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Chamem-me o que quiserem

Chamem-me o que quiserem

Henrique Monteiro

Crowdfunding e os meus impostos

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Deve ser quase impossível ceder às reivindicações dos enfermeiros. Acredito naquelas três palavras que Vítor Gaspar utilizou: “Não há dinheiro”. Mas se o Governo anterior dizia que não havia, ponto final, este não o diz, mas também não o mostra… porque não o tem. Digamos que há um estilo diferente, mas estilos não pagam dívidas.

Posto isto, o primeiro-ministro diz que a greve é ilegal, imoral e mais uma série de coisas que, com justiça ou sem ela, tanto se podem dizer desta greve como de outras sobre as quais o PS (menos ainda o PCP e o BE) se pronunciaram em termos críticos. O problema, como já foi apontado, reside sobretudo no crowdfunding, que significa que os enfermeiros estão a receber dinheiro de várias proveniências (a palavra quer dizer financiamento através de uma multidão) e há quem receie que sejam os inimigos do SNS que estejam por trás daqueles profissionais a instigar a greve e a fazê-la durar.

Como nunca gostei de teorias da conspiração custa-me a crer. No fundo, ter uns capitalistas malvados a dar dinheiro para os grevistas destruírem o sistema atual e depois privilegiarem o privado, sendo possível, é pouco provável. Em primeiro lugar, porque os capitalistas malvados gostam pouco de gastar dinheiro cujo retorno não seja assegurado; em segundo lugar, porque a maioria dos enfermeiros envolvidos não faria greve se não sentisse (ainda que erradamente) algo injusto na sua situação; em terceiro lugar, porque o Governo lhes (e nos) andou a dizer que a austeridade tinha acabado e eles pensaram que, sendo verdade, podiam ganhar mais; em quarto lugar, porque embora ganhem melhor com a (inacreditável porque antieconómica) passagem de 40 para 35 horas semanais, não têm mais dinheiro no bolso – o que eles ganham é mais à hora; em quinto lugar por que os nossos impostos, os meus, os deles e o de todos os portugueses, tem servido de crowdfunding para um eleitoralismo muito discutível que privilegia as benesses aos eleitores da área política do Governo ao investimento em áreas como o SNS. E esta é a prova definitiva: quem vai apostar dinheiro no fim do SNS se este já está num nível verdadeiramente periclitante?

É ridículo ver os partidos de esquerda a condenar greves. Desde o tempo de Vasco Gonçalves que não via nada assim

Pode argumentar-se que os enfermeiros já tinham este problema no Governo anterior e não fizeram greve. Certo, mas no tempo de Passos levavam com um demasiado brutal ‘não há dinheiro’. Agora, parece que não há para eles, mas houve para outros. Enfim, não quero, nem me compete, defender enfermeiros, mas também não me parece que eles se tenham tornado os maiores reacionários do país dispostos a deitar a abaixo a ‘geringonça’.

Por fim, vem o grito do líder do PS e primeiro-ministro: a greve é ilegal. Se é, acabe com ela. Para alguma coisa manda no país. Se não sabe se é, ou não, antes de receber um parecer, contenha-se. E, quanto àqueles que em magníficas intervenções, um pouco por todo o lado, sustentam a teoria da conspiração, lembrem-se que esse é sempre o argumento dos que não têm argumentos. O PCP e o Bloco, por exemplo, não arranjam melhor para defender Maduro e a sua Venezuela falida.

Vá lá, ouçam os enfermeiros, digam-lhes que não há dinheiro, se for legal requisitem-nos, se não for possível expliquem-lhes que estão a deixar pessoas sem tratamento, apelem-lhes ao coração, façam o que puderem, mas percebam que é ridículo ver os partidos de esquerda a condenar greves. Desde o tempo de Vasco Gonçalves que não via nada assim.