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Zita Martins, astrobióloga e professora associada do Instituto Superior Técnico

CIÊNCIA

Zita Martins, astrobióloga e professora associada do Instituto Superior Técnico

O interesse da água líquida encontrada em Marte não se cinge apenas à procura de vida extraterrestre: falemos sobre colonização

Foto Getty

Foto Getty

Tudo o que há de ler aqui é de simples compreensão e fundamental reflexão: Zita Martins, uma das maiores especialistas do mundo em astrobiologia, explica como uma descoberta em Marte intensifica os sonhos espaciais da humanidade e a curiosidade interminável que temos em saber que vida há fora da Terra

Depósito subterrâneo de água líquida em Marte

No dia 25 de julho foi anunciada na revista “Science” a presença de água líquida em Marte. O que faz desta descoberta por parte de cientistas italianos uma novidade é o facto de ser uma prova direta da existência de um depósito estável de água no Planeta Vermelho. Água em estado líquido tem sido indicada de forma indireta nos últimos anos:

1) água gelada foi detetada na superfície e no subsolo nas regiões polares e no equador pelas missões espaciais Mars Express, da Agência Espacial Europeia (ESA), Mars Odissey, Mars Reconnaissance Orbiter e Phoenix, da Agência Espacial Americana (NASA);

2) canais, vales, ravinas, planícies aluviais e deltas, que terão sido formados pela ação de líquidos no passado de Marte, foram observados;

3) vários minerais (e.g., argilas e depósitos de cloretos), que apenas podem ser formados na presença de água em estado líquido, foram detetados pelas missões espaciais da NASA Mars Global Surveyor, Mars Odyssey, Mars Reconnaissance Orbiter, Opportunity e Curiosity;

4) evidência de salmouras contendo sais hidratados de percloratos que terão resultado do fluir de água líquida na subsuperfície de Marte.

Uma vez que água em estado líquido terá existido em abundância em Marte no seu passado, a comunidade científica questionou-se durante muitos anos aonde é que a água teria ido parar, uma vez que presentemente não há água líquida na superfície. A descoberta publicada no dia 25 de julho mostra a presença de um depósito de água com cerca de 20 quilómetros de comprimento, localizado no polo sul a cerca de 1,5 quilómetros da superfície e abaixo de uma camada de gelo. Os dados foram recolhidos da órbita de Marte entre maio de 2012 e dezembro de 2015 pelo instrumento Mars Advanced Radar for Subsurface and Ionosphere Sounding (MARSIS) da missão espacial Mars Express. Este é um radar que emite ondas de baixa frequência até à superfície de Marte, onde são refletidas. Parte das ondas atravessa o gelo da superfície e reflete nos materiais que se situam por baixo desta. Os dados mostram que a reflexão por parte de água líquida é muito superior à dos outros materiais em redor (nomeadamente rocha) e que o seu perfil é semelhante à de lagos existentes debaixo de depósitos polares na Antártica e Gronelândia. Por isso, os cientistas concluíram que os dados do MARSIS claramente indicavam um depósito de água líquida em Marte.

Marte tornou-se um bom alvo de procura de vida extraterrestre em futuras missões espaciais

Mas as temperaturas negativas de Marte (cerca de -68ºC nos polos) não estão de acordo com a presença de água no estado líquido. Esta aparente contradição é facilmente explicada pela elevada pressão da camada de gelo à superfície (maior pressão implica uma menor temperatura de congelamento) e pela elevada concentração de sais minerais em Marte (quanto maior a quantidade de sal, menor a temperatura de congelamento). Concentrações elevadas de percloratos de magnésio, cálcio e sódio foram detetadas pela missão espacial Phoenix na superfície de Marte, o que sugere que estes minerais também existam no depósito detetado recentemente. Desta forma, este não será constituído por água pura, mas será um lago de água (extremamente) salgada ou lodo (água salgada misturada com o solo de Marte).

A presença deste depósito estável de água salgada (ou lodo) aumenta a probabilidade da existência de vida extraterrestre no Planeta Vermelho. Um dos requisitos para a existência de vida (pelo menos como nós a conhecemos aqui na Terra) é a presença de água líquida. Ainda que a quantidade elevada de sal limite a diversidade de potenciais formas de vida marciana, há microrganismos que poderão sobreviver em tais condições. Por exemplo, na Terra existem microrganismos que habitam em ambientes hipersalinos (são por isso chamados “halófilos”), como por exemplo no Mar Morto ou no Grande Lago Salgado, nos Estados Unidos. Marte torna-se por isso um bom alvo de procura de vida extraterrestre em futuras missões espaciais.

Mas o interesse do depósito de água salgada não se cinge apenas à procura de vida. Há presentemente um grande interesse das agências espaciais, como a ESA e a NASA e do sector privado, por exemplo a SpaceX, em colonizar Marte nas próximas décadas. Para que tal aconteça é necessário que os humanos que vivam futuramente em Marte tenham acesso a água líquida. Ainda que os dados do artigo da “Science” publicados a 25 de julho apontem para que o depósito de água salgada esteja a 1,5 quilómetros da superfície, seria mais fácil (tanto do ponto de vista tecnológico como de custo) aceder a ele do que transportar água da Terra para Marte numa missão espacial. Além disso, é possível que existam outros depósitos de água ainda mais perto da superfície do Planeta Vermelho. O futuro passará necessariamente por mais investigação para determinar a existência de habitats adequados à vida em Marte, quer seja para potenciais formas de vida extraterrestre ou para futuros colonizadores.