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Gonçalo Ferreira

Football Leaks. O meu dia com Rui Pinto no tribunal metropolitano de Budapeste

Depois da entrevista ao denunciante português do Football Leaks, estive com Rui Pinto enquanto ele esperava pela ordem de entrada na prisão. Foram cerca de 20 minutos inesperados de conversa, durante a qual falámos da justiça portuguesa, de futebol e... há alturas em que não sabemos o que dizer

De olhos fechados, sentado no tribunal metropolitano de Budapeste, algemado e rodeado por dois polícias, esperava pela ordem de entrada na prisão. A viagem seria curta, apenas uns metros, mas ele ainda não sabia. Além deles os três, estava o repórter de imagem da SIC José Eduardo Zuzarte e eu. Não havia mais ninguém. Advogados, jornalistas de outros meios de comunicação, procuradores húngaros, juíza do processo — todos se tinham ido embora.

Aproximei-me de Rui Pinto e perguntei-lhe como estava. Desabafou: “cansado.”

Tínhamos entrevistado o denunciante português do Football Leaks durante longos minutos. O calor apertava naquele corredor cansado de pedir ar condicionado. A conversa começou sem perguntas, Rui Pinto olhou para mim e encolheu os ombros. A parte difícil estava a chegar. Não sabíamos, mas tínhamos 20 minutos de conversa pela frente. Há alturas em que não sabemos o que dizer, já me aconteceu imensas vezes, e estava a acontecer.

Um dos polícias levantou-se para ir à casa de banho e ordenou ao outro que se aproximasse ainda mais de Rui Pinto. São as regras. “Estás pronto para o que vem aí?”, soltei. “Sim”, devolveu. Começámos por falar de Portugal, disse-lhe que podia acreditar que o nosso país não era tão corrupto como ele achava, mas ele quase não me deixou acabar a frase. “Então não vê os casos recentes? Em Portugal não acontece nada.”

Deixei-o desabafar, falou de vários processos que não deram em nada e garantiu que não tem intenções de colaborar com a justiça portuguesa. “Nunca quiseram saber de mim, não se lembra daquela conferência da PJ do senhor Carlos Cabreiro? Comigo não contam, os meus discos estão encriptados.” Respondi: “como assim?”. Rui Pinto explicou que as passwords dos discos rígidos que lhe foram apreendidos são complexas, quase impossíveis de descobrir. “90% do material dos meus discos está encriptado, os 10% não interessam para nada.”

E se as autoridades portuguesas o protegerem, não muda de ideias? “Não abro os meus discos em Portugal, só em França”, afirmou. Não lhe sai da cabeça, explicou, que as autoridades francesas lhe ofereceram proteção e a intervenção portuguesa “estragou tudo”.

Por mais que surpreenda ouvir um cidadão português dizer isto, não o censuro. Deixei-o desabafar — e a conversa acabou por chegar ao futebol português. Disse-lhe que me surpreendia como ele ainda gostava de futebol, depois de ter percebido, pelos documentos a que teve acesso, que nem tudo na 'bola' se resume ao jogo de 11 contra 11. Riu-se. “Não vejo Liga portuguesa”, respondeu. “Prefiro a Liga dos Campeões, ali as coisas são mais controladas. Em Portugal já sabemos como é”. Encolhi os ombros.

Rui Pinto pareceu-me, estranhamente, forte, do ponto de vista psicológico. Como é que alguém perante semelhante prova podia estar ali sentado tão tranquilo e, até, a fazer piadas? Estávamos a rir-nos quando a conversa terminou. O polícia húngaro do lado direito virou-se para o do lado esquerdo e disse qualquer coisa. Bastaram 5 segundos para se abrir uma das portas do corredor. Rui Pinto despediu-se de nós, sem ponta de fraqueza no rosto, e, já depois de virar costas, voltou a cabeça para trás e disse, em bom português: “obrigado.”