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“Declarações ultrajantes” e “ataques” como já não se via desde o fim da II Guerra: há um problema sério entre França e Itália

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Vice-primeiro-ministro italiano encontrou-se com os coletes amarelos franceses e o Eliseu enfureceu-se. Alvo dos ataques do Governo de Roma é claro: Emmanuel Macron, “um muito mau presidente”. A tensão está alta e o embaixador francês em Roma já foi chamado a casa

Texto Hélder Gomes

“Declarações ultrajantes” e “ataques infundados” como já não se via desde o fim da II Guerra Mundial: foi deste modo que o Ministério francês dos Negócios Estrangeiros reagiu ao que apelida “ingerências” do Governo italiano. Esta quinta-feira atingiu-se um limite: a diplomacia francesa chamou o seu embaixador em Roma “para consultas” na sequência de uma reunião do vice-primeiro-ministro de Itália, Luigi Di Maio, com duas figuras destacadas do movimento dos “coletes amarelos”.

“As últimas ingerências constituem uma provocação adicional e inaceitável”, declarou a porta-voz do Quai d’Orsay, Agnès von der Muhl, em comunicado. O Ministério adotou uma postura mais contundente ao fim de “vários meses de acusações”, que se vêm somando desde que os populistas do Movimento Cinco Estrelas, que Di Maio lidera, e a Liga, de extrema-direita, chegaram ao poder em Itália em junho do ano passado.

Di Maio reuniu-se terça-feira em Paris com um porta-voz dos “coletes amarelos”, Christophe Chalençon, e com a promotora de uma lista deste movimento às eleições de maio para o Parlamento Europeu, Ingrid Levavasseur. “O vento da mudança atravessou os Alpes”, escreveu Di Maio no Twitter, publicando também uma fotografia do encontro. Os “coletes amarelos” estão mobilizados há várias semanas contra o presidente francês, Emmanuel Macron.

Também o ministro italiano do Interior, Matteo Salvini, tem atacado Macron e fá-lo de uma forma ainda mais direta. Numa entrevista recente, o representante da Liga no Executivo de Itália afirmou ter a esperança de que os franceses votem contra o partido de Macron nas eleições europeias. Só assim “podem mudar tantos equilíbrios na Europa” e libertar-se de “um muito mau presidente”, sublinhou.

A diplomacia francesa fez saber que “haver desacordos é uma coisa, instrumentalizar a relação com objetivos eleitorais é outra”. “A campanha para as eleições europeias não pode justificar a falta de respeito por cada povo ou a sua democracia”, afirmou a porta-voz do Ministério. A sucessão de atos desta natureza cria “uma situação grave que levanta questões sobre a intenção do Governo italiano relativamente à sua relação com França”, concluiu.

Foto Getty

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ITÁLIA ACUSA FRANÇA DE EXPLORAR ÁFRICA

Esta não é a primeira vez que Roma irrita Paris e provoca um incidente diplomático. Em janeiro, a embaixadora italiana em França, Teresa Castaldo, foi chamada ao Quai d’Orsay depois de Luigi Di Maio ter acusado as autoridades francesas de explorarem o continente africano e fomentarem a migração.

Di Maio exortara a União Europeia (UE) a impor sanções a França por esta “não ter parado de colonizar dezenas de Estados africanos”. Essas sanções deveriam ser aplicadas a “todos os países que empobrecem África e obrigam as pessoas a sair porque os africanos deviam estar em África e não no fundo do Mediterrâneo”, defendeu o líder do Cinco Estrelas. “Se as pessoas estão hoje a abandonar [o continente africano] é porque países europeus, com França no topo, nunca deixaram de colonizar dezenas de países africanos”, acusou Di Maio. Se não fosse África, França seria a 15.ª economia mundial e não estaria entre as seis primeiras, acrescentou.

Fontes diplomáticas francesas classificaram as críticas como “hostis e sem justificação dada a parceria entre França e Itália na UE”. Mas Di Maio não se mostrou arrependido e fez novas acusações, relacionadas com o franco CFA, uma moeda da era colonial ainda usada em África. “França é um desses países que, ao imprimir dinheiro para 14 Estados africanos, impede o desenvolvimento económico destes e contribui para a partida dos refugiados que depois morrem no mar ou chegam às nossas costas. Se a Europa quer ser corajosa, deve ter a coragem de enfrentar a questão da descolonização em África.”

A agência France-Presse avançou entretanto que Matteo Salvini está a tentar organizar uma frente europeia de extrema-direita com a mira apontada para as eleições europeias, marcadas para 26 de maio.