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Chamem-me o que quiserem

Chamem-me o que quiserem

Henrique Monteiro

Antes de acusar Berardo, olhem para vós próprios

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Toda a gente se indignou com o modo de estar, a fanfarronice, o desbragamento de Joe Berardo no Parlamento. Não sou exceção. Há, no entanto, uma diferença substancial entre as indignações que se ouvem: aquelas de quem nada podia fazer e aquelas de quem podia ter feito alguma coisa. A estes, recomendo que se interroguem como foi possível alguém cujo passado era de todos conhecido, chegar ao ponto a que chegou.

Mas tenho mais coisas desagradáveis para dizer. Àqueles – e são muitos – que dentro da sua esfera de possibilidades, enganam clientes, ajudam a fugir ao fisco, não pagam o devido às Finanças, falsificam documentos, recebem subsídios indevidos (incluindo subsídios sociais), metem cunhas, e fazem pequenas trafulhices, saibam que do ponto de vista ético são iguais ao Joe. Apenas são pobres ou remediados, ou menos ricos ou dão menos nas vistas. Por isso, antes de acusarem Berardo, o que devem fazer, olhem para vós próprios.

A prestação de Berardo é inenarrável. Não tem desculpa, nem tem remissão. Os deputados, caso sentissem deveras que estão a representar milhões de pessoas, algumas com muitas dificuldades no dia a dia, teriam certamente sido muito mais duros. Não se ouviu o presidente da comissão de inquérito, como seria esperável, descompor o especulador pelas atoardas que disse e atitudes que tomou. Mas tudo isto é forma, e toda a gente conhece a forma do ‘senhor comendador’. Na substância, o corrupio de gente que passou pela comissão a dizer que não sabia, não se lembrava, não tinha ideia é, mais ou menos, igual.

Poder-se-ia ter evitado o achincalhamento da República, como alguém considerou, com razão. Não se fez nada. Duvido que alguma coisa concreta se vá fazer. E isto faz mais pelo populismo e pela demagogia do que 100 discursos da extrema-direita ou da extrema-esquerda

Como se chegou aqui? Por muitas e variadas causas. Em primeiro lugar, porque o politicamente correto de 2006 a 2009 achava que Portugal se podia dar ao luxo de tudo. Assim como os seus bancos. Raras pessoas – entre as quais felizmente me conto, e está escrito –, se opuseram às suas jogadas. Deixo um texto que escrevi há 12 anos, em 2007, porque nada tenho a acrescentar: “Benemérito nunca foi. Não criou emprego, não apoiou uma grande causa que não revertesse num interesse seu. Berardo tem 20 na defesa dos seus investimentos, mas tem quase zero em altruísmo.”

Eis a razão por que o seu discurso em defesa dos pequenos acionistas me deixa não só incrédulo, como desconfiado de que ele pretende um efeito totalmente diverso.

Com estas jogadas sucessivas, Berardo consegue ser a estrela da comunicação social e usá-la como parte da sua estratégia. Numa entrevista que concedeu a Mário Crespo, na SIC Notícias, o comendador deixou, aliás, bem claro que o papel dos media tem sido inestimável.

Um pequeno passo de Berardo vale, em termos de comunicação, muito mais do que o correspondente dinheiro que ele investiu. Apesar não ser o maior acionista do BCP é ele quem marca a agenda mediática do banco, o que em si mesmo é um bem muito precioso. É ele quem exige demissões; é ele quem defende a retirada deste ou daquele.

Nesse sentido, Berardo procura a defesa de uma imensa minoria: “ele próprio e mais ninguém”. Talvez hoje acrescentasse, depois do que sei, “ele próprio e quem está por detrás dele”.

Não me tenho na consideração de um grande analista financeiro nem de alguém demasiado desconfiado. Também não me considero preconceituoso como os que só pelo modo de vestir determinaram que Berardo não era frequentável. Tudo o que está acima escrito era visível por quem quisesse ver. Mas o Governo de então não quis, como não quis a banca e os seus dirigentes. Nenhum executou as suas dívidas… salvo o Santander, que sendo espanhol não quer saber de Berardo. Por isso, bem pode a banca queixar-se de um golpe de Estado do especulador. Era óbvio que fosse este ou outro, só se não pudesse é que não o faria, para proteger os seus bens adquiridos à custa de sabe-se lá o quê.

Por último, quando era sabido que Joe tinha posto tudo em nome de nem sei quem, através de uma artimanha jurídica (que será sempre de legalidade duvidosa, assim o entendam os legisladores e os juízes), escrevi, há um mês, antes de ele ir à Comissão de Inquérito, que alguma coisa devia ser feita para impedir pessoas daquele estilo de viverem à larga cheios de dívidas que não pagam. O título era “A garagem de Berardo, a mota de Nuno e o franciscano Salgado”. Deixo aqui uma parte:

“O caso mais caricato é o de Joe Berardo que, em seu nome, tem apenas uma garagem na ilha da Madeira. (…) Gostava que pudéssemos pensar um pouco nestes golpes e discutir com seriedade o que pode a justiça fazer nestes casos. Ao contrário de Sócrates que tem um amigo mãos largas (embora só o próprio acredite nessa história, se é que acredita), Joe Berardo tem vinhas, um palacete, um apartamento na cobertura de um prédio de luxo no centro de Lisboa e uma coleção de arte com o seu nome. É, pois, o caso mais despudorado”.

Pois é, tudo isto era previsível. A revista ‘Visão’ e, salvo erro, também a ‘Sábado’ tinham feito trabalhos sobre o assunto. Todos sabem como é Berardo, qual o seu estilo pistoleiro. Poder-se-ia ter evitado o achincalhamento da República, como alguém considerou, com razão.

Não se fez nada. Duvido que alguma coisa concreta se vá fazer. E isto faz mais pelo populismo e pela demagogia do que 100 discursos da extrema-direita ou da extrema-esquerda. É uma questão que indigna qualquer português, que leva ou levou uma vida de trabalho. Indignados com Berardo, sem dúvida! Mas não esqueçamos todos os outros, os governos que mandam na CGD, os banqueiros amnésicos, os que todos os dias pensam em defraudar os outros, os que assobiaram para o lado, os que não fizeram o mesmo porque não têm recursos.

E são muitos!