GUERRA
Os socorristas de crianças
SÍRIA Abdalrham Ismail, fotojornalista da Reuters, com uma criança ao colo vítima de um bombardeamento em Alepo (16 de julho de 2016). O bebé sobreviveu FOTO D.R.
São carpinteiros, padeiros, professores, engenheiros, farmacêuticos, estudantes, gente normal - na verdade já não são gente normal, porque é impossível ser normal quando tudo é anormal. O país deles está desfeito. Eles também. Síria e sírios são país e gente esquecida, o socorro é prestado pelas pessoas mais improváveis - que estão nomeadas para o Nobel da Paz, embora algumas já não estejam vivas. Mundo, onde andas?
TEXTO HELENA BENTO FILMAGENS NA SÍRIA ALI DEMIR EDIÇÃO DE VÍDEO ANDRÉ ATAYDE
Khaled Omar ouviu um choro vindo dos escombros, ouviu o que mais ninguém ouviu - ele que ouvia e sabia mais do que os outros - e escavou durante horas até ao bebé. Socorrista dos White Helmets, distinguia-se entre os demais colegas por ter resgatado mais bebés e crianças do qualquer outro. Morreu este ano, em agosto, atingido por uma bomba. Khaled Katib, também socorrista do grupo, viu três colegas de trabalho morrerem ao seu lado, atingidos também durante um bombardeamento, também levado a cabo pelo regime sírio, com o apoio da força aérea russa. Mahmoud Rislan, o fotógrafo que captou o vídeo de Omran Daqneesh, o menino de cinco anos filmado sentado numa ambulância que comoveu o mundo, chorou muito no momento e chorou muito naquela noite, naquela noite em que “toda a gente chorou”. Abo Alezz é dos poucos médicos que ainda não morreu ou fugiu de Alepo. Ele resiste. E vai continuar a resistir, a defender o seu povo, “nem que para isso tenha de pagar com o [seu] próprio corpo”. A Síria onde eles vivem está desfeita. Eles também.
Khaled trabalhava como pintor e decorador quando decidiu juntar-se aos White Helmets, uma força de socorros não-governamental que atua na Síria. Deixou o antigo trabalho para se dedicar a tempo inteiro às novas tarefas. Nesse dia de junho, de 2014, ele e alguns colegas do grupo foram chamados a um local onde acabara de desabar um edifício, atingido durante um bombardeamento, em Alepo. O objetivo era resgatar vítimas e prestar-lhes assistência. Procurar sobreviventes entre os escombros. Durante nove horas, foi isso que fizeram. Escavaram. Quando deram a tarefa por terminada, pararam para descansar. Khaled deitou-se com a cabeça pousada sobre um pequeno monte de destroços e lixo. Era assim que estava quando ouviu um som que o fez despertar. Primeiro achou que estava a delirar, devido ao cansaço, mas depois percebeu que era real. “Ouviste isto? Anda cá. Encosta aqui o ouvido. Acho que ouvi um bebé a chorar”, disse Khaled a um colega socorrista que se encontrava ali perto, e que lhe respondeu apenas: “Tens razão”.
Khaled começou imediatamente a escavar. A escavar com as mãos, para poder controlar melhor os seus movimentos. Escavou durante outras tantas horas até que finalmente encontrou o bebé. Puxou-o lentamente até à superfície, agarrando-o pela roupa. O momento em que o pequeno, de barriga para baixo e a cabeça já descoberta, coberta de pó, o corpo igualmente coberto de pó, é arrastado foi captado num vídeo a que assistiram milhões de pessoas nos dias e meses seguintes. O bebé, que esteve 16 horas debaixo dos escombros, sobreviveu sem um único ferimento. Tinha apenas dez dias de vida. Chamaram-lhe “o bebé milagre”. É difícil encontrar outra explicação para o que aconteceu ali, naquele dia de junho.
