REFUGIADOS - PARTE II
Pesadelo nazi, purgas estalinistas e guerras de independências (e os nossos “retornados”)
SÉCULO MORTÍFERO O século XX foi um dos períodos que mais migrações forçadas provocou por causa de guerras. Na imagem, refugiados da II Guerra Mundial FOTO D.R.
Se o refugiado do século XIX tinha uma origem distinta do do século XXI, o desespero e o sonho de uma vida melhor são os mesmos. A História demonstra que as fronteiras nunca foram portas encerradas, e o século XXI não será diferente
TEXTO RICARDO SILVA
Com a Revolução Industrial a atingir o apogeu no princípio do século XX, a Europa viveu um aumento demográfico sem paralelo na sua História e a tecnologia permitiu atingir a produção em massa de todo o tipo de produtos. Não tardou muito para que a tecnologia também começasse a inovar na “indústria da morte” e em poucos anos foram construídas frotas de couraçados, aviões e tanques, milhões de armas de fogo e de artilharia capazes de transformar o campo de batalha numa paisagem lunar onde nenhum ser vivo poderia sobreviver durante muito tempo.
Em 1914 a Europa caminhou alegremente para uma guerra que todos acreditavam acabar no Natal, mas que na realidade duraria quatro longos anos e custaria a vida a milhões de soldados e civis. O desastre não terminou no dia do Armistício e o fim dos impérios alemão, austro-húngaro, otomano e russo foi o ponto de partida para um período de instabilidade que levaria ao “reordenamento populacional” da Europa de Leste e à morte de milhões nos conflitos civis e nas purgas coletivas do estalinismo dos anos 30.
Com a II Guerra Mundial a Europa enfrentou um dos maiores perigos da sua História. Um povo que alegando possuir superioridade racial sobre os demais se achou no direito de cometer genocídio de forma industrial e tornar a Europa no seu império pessoal. À medida que os nazis iam ocupando o velho continente, o destino de judeus, ciganos, comunistas, homossexuais, testemunhas de Jeová e pacientes com deficiências mentais passou a ser o da morte e o da eliminação total nos fornos crematórios dos campos de extermínio.
Em desespero milhares de judeus tentaram passar a fronteira nos Pirenéus e escapar duma morte certa, tendo encontrado em homens como o cônsul Aristides de Sousa Mendes a salvação. Mas para a maioria não foi possível arranjar um bilhete para fora da Europa e o seu fim revelou-se trágico. Na Frente Leste os eslavos foram relegados à condição de servos e sujeitos a uma violência que custou dezenas de milhões de mortos e implicou a deslocalização de milhões para servirem na indústria de guerra.
À medida que os nazis iam ocupando o velho continente, o destino de judeus, ciganos, comunistas, homossexuais, testemunhas de Jeová e pacientes com deficiências mentais passou a ser o da morte e o da eliminação total
O nazismo também permitiu ajustes de contas e o avivar de ódios adormecidos. Os ustasha croatas e os muçulmanos bósnios massacraram os sérvios (que durante a guerra civil jugoslava trocariam o papel de vítima pelo de algoz), e com a derrota de 1945 foi a vez de os alemães viverem uma das maiores vagas de refugiados da história europeia. Milhões viajaram do Leste da Europa para escapar à vingança das atrocidades cometidas pela Wehrmacht, e a Prússia Oriental foi “desgermanizada”.
Os povos de ascendência alemã que durante séculos viveram no Leste da Europa foram deslocados para a Ásia Central, e na Alemanha em ruínas foram muitos os alemães que decidiram abandonar a Europa para tentar um novo começo nas Américas, incluindo muitos nazis que procuravam escapar à Justiça e que viram na Argentina um refúgio para o seu passado tenebroso.
Terminada a II Guerra Mundial, o mundo entrava na Guerra Fria e a Europa dizia adeus às suas colónias. A França desenvolveu uma perspetiva muito própria que aceitava a independência de todas as suas colónias, exceto uma: a Argélia. No discurso político francês, a Argélia constituía parte inalienável da França, e quando a insurreição começou, em 1954, a resposta foi violenta e envolveu tortura e execuções extrajudiciais, que se tornaram comuns ao longo dos anos seguintes.
