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POLÍTICA

Silvano defende-se pedindo à PGR que o investigue

Secretário-geral do PSD convocou os jornalistas para dizer que não se demite e que quer ser investigado pela PGR. Pelo meio, lançou suspeitas: notícias negativas só começaram quando aceitou cargo na direção de Rio. “Quem não deve, se calhar devia temer”

Texto Mariana Lima Cunha Fotos António Pedro Ferreira

A expectativa era muita. Cerca das 16h30, começou a circular a informação de que o secretário-geral do PSD, José Silvano, prestaria uma declaração no Parlamento. E os jornalistas começaram a reunir-se na sala das conferências de imprensa, à espera. No entanto, o que foi num primeiro momento interpretado como uma possível demissão transformou-se numa espécie de defesa da honra (sem direito a perguntas): Silvano não só não se demite como diz querer ser investigado.

Começou precisamente por aí a declaração lida do secretário-geral e deputado do PSD: “A ser verdade” as notícias que dão conta de que a Procuradoria-Geral da República está a averiguar a hipótese de abrir uma investigação ao caso das falsas presenças em plenários no Parlamento, Silvano saúda a iniciativa. E, se não forem, o social-democrata planeia “reclamar que a PGR abra um processo de investigações”. Por isso, a partir de agora e se for investigado, já será, se não a seu pedido, pelo menos com a sua colaboração.

O discurso foi alinhado com o de Rui Rio, que há dias desvalorizou o facto, noticiado pelo Expresso, de Silvano ter faltado pelo menos a duas sessões plenárias mas o Parlamento ter o registo da sua presença, feito através de uma password que deveria ser pessoal e intransmissível. “Questiúnculas”, diria Rio no início da semana. Esta tarde, Silvano usou uma expressão habitual do próprio líder quando leu a sua declaração aos jornalistas: “Quem não deve, não teme. Ou, se calhar, nos tempos de hoje devia ser dito que deveria temer”.

Não foi a única referência a Rui Rio: o social-democrata chegou mesmo a sublinhar o facto de, depois de uma carreira pública “com mais de 30 anos” em que nunca lhe foi apontada nenhuma irregularidade do género, bastou “ter aceitado o cargo de secretário-geral na direção de Rui Rio” para a notícia aparecer. Ou seja, só o facto de estar associado a Rio, pareceu insinuar, justificou que começasse a ser atacado.

Silvano garantiu ainda não ter “pedido a ninguém” que registasse a sua presença. Mas os serviços da AR, a pedido de Ferro Rodrigues, já averiguaram a questão e confirmaram que houve algum deputado a confirmar a presença de Silvano por ele. O que leva a uma nova questão, ainda por esclarecer: quem terá confirmado a presença do deputado em reuniões em que não estava presente?

Ferro já tinha contrariado a primeira explicação

A polémica deve-se à notícia deste sábado em que o Expresso revelava que Silvano faltou pelo menos duas vezes a sessões plenárias no mês de outubro (18 e 24), embora do registo da AR constasse que tinha estado presente. Tudo, confirmaram depois os serviços da AR a pedido de Ferro Rodrigues, porque algum outro deputado assinou por Silvano – que, nas datas em causa, se encontrava a muitos quilómetros da Assembleia, num caso na Vila Real e noutro em Santarém, em atividades partidárias.

O social-democrata chegou a pedir à Assembleia que alterasse os registos de presenças para lhe marcar faltas nesses dois dias, admitindo que não esteve presente naqueles plenários. Mas nunca explicou como apareceram as presenças, que só podem ser feitas por alguém que tenha o login – supostamente pessoal e intransmissível – que os deputados usam para aceder aos computadores do hemiciclo. Silvano ensaiou ainda uma explicação, alegando que os deputados mantêm a mesma password durante a legislatura e por isso se torna fácil que esta seja conhecida por outras pessoas, mas foi contrariado pela AR: afinal, as palavras-passe mudaram todas há cerca de três meses.

Rui Rio passou a semana a desvalorizar a questão – se num primeiro momento a descreveu como uma “questiúncula” sem importância, recusou-se depois a fazer mais comentários, lembrando que as suas palavras não são como os “iogurtes” e têm por isso uma prolongada “validade”. Esta quinta-feira, respondeu ironicamente aos jornalistas que o abordaram sobre o assunto à margem do congresso do Partido Popular Europeu em Helsínquia, dizendo não ter mais nada a acrescentar sobre o assunto… em alemão.

Este já é o segundo secretário-geral do PSD desde o início do mandato de Rui Rio, em janeiro. O antecessor de Silvano, Feliciano Barreiras Duarte, ocupou o cargo durante apenas um mês. Foi tempo suficiente para serem conhecidos erros no seu currículo e ser revelado que declarava junto dos serviços do Parlamento a sua morada fiscal, casa dos seus pais, como se fosse residência habitual, obtendo assim ajudas de custo como se vivesse no Bombarral, apesar de morar em Lisboa.