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Calor ameaça matar mais 26 mil pessoas por ano na Europa já em 2020

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Eventos extremos relacionados com as alterações climáticas levam à morte de milhões de pessoas no mundo. Só na Europa as ondas de calor podem tirar precocemente 26 mil vidas já no próximo ano e triplicar este número até 2050. Um relatório elaborado por cientistas de 27 academias europeias acusa os decisores políticos europeus de “negligenciarem” esta realidade nas políticas europeias e lembra que limitar o aquecimento global permite salvar vidas

Texto Carla Tomás

“As alterações climáticas têm de ser classificadas como uma das maiores ameaças para a saúde humana”, afirma Andrew Haines, um dos coordenadores do relatório “O imperativo da ação climática para proteger a saúde humana na Europa”. O documento, divulgado esta semana pelo Conselho Consultivo da Academia Europeia das Ciências (European Academies Science Advisory Council - EASAC) lembra que “apesar de a União Europeia estar ativamente envolvida em reduzir as emissões de gases de efeito de estufa e em identificar as medidas de adaptação às alterações climáticas, a realidade é que continua a negligenciar os impactos do clima na saúde nas políticas que adota”.

O relatório, no qual colaboraram cientistas de 27 academias científicas, sublinha que as elevadas temperaturas, as ondas de calor, os incêndios, as inundações e as mudanças na transmissão de doenças infecciosas e alergogéneas — que já se fazem sentir e que se vão agudizar ao longo deste século — tendem a agravar-se. E entre as regiões mais vulneráveis está o Mediterrâneo.

A necessidade de limitar o aumento da temperatura a 1,5ºC

Só a poluição atmosférica mata precocemente por ano cerca de seis mil pessoas em Portugal, 350 mil na Europa e seis milhões no mundo, de acordo com dados das autoridades ambientais europeias e da Organização Mundial de Saúde. Mas se à contaminação do ar que respiramos se juntarem os fenómenos extremos projetados, a perda prematura de vidas humanas será ainda maior.

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Só a onda de calor que assolou a Europa em 2003 provocou a morte prematura de 70 mil pessoas (perto de duas mil em Portugal), segundo a Agência Europeia do Ambiente. E de acordo com as projeções das autoridades europeias, o calor pode vir a matar precocemente 26 mil pessoas a mais por ano a partir de 2020 na Europa, triplicar este número para mais 90 mil mortes anuais em 2050, e chegar a 132 mil mortes extra no final do século, se as temperaturas médias globais subirem mais de 2ºC face ao registado na era pré-industrial.

Contudo, é possível reduzir estes números se se conseguir estabilizar a subida média das temperaturas globais a não mais de 1,5ºC — como apelou o painel intergovernamental da ONU para as alterações climáticas (IPCC), em outubro passado. Segundo cientistas europeus, estabilizar as temperaturas nos 1,5ºC permite por exemplo “reduzir entre 15 e 22% a mortalidade associada a calor extremo no verão em cidades como Paris ou Londres”. O alerta da Academia Europeia das Ciências vem reforçar os do IPCC.

“O que este relatório nos vem dizer é que apesar de a Europa ser uma região desenvolvida, a saúde das suas populações, sobretudo dos mais vulneráveis como os idosos e as crianças, está em risco perante as alterações climáticas”, explica Filipe Duarte Santos. Este geofísico, presidente do Conselho Nacional para o Desenvolvimento Sustentável, lembra também que, além dos impactos diretos relacionados com ondas de calor, incêndios ou inundações, também surgem impactos indiretos que afetam a saúde mental das populações devido ao stress relacionado com perda de colheitas ou de casas devido às secas, fogos ou à subida do nível do mar”.

Também o presidente da Agência Portuguesa do Ambiente, Nuno Lacasta, não tem dúvidas das consequências nefastas para a saúde relacionadas com as alterações climáticas. “É por isso que as autoridades de saúde e a OMS estão a começar a olhar para este problema de frente”, diz. Segundo Nuno Lacasta, “Portugal tem desenvolvido um trabalho muito importante na área do ambiente e da saúde na última década e meia”. E sublinha “as estratégias de adaptação às alterações climáticas que vários municípios estão a desenvolver, como é o caso de Lisboa, apostando na reflorestação, no redesenho urbano e na mobilidade suave, vão ao encontro dessas preocupações”.

Entre os impactos indiretos, o relatório da Academia das Ciências fala em distúrbios de sono associados ao calor e consequentes problemas cardiovasculares; no surgimento de mais problemas renais devido a maior desidratação; ou aborda como tudo isto vai afetar a produtividade laboral.

Já nos impactos diretos, os cientistas apontam para quebras na produção de alimentos na casa dos 5-25% na região mediterrânica nas próximas décadas, com consequências na segurança alimentar, ou a propagação de doenças como a dengue ou a malária.

Com mais este relatório da EASAC, os cientistas esperam que os decisores políticos entendam os benefícios da mitigação das alterações climáticas e do crescente balanço negativo para a saúde humana se nada se fizer.