— José Almeida (@josealmeida0001) 29 de setembro de 2016
Khaled tinha uma alcunha, “baby rescuer”. Chamavam-lhe “baby rescuer” porque, de entre os colegas dos White Helmets, fora ele quem mais crianças conseguira salvar até então. Quem mais crianças retirara dos escombros de edifícios destruídos, caídos, e a maioria com vida. Khaled chegava e escavava, não ao acaso, mas sabendo precisamente onde e como o fazer, como se adivinhasse ou tivesse simplesmente a capacidade de ver tudo para trás, incluindo aquilo a que não assistira, como se isso fosse possível. “O seu coração parecia dizer-lhe isso.” Parecia dizer-lhe que ali, mais à frente ou mais atrás, ali mesmo, naquele sítio muito específico, estava um bebé ou uma criança soterrada, coberta por um monte de destroços, já a respirar pouco e a custo, debaixo da terra, a precisar urgentemente de ajuda, dizia recentemente Ibrahim al-Hajj, responsável pela comunicação dos White Helmets, em declarações à televisão árabe Al-Jazeera.
O tal vídeo em que ele surge de costas, metido numa cova e inclinado sobre o bebé de dez dias, foi de tal modo partilhado que Khaled, semanas após o sucedido, foi convidado a reunir com o embaixador da Síria na ONU, Bashar Jaafari, em Washington e Nova Iorque. No final de um desses encontros, o embaixador convidou-o a partir para os EUA, de forma definitiva. Já estava tudo tratado, passaporte, autorizações, residência, tudo. Era meter-se num avião e pronto. Tudo muito simples. A família poderia inclusive juntar-se a ele, se assim desejasse. As razões para aceitar o convite eram muitas. Aliás, tudo o que ele tinha era isso, razões para aceitar. Para partir para os EUA, esse país relativamente seguro e suficientemente longe. Sem bombas a cair sabe-se lá de onde e a toda a hora. E sem um presidente que ataca os seus próprios cidadãos, enquanto deseja ser lembrado “como o homem que salvou o Síria”. Porque não haveria Khaled de aceitar a proposta? Porque não haveria ele de dizer que sim se...? Parecia óbvio, mas Khaled não o fez. Disse que não, que não iria. Ele tinha outros planos para si e o maior e mais importante deles era voltar para a Síria para continuar o seu trabalho junto da população. Foi precisamente isso que fez. “Khaled tinha um coração enorme”, dizia recentemente Anna Nolan, diretora do Syria Campaign, num comunicado divulgado pelo grupo.
Anna Nolan contava também que se tinha encontrado com Khaled em várias reuniões do congresso e do senado norte-americanos. A sua postura era sempre a mesma. “Ele acreditava que se os políticos soubessem o que Bashar al-Assad anda a fazer, se vissem os vídeos que mostram as bombas a atingir crianças, de certeza que iriam fazer tudo para pará-lo.” “Como poderia um ser humano não o fazer?”, questionava-se Khaled muitas vezes.
No dia 11 de agosto, Khaled foi atingido por uma bomba em Alepo e morreu. Era casado e tinha duas filhas. Uma delas, Isra, de três anos, costumava agarrar-se a ele e dizer baixinho: “Que Deus proteja o meu pai”.
GUERRA CIVIL Em Alepo, hospitais e clínicas de saúde continuam a ser atingidos de forma deliberada FOTO AFP
Os relatos de quem vive atualmente em Alepo são muitos semelhantes na dor, no pesar, na destruição. A situação na cidade é má, péssima, terrível. Há ataques aéreos todos os dias e todos os dias há mortos. A comida e os medicamentos escasseiam, hospitais e centros de saúde são atingidos de forma propositada. Médicos e enfermeiros, os poucos que ainda estão vivos ou não abandonaram ainda a cidade, trabalham em condições deploráveis e vivem sob a ameaça constante de tortura e morte. Ativistas, fotojornalistas, médicos, voluntários e organizações não-governamentais apontam o dedo ao regime de Bashar al-Assad e aos seus aliados russos, que desde setembro de 2015 começaram a bombardear a Síria. Fizeram-no a pedido do presidente sírio, que já não tinha homens nem recursos suficientes para continuar a combater as forças rebeldes no terreno. Mas não o fizeram por generosidade. Não. Fizeram-no essencialmente, unicamente, a pensar no seu próprio país, na necessidade de este reafirmar o seu estatuto de grande potência no Médio Oriente, fazendo com que qualquer negociação sobre a Síria tenha de passar, obrigatoriamente, pelo crivo de Vladimir Putin.