Povos de ascendência alemã que durante séculos viveram no Leste da Europa foram deslocados para a Ásia Central, e na Alemanha em ruínas foram muitos os alemães que decidiram abandonar a Europa para tentar um novo começo nas Américas
Na Argélia viviam mais de um milhão de franceses e seus descendentes, gente que atravessou o Mediterrâneo à procura da riqueza que aquela colónia oferecia aos gauleses brancos que constituíam a elite económica e administrativa do território. Terminada a guerra, mas não os ódios que incendiara, tornou-se insustentável a permanência dos europeus na Argélia e quase um milhão atravessou o Mediterrâneo com temor das represálias. Foram porém deixados para trás os argelinos colaboracionistas e entre 50.000 e 150.000 foram executados como traidores.
Portugal não terá aprendido com o erro francês. Em 1961 começou a insurreição no Norte de Angola e o Estado Novo desde logo negou qualquer possibilidade de independência às várias colónias que se foram revoltando sucessivamente. Durante a longa guerra colonial que se seguiu, a violência constante gerou ódios nas colónias e um apoio cada vez menor na metrópole.
A miséria que grassava em Portugal levou também a uma nova vaga de emigrantes, que seguiram por terra para países como a Alemanha, França, Luxemburgo e Suíça, e por mar para o Brasil, Canadá, Estados Unidos e Venezuela. Entre os anos 50 e 70 o seu número ultrapassou os dois milhões, sendo muitos os jovens em idade militar que encontravam na emigração a possibilidade de escapar ao envio para uma guerra longínqua.
A 25 de Abril de 1974, a revolução estalou em Portugal e um povo farto da ditadura e da miséria quis terminar rapidamente uma guerra que levava centenas de milhares de jovens a lutar por uma causa em que muitos já não acreditavam. A descolonização que se seguiu revelou-se um autêntico desastre. Por um lado, o clima revolucionário vivido em Portugal não permitiu alongar o período de transição; por outro, os partidos africanos que lutaram pela independência não conseguiam negociar entre si uma solução governativa e o clima da Guerra Fria potenciava a ingerência externa e a chegada de armamento em grandes quantidades.
A miséria que grassava em Portugal levou também a uma nova vaga de emigrantes, para Alemanha, França, Luxemburgo, Suíça, Brasil, Canadá, Estados Unidos, Venezuela. Entre os anos 50 e 70 o seu número ultrapassou os dois milhões
Quando as independências chegaram, as guerras civis foram-se instalando nas antigas colónias e as comunidades portuguesas viram-se subitamente entre dois fogos. Muitos escaparam para a África do Sul, mas a maioria foi retirada numa verdadeira ponte naval e aérea que transportou mais de meio milhão de volta a Portugal (incluindo alguns refugiados que já tinham nascido em África).
ÊXODO Chegada a Portugal de “retornados” das ex-colónias, em 1974 ARQUIVO “A CAPITAL”
Os recém-chegados chegaram a um país em pleno PREC (Processo Revolucionário Em Curso) e com poucas ou nenhumas condições para os receber, e muitos milhares acabaram por engrossar a emigração “tradicional” que partia do país em direção às Américas e ao centro da Europa. O PREC também criou uma nova classe de refugiados em Portugal, as famílias poderosas que durante o Estado Novo tinham enriquecido sob a proteção do regime e cujas empresas e propriedades eram agora alvo de nacionalizações. Famílias como os Espírito Santo e Champalimaud, que seguiram os seus conterrâneos mais pobres e atravessaram o Atlântico para recomeçar as suas vidas no Brasil, e com eles também seguiram Marcelo Caetano e muitos funcionários ligados ao regime, como agentes da PIDE.
Quando as independências das ex-colónias portuguesas de África chegaram, as guerras civis foram-se instalando e as comunidades portuguesas viram-se subitamente entre dois fogos. A maioria foi retirada numa verdadeira ponte naval e aérea que transportou mais de meio milhão para Portugal
O êxodo português foi mais um episódio dos movimentos de refugiados e emigrantes que marcam a História europeia. Durante séculos o mundo acolheu os milhões de homens e mulheres que fugiam de um continente em guerra constante e a Europa é desde há séculos uma terra de emigrantes, imigrantes e refugiados.
A Hungria, que hoje encerra as suas fronteiras, é o mesmo país que viu 200.000 cidadãos fugirem para a Áustria em 1956, quando o país se insurgiu contra o domínio soviético. E se o refugiado do século XIX tinha uma origem distinta do refugiado do século XXI, o desespero e o sonho de uma vida melhor são os mesmos. A história demonstra que as fronteiras nunca foram portas encerradas, o século XXI não será diferente.