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Hong Kong com a corda esticada ao limite

As declarações de Carrie Lam vistas num iPhone <span class="creditofoto">Foto Jeon-Yuon Keyiu / EPA</span>

As declarações de Carrie Lam vistas num iPhone Foto Jeon-Yuon Keyiu / EPA

É pouco provável que a cedência ao argumento original dos manifestantes — a retirada do projeto de lei de extradição — venha a acalmar Hong Kong. Tudo o que se passou entretanto, em particular a violência da resposta policial, colocou as exigências noutro nível. Instruídos e sofisticados, os manifestantes não tencionam parar sem uma resposta total às suas cinco reivindicações. E Pequim não deixará abrir um precedente

Texto Cristina Peres

“Demasiado pouco e demasiado tarde” foi como os manifestantes de Honk Kong classificaram a anulação da lei da extradição anunciada esta quarta-feira pela chefe do Governo do território, Carrie Lam. Quem assim o exprimiu foi o ativista Joshua Wong, que já fizera parte da liderança do Movimento dos Guarda-Chuvas de 2014, e emergiu como um dos “porta-vozes” da atual crise.

A partir de agora de forma mais enfática, a quase metade da população de Honk Kong que tomou as ruas desde há 14 semanas exige que o Governo responda a “TODAS as cinco exigências”, incluindo uma investigação independente ao comportamento da polícia.

A comunicação foi feita pela televisão e Lam deixou claro que as outras quatro exigências não teriam resposta do Governo. A cedência não vai além da nomeação de mais dois elementos, que se juntam à equipa de inquérito oficial da polícia que foi encarregue de investigar o assunto.

A lei da extradição foi a mola propulsora para o início destes protestos. Porém, foi a resposta desproporcionada da polícia, que musculou a violência dos confrontos com canhões de água, lançamento de gás lacrimogéneo e disparo de balas de borracha contra os manifestantes, que levou os manifestantes a acrescentar quatro exigências, que vão aparentemente ficar sem resposta: que o Governo não use a palavra “tumulto” em relação aos protestos; a libertação incondicional dos presos e que sejam retiradas as acusações contra eles; um inquérito independente ao comportamento da polícia; a adoção do sufrágio universal genuíno.

Hora de noticiário nas ruas de Hong Kong <span class="creditofoto">Foto Jeon-Yuon Keyiu / EPA</span>

Hora de noticiário nas ruas de Hong Kong Foto Jeon-Yuon Keyiu / EPA

“A inteligência coletiva e o comportamento civilizado do povo de Hong Kong, que voltou a manifestar-se a 18 de agosto, merece admiração”, escrevia François Godement, conselheiro sénior para a Ásia do Instituto Montaigne no dia 20 de agosto, lembrando logo a seguir que o destino do Hong Kong foi selado em 1984, quando o Governo Thatcher assinou a Declaração Conjunta para entrega do território à China em 1997.

Neste momento, é difícil apurar por que razão Pequim tenha decidido ceder a uma das exigências dos manifestantes, uma vez que é inconcebível que Carrie Lam tenha agido sem o consentimento do Governo chinês. Ainda no início desta semana, lembra o jornal britânico “The Independent”, Carrie Lam admitiu ter pouco espaço de manobra, deste modo sossegando Pequim e o povo de Hong Kong.

NINGUÉM QUER CEDER

“Lam e o Executivo estão numa posição muito difícil, espartilhados entre Pequim, que não quer abrir um precedente, e a população de Hong Kong, que não quer perder a autonomia e liberdades de que tem gozado até agora”, diz ao Expresso Miguel Monjardino.

Representantes dos manifestantes fazem uma conferência de imprensa <span class="creditofoto">Foto Amr Abdallah Dalsh / Reuters</span>

Representantes dos manifestantes fazem uma conferência de imprensa Foto Amr Abdallah Dalsh / Reuters

Segundo Monjardino, professor do Instituto de Estudos Políticos (IEP) da Universidade Católica Portuguesa, o Governo de Hong Kong teve “liberdade de resolução” da crise até 4, 5 de agosto. A partir daí, defende o também colunista do Expresso, “Pequim passou a ditar regras mais estritas” e Hong Kong passou a vigilância mais apertada.

“As instituições têm de cooperar com Pequim”, declarou o Presidente Xi Jinping recentemente, ao mesmo tempo que a situação de Hong Kong passou a ser comummente classificada como “muito perigosa”.

“O Partido Comunista Chinês adotou uma estratégia de atrito contra os manifestantes exigindo que os tribunais e a polícia o consubstanciem”, diz Monjardino, lembrando que ainda esta segunda-feira Xi Jinping “mencionou Macau” no discurso em que abordou a crise que se vive em Hong Kong.

Apesar de algumas caras assumirem responsabilidade nas manifestações e greves decretadas dia a dia, a liderança das manifestações “é fluida, têm uma iconografia inovadora e uma capacidade de disseminação da mensagem de propaganda muito melhor que o PCC”, acrescenta o professor do IEP.

Os manifestantes são sofisticados e têm uma resposta muito rápida capaz de incorporar muito eficazmente os acontecimentos diários. No dia seguinte à carga policial ter provocado a cegueira de uma das manifestantes, todos usavam um penso no olho esquerdo, denunciando assim a violência policial.

“São imprevisíveis, tão depressa pacíficos como violentos, os manifestantes são por isso difíceis de combater”, defende Miguel Monjardino. Não é de desprezar, acrescenta, que “quase metade da população da cidade mostre desta maneira que não acredita no Governo”. Muita gente foi presa e ao longo destas 14 semanas têm participado nos protestos pessoas cada vez mais jovens. A abertura do ano escolar serviu para acrescentar aos protestos a visibilidade do acordo com ela da população estudantil.

“É curioso que haja ali pessoas capazes de correrem grandes riscos por ideais políticos. A ideia de liberdade continua a ser muito apelativa”, conclui Monjardino, lembrando que, para lá das questões sociais implicadas nos protestos, que reclamam que Hong Kong tenha, entre outras coisas, o imobiliário mais caro do mundo, “esta é uma população educada e rica”.

Naquele mesmo artigo de 20 de agosto intitulado “Hong Kong's last Gasp” (O último estertor de Hong Kong), François Godement deixa claro: “Nem o povo de Hong Kong nem a China mudaram: em 1991, dois anos após Tiananmen, os ativistas democráticos alcançaram 68% do voto direto. Em 2016 ainda representavam 55% do voto direto. O Movimento dos Guarda-Chuvas de 2014 visava, acima de tudo, os Comités Eleitorais”. A atual mobilização extraordinária exige 100% de voto direto”.