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RICARDO COSTA

Razões para não acreditar num segundo referendo do Brexit

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Qualquer artigo que se escreva sobre o Brexit corre o risco de ser desmentido em poucos dias ou horas. Este não é exceção. É, aliás, bem provável que esteja errado porque há cada vez mais gente a apontar para a necessidade de realização de um segundo referendo sobre o Brexit, tal é a confusão existente e a incerteza criada.

Na essência, concordo com essas opiniões. Sempre achei que o Brexit seria um provável desastre, pela natureza e dimensão geopolítica que acarreta. Uma mudança desta envergadura nunca poderia ocorrer sem choques tectónicos que abalassem todo o continente europeu e lançassem o Reino Unido num longo período de incerteza.

O tempo só veio reforçar a ideia que um segundo referendo poderia acabar com esta aventura. Apesar das sondagens não serem especialmente folgadas - e as sondagens falharam no referendo de 2016... -, é hoje relativamente consensual de que uma segunda votação daria a vitória ao “remain”. A aproximação do precipício faria com que uma parte dos eleitores mudasse de ideias e, sobretudo, com que muitos abstencionistas de 2016, com os jovens à cabeça, agora se dessem ao trabalho de votar.

O caminho para um segundo referendo está, assim, relativamente facilitado. Ainda assim, acredito pouco nisso. O meu ceticismo assenta na profunda diferença que existe entre a democracia britânica e as restantes europeias.

Inglaterra é a pátria da democracia representativa e da ligação direta entre eleitores e eleitos. O respeito pela vontade popular tem séculos de experiência. Para o bem e para o mal, repetir um referendo além-Mancha não é o mesmo que o fazer em França ou na Dinamarca.

Além disso não estamos a falar de um referendo a um tratado europeu a uma política específica, mas a uma opção geoestratégica de primeira grandeza. O Reino Unido entrou na UE por referendo e decidiu sair por referendo. Apesar de hoje ser óbvio que decidiu sair sem saber o que isso significava, a reversão da vontade popular é um assunto que pode deixar um país - e as suas várias nações - divididas para sempre.

Com todo o respeito pelos outros países europeus, não vejo nenhum onde a realização de um segundo referendo fosse mais dramática. A história da CEE e da UE já nos mostrou cambalhotas complicadas em vários territórios, mas este caso é diferente.

Espero estar errado, mas não me consigo convencer de que pode haver um segundo referendo. Acho até possível que se referende um estilo de saída - entre um modelo “norueguês” ou outro mais radical, ou outra questão técnica -, mas não a da pergunta essencial. Pode ser que a vertigem louca dos acontecimentos liquide este texto num ápice. Era bom, mas duvido porque a história de uma democracia popular - a mais velha do mundo - não se apaga em tão pouco tempo, mesmo que em tempos de caos e loucura.