Lisboa

Cristas foi ao “mercado de droga a céu aberto” de Lisboa. Mas quis falar ao país

<span class="creditofoto">Foto Nuno Botelho</span>

Foto Nuno Botelho

Para agarrar o tema do orçamento para a segurança e conjugá-lo com a falta de meios policiais em Lisboa, Assunção Cristas juntou os papéis de líder partidária e vereadora e pôs-se a caminho daquilo que o CDS descreve como um “supermercado de compra e venda de droga em Lisboa”. Ouviu relatos de agressões, prometeu soluções mas também recebeu recados: “Você tenta excluir a gente. Somos portugueses de segunda”

Texto Mariana Lima Cunha

A agenda de Assunção Cristas traçava um cenário assustador. A presidente do CDS dedicaria parte da tarde desta quarta-feira a “percorrer algumas das ruas que são consideradas atualmente um verdadeiro 'supermercado' de compra e venda de droga na região de Lisboa”, onde moradores vivem “em pânico e com medo” e os comerciantes são “agredidos por traficantes durante o dia”. Mais concretamente, partiria da zona do Chiado, do Largo Camões, para provar que Lisboa tem um problema de segurança. Dos graves.

Com o dossiê estudado e os pontos de passagem escolhidos, Cristas pôs-se a caminho. Pouco passava das 15h quando iniciou a subida rumo ao miradouro de Santa Catarina, embora a luz do dia e a grande comitiva não prenunciassem bons indicíos para se testemunhar em flagrante o tal cenário negro. A seu lado tinha deputados do partido, como João Gonçalves Pereira (que, como Cristas, é vereador da Câmara Municipal de Lisboa) e Telmo Correia (autarca em Belém). Caminhavam misturadas as dimensões nacional e local - neste caso, lisboeta - do partido e da líder. Presidente do CDS, deputada nacional, vereadora por Lisboa. Em todo o caso, com vontade de mostrar trabalho nas ruas.

A primeira paragem faz-se na Tabacaria Martins, no Largo do Calhariz, onde Cristas entra com o passo seguro de quem já sabe com o que conta. Ana Martins, proprietária do estabelecimento, mostra à vontade com a presidente dos democratas-cristãos - já antes recebeu a sua visita. E se inicialmente graceja sobre a comitiva de deputados, assessores e jornalistas que seguem a líder - “é uma enchente, mas não de faturação” - logo de seguida começa a enumerar os problemas da zona onde também vive. Não sabe o que Cristas vai “apanhar" naquela zona a meio da tarde, mas assegura que, se não houvesse “aparato”, os traficantes começariam a oferecer droga e a “massacrar” os transeuntes e turistas, como habitualmente. “Eu moro aqui e telefono para a polícia duas ou três vezes por semana, mas eles dizem que não têm efetivos e gozam connosco. Eu tenho aqui um negócio e as pessoas não querem entrar. Temos vergonha de convidar pessoas para ir lá a casa”, assume.

O assunto é caro ao CDS e Cristas assegura-se de que os seus esforços são lembrados: no âmbito do Orçamento do Estado, o partido tem denunciado falhas na segurança interna, exigindo a formação de mais agentes e de mais elementos para a PSP e a GNR. Já Assunção Cristas como vereadora, perante queixas sobre Fernando Medina - “veio aqui na altura das eleições, mas quando eu comecei a dizer que havia um problema ele disse-me então adeus e foi-se embora” -, recorda o plano que o CDS apresentou para limpar a cidade. Não passa de um plano e esse é o drama do partido, admite: “Nós apresentamos, mas somos oposição...” A mesma explicação poderia ser dada a propósito das propostas para o Orçamento do Estado, que o próprio partido considera estarem condenadas à nascença, acusando o PS de sectarismo depois de no ano passado apenas duas das 90 medidas que apresentou terem sido aprovadas.

“Somos portugueses de segunda”

Ironicamente, e depois de ter ouvido queixas sobre várias etnias e minorias a que os comerciantes associam o tráfico de droga, quem para Cristas na rua é um homem negro que comunica desde logo à assessoria querer chegar à fala com a líder do partido. “Ah! Aquela senhora é política. Posso cumprimentar?” Chegando a Cristas, as televisões concentram-se no diálogo e o homem denuncia: “Vejo-a muito na televisão e acho que deve incluir pessoas como nós. Somos portugueses de segunda”. Às respostas rápidas de Cristas, que diz "tomar boa nota” da reclamação lembrando que “somos todos portugueses”, o transeunte replica: “Você tenta excluir a gente. Tem de ser mais específica [a falar das minorias]. Nós estamos aqui para apoiar a senhora...”

A interação é breve, a única desconfortável das três que acontecem durante a tarde, também a única de improviso. O encontro final é com Francisco Salgado de Kessler, um comerciante que ilustra o motivo que leva o CDS a apostar nestes temas: o dono da Galeria Wine Shop, também no Largo do Calhariz já com um pé no Bairro Alto, foi a 16 de outubro agredido por um traficante de droga quando lhe pediu que não traficasse diante a loja. Ficou com um nariz e vários dentes partidos. Fez queixa à polícia, mas também fez chegar a história ao CDS através de um email que “impressionou muitíssimo” a presidente do partido.

As queixas do lojista multiplicam-se: “A polícia sabe e não faz nada, assobia para o lado”; “estamos no centro de Lisboa, com dois ministérios e a sede da Caixa Geral de Depósitos”; “a rua mais bonita de Lisboa está tomada e é uma entrada de favela”; há histórias sobre pessoas dos “15 aos 80 anos” que são assediadas para comprar droga e moradores que são agredidos. O problema, diz, é a falta de meios da polícia - que diz já ter sugerido, nalgumas esquadras, que os habitantes da cidade se organizem em “milícias” para combater o problema do tráfico.

É a deixa indicada para Cristas, que entretanto passa pela rua Marechal do Saldanha e encerra o passeio no miradouro de Santa Catarina. Com vista para o restaurante Pharmacia - cujo edifício, noutros tempos, foi a sede da campanha presidencial do ex-centrista e fundador do CDS Freitas do Amaral, em 1985 -, a líder fala do “mercado a céu aberto de tráfico de droga”, enquanto no ar paira um odor que parece dar-lhe razão. Os dados, que o CDS tem levado a debate no Parlamento, são de que no comando distrital da PSP se perderam 1100 efetivos desde 2011 e que só há um carro-patrulha a trabalhar na zona da Baixa. Mas Cristas, já debaixo da chuva que começa lentamente a cair sobre a zonda de Santa Catarina, não se faz rogada e responde a tudo o que os jornalistas perguntam, da tragédia de Borba à visita de João Lourenço a Portugal passando pelas previsões económicas da OCDE. Afinal, o país não é Lisboa e quem está ali é uma líder partidária no início de um período intensivo de campanha eleitoral.