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RICARDO COSTA

O dilema e a oportunidade dos pequenos partidos

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Sempre que há eleições, o drama repete-se. Quem deve estar nos debates e que cobertura editorial deve existir? A questão é, em simultâneo, simples e complexa. Por um lado, os jornalistas não podem abdicar, em nenhuma circunstância, dos seus critérios editoriais; por outro tem que haver alguma equidade, porque uma eleição é um momento fundamental em democracia. Todos os esforços jurídicos (que, na verdade, decorrem da ideia de que o Estado deve mandar em redações) tiveram o fim que mereciam, ao esbarrar na realidade, sendo o exemplo mais ridículo o das Europeias de 2014, em que a tentativa de forçar uma pseudoequidade “a regra e esquadro” teve como consequência o quase desaparecimento da cobertura noticiosa e dos debates. Os riscos jurídicos que esta abordagem levantava, bem como a vontade de transformar os jornalistas em robots imbecis ou porta-vozes cronometrados, tiveram este efeito.

Os legisladores acabaram por ter algum juízo, e as legislativas do ano seguinte já puderam ser cobertas de forma mais lógica. No entanto, o tema arrasta-se de eleição em eleição, apesar de hoje ter uma importância real muito menor, pelos exemplos evidentes de que pequenos e novos partidos podem ter sucesso eleitoral sem dependerem de cobertura clássica ou, por vezes, até por fazerem gala em recusar essa cobertura.

Quando olhamos para as profundas alterações nos sistemas partidários europeus, vemos que quase todos os casos de sucesso (nos vários pontos do espetro político) usaram mecanismos de comunicação que pouco têm a ver com a “obsessão nacional” pelos debates, pela cobertura das televisões contada ao minuto, pela CNE e pela legislação. Há exemplos para todos os gostos políticos que demonstram isso de forma clara.

A desadequação da nossa legislação é tal que continua a obrigar que os jornais impressos não publiquem nada sobre as eleições a partir das zero horas do dia anterior, dia de reflexão, e que as televisões não emitam nem mais um minuto sobre o assunto. Mas, em simultâneo, os sites desses mesmo jornais ou televisões têm disponível tudo o que é anterior a esse “minuto zero”.

A legislação só prevê a comunicação linear, não tendo qualquer eficácia em consumos digitais, por natureza desagregados, que hoje têm um peso brutal na nossa sociedade. O que fica proibido em transmissão linear – tv, imprensa, rádio - mantém-se livre na comunicação digital. Os partidos e os candidatos que quiserem continuar a sua campanha nas redes podem, como é óbvio, fazê-lo com enorme facilidade. Não se pode parar o vento com as mãos.

Se alguém dos novos ou pequenos partidos eleger a 26 de maio, não vai ser por ter estado no debate A ou na reportagem B, mas porque tem uma mensagem que motivou um número de eleitores suficientes e, acima de tudo, os fez ir votar

Não critico os pequenos e/ou novos partido por procurarem ter lugar nos debates televisivos ou uma cobertura televisiva intensiva. Mas acho estranho que os argumentos de 2019 continuem a ser os mesmos de 1994, quando a SIC cobriu pela primeira vez eleições europeias. A comunicação com os eleitores pode hoje ser feita de imensas formas. Basta ver que as duas surpresas mais recentes em Portugal – Marinho e Pinto, em 2014, e o PAN, em 2015 – não decorreram da presença em debates de primeira grandeza ou de cobertura intensiva da comunicação social. O primeiro tinha presença em horários televisivos a que as redações não estão atentas, os segundos tinham uma forte capilaridade em centros urbanos e jovens através das redes sociais.

Se alguém dos novos ou pequenos partidos eleger a 26 de maio, não vai ser por ter estado no debate A ou na reportagem B, mas porque tem uma mensagem que motivou um número de eleitores suficientes e, acima de tudo, os fez ir votar. Alguns destes casos escapam aos jornalistas, exatamente porque ganham tração em meios a que estão (estamos) menos habituados e que são mais difíceis de rastrear.

Este ano a SIC convidou, pela primeira vez, sete destes partidos para um debate. A decisão foi tomada com o objetivo de podermos ouvir vozes que entendemos poder ter uma expressão relevante nas próximas europeias, tendo em conta critérios editoriais, de sondagens e o histórico eleitoral. Os resultados de dia 26 dirão se estávamos certos ou errados. Mas é importante que se perceba que, apesar dessa presença ser importante, em momento algum determina uma eleição.

Quando chegar a noite de dia 26, é bem possível que um ou dois destes partidos elejam. As razões dessa eleição vão estar em imensos fatores, que comentadores, analistas e políticos vão tentar dissecar. Em nenhum dos eventuais casos a questão dos debates será relevante. E isso mostra o absurdo deste drama que se repete.