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Henrique Raposo

A tempo e a desmodo

Henrique Raposo

Porque é que Robles pensava que não era apanhado?

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Já tudo foi dito sobre o caso Robles. O juízo está feito. É o mesmo que apanhar um comunista de 75 com ações dos Mello, aliás, é o mesmo que apanhar qualquer comunista de qualquer tempo com ações de qualquer empresa. É como apanhar alguém do CDS com uma clínica de abortos. Contudo, há uma pergunta que continua por responder: porque é que ele pensava que ninguém ia reparar? Porque é que ele pensava que ninguém ia julgar esta imoral contradição entre discurso político e prática pessoal?

O cálculo de Robles passou por assumir (e bem) que ser desta esquerda caviar na Lisboa de 2018 é o mesmo que ser do PCP na Lisboa de 1975, ou seja, é estar literalmente acima do bem e do mal

Há dias, ficámos a saber que António Costa também se envolveu na tal “gentrificação” através da tal “especulação”; os valores não têm a dimensão de Robles, mas há ali uma prática que é pelo menos questionável, sobretudo quando estamos a falar de um político/partido que criticou e critica a tal “especulação”. Além do mais, Costa foi um crítico da nova lei das rendas que está na base desta mudança estrutural que agora beneficia objetivamente a sua conta pessoal – este é pelo menos um ponto de discussão. Sucede que essa discussão não ocorreu. Onde é que quero chegar? O cálculo de Robles passou por assumir (e bem) que ser desta esquerda caviar na Lisboa de 2018 é o mesmo que ser do PCP na Lisboa de 1975, ou seja, é estar literalmente acima do bem e do mal.

Recorde-se o manto de silêncio que envolveu Sócrates e o manto acrítico que ainda envolve pessoas do socratismo, muitas delas do jornalismo e do comentário. Neste ambiente, uma jornalista pode mentir para defender um ex-primeiro ministro socialista. Neste ambiente, um ministro de finanças do PS pode dizer e fazer muito mais do que um ministro das finanças do PSD. Neste ambiente, todas as causas do BE passam automaticamente a ser causas do jornalismo, não se percebendo muitas vezes onde está a fronteira entre a atmosfera das redações e a atmosfera do BE. Neste ambiente, uma figura do BE pode e deve pensar que passa incólume.