto dos extremos: ou muito curtas, como nas colunas de opinião, ou artigos muito longos. Sou muito má no formato intermédio, custa-me horrores escrever temas de cinco páginas. Ou tenho uma coluna breve ou então preciso de vinte páginas.

E o que prefere ler de outros autores?

O mesmo. Ou colunas breves ou artigos longos.

Para a Leila, tudo aquilo que escreve, seja no formato longo ou breve, inscreve-se no género crónica?

Bom, não gosto de rótulos, mas sim, escrevo sempre crónicas, mesmo quando são perfis ou artigos longos. Aquilo que escrevo faz parte do jornalismo narrativo, um jornalismo mais literário. Nunca fiz outra coisa senão isto desde o princípio da minha carreira.

De tudo o que já escreveu, guarda alguma crónica preferida?

A crónica favorita ainda não aconteceu, espera por mim no futuro.

Sente que há cada vez menos espaço para o jornalismo literário nos media?

Sim, há pouco espaço nos jornais diários e nas revistas. A crónica está a encontrar cada vez mais espaço na forma de livro.

Fazem falta mais mulheres cronistas?

Sim, como em todas as questões criativas, o espaço da crónica também espelha uma realidade em que existem mais homens do que mulheres, mas, de qualquer forma, existem já muitas vozes femininas interessantes. Creio que é um terreno no qual as vozes das mulheres (em língua castelhana) já abriram um caminho, não o vejo como uma área machista ou repleta de testosterona. E, no fundo, o que me interessa é ler sempre boas crónicas, sejam escritas por homens ou por mulheres. Há pouco tempo apercebi-me que os meus autores preferidos são quase todos mulheres, mas não foi propositado, aconteceu. Não penso neles pelo seu sexo, para mim são apenas pessoas cujas obras adoro.

Li num jornal que quando a Leila está a fazer uma entrevista tenta apagar a sua presença. É verdade?

Sim, quero muito desaparecer. Estou ali muito atenta e curiosa, mas ao mesmo tempo ausente. Faço as entrevistas de forma muito pausada e flexível, sem um grande plano. Quero muito ser opaca.

Mas ao escrever procura ter uma voz própria?

Sim, é nesse momento que surjo como autor. E, idealmente, gostaria que o leitor conseguisse identificar-me pela forma como escrevo.

Sente que há falta de diversidade de temas nos jornais?

Sim, pelo menos aqui na América Latina. Às vezes parece que só se escreve sobre temas duros, como a pobreza, a marginalidade e o conflito. Nos EUA, o jornalismo literário abrange muito mais temas. Por exemplo, Gay Talese escreveu a história da construção de uma ponte e isso tornou-se um clássico. Os jornalistas são aqueles que contam a História em tempo real e se continuarmos a contar apenas os temas duros - que são uma realidade, é verdade - corremos o risco de estar apenas a reproduzir um cliché sobre a América Latina. Não somos apenas uns tipos extravagantes, conflituosos, os homens todos tatuados e as mulheres com roupas largas e coloridas.

Está a preparar algum livro neste momento?

Vou publicar um longo perfil sobre um dos melhores pianistas argentinos do século XX. Começou por ser uma ideia para um artigo, mas acabou com material para um livro que irá sair em março de 2019.

Gosta mais de escrever livros ou precisa da disciplina dos jornais?

Sim, preciso da minha agenda jornalística. Há muitos temas interessantes, mas nem todos resultam em livro.

Uma última pergunta. Recebe muito feedback dos leitores?

Sim, recebo emails que os jornais reenviam para mim. Tenho alguns leitores fiéis, com os quais troco correspondência. Mas não tenho redes sociais…

Porquê?

Porque me distraem e comem o meu tempo. Por isso também não tenho whatsapp, porque caem mensagens a toda a hora e não há maneira de saber se são urgentes ou não. Eu preciso de concentração para pensar, refletir, escrever. Preciso de contemplar o mundo e não posso estar o tempo todo a ser bombardeada com informação banal. Ter uma rede social é como ter um meio de comunicação social e admira-me que tantos jornalistas tenham contas nas redes e as alimentem de qualquer maneira. Se eu tivesse uma conta, iria querer dar o meu melhor, mas tomaria cinco horas do meu dia? Lamento, mas não as tenho nem quero gastá-las para esse fim.

O Expresso viajou a convite do comissariado para a participação portuguesa na FIL Guadalajara 2018