A situação em Alepo tornou-se particularmente dramática este ano quando o exército sírio, apoiado por milícias xiitas estrangeiras financiadas pelo Irão e pelo Hezbollah xiita libanês, tomou a única estrada - estrada Castello - que ligava a zona ocupada a Este às aldeias a Norte e à vizinha Turquia, cercando totalmente a oposição e os cerca de 300 mil civis que aí vivem. De repente, a população deixava de ter acesso a medicamentos e comida, que até então entravam na cidade por essa estrada.
CERCO A ALEPO Ofensiva das forças do regime perto da estrada de Castello FOTO GEORGE OURFALIAN / GETTY IMAGES
Organizações de apoio humanitário e dirigentes políticos apelaram ao regime sírio para pôr fim ao cerco e pediram à Rússia para intervir junto de Bashar al-Assad e convencê-lo a desistir dessa iniciativa. Moscovo respondeu ao apelo e, ao fim de alguns dias, foi anunciada a abertura de corredores humanitários para permitir a saída de civis e combatentes, na condição de que estes entregassem as suas armas. Mas, na verdade, nada mudou. A população continuou encurralada, sem ter para onde ir e como ir, obrigando-se a um racionamento de bens alimentares. Continuaram também os ataques aéreos, dezenas todos os dias, atingindo pessoas, escolas e hospitais.
A notícia, semanas depois, de que as forças da oposição tinham assegurado o controlo de uma nova estrada, al-Ramouseh, no sul da cidade, foi recebida com alegria pela população. “As pessoas ficaram tão contentes que começaram a queimar pneus velhos para festejar. Estavam divertidas, a rir-se muito”, conta Abdalrhman Ismail, fotojornalista da Reuters em Alepo, em entrevista ao Expresso. Dias depois soube-se que essa nova estrada era, afinal, tão insegura quanto a outra, devido aos bombardeamentos constantes.
FOTOJORNALISTAS Abdalrham Ismail e Ammar Abdullah, da Reuters FOTO D.R.
População e forças rebeldes da oposição convivem de forma pacífica na zona Este. Há, aliás, um sentimento de confiança. “As pessoas sabem que nas áreas controladas pela oposição podem falar livremente sobre qualquer assunto”, explica Ammar Abdullah, também ele fotojornalista da agência Reuters, em entrevista ao Expresso. “Ninguém tem medo dos rebeldes. Conheci um homem que me disse que preferia morrer aqui a ter de emigrar para um sítio qualquer.”
A maior esperança das pessoas é que a oposição, encabeçada atualmente pelo grupo rebelde islamita Fatah Halab (Conquista de Alepo) e pela coligação Jaysh al-Fatah (Exército da Conquista), que integra, entre outras milícias, a Frente Al-Nusra (antigo braço da Al-Qaeda na Síria, agora designada Jabhat Fateh al-Sham), consiga expulsar do território o exército sírio, diz o jornalista.
Já na zona Oeste da cidade, sob controlo das autoridades sírias, a situação é bem diferente. “Se alguém se manifestar contra o regime é imediatamente detido”, diz Ammar Abdullah. Mas mesmo com perseguições e chacinas, há muitos sírios, concentrados sobretudo em Lataquia, Tartus (ambas a noroeste) e Damasco (capital, a sudoeste do país), que continuam a apoiar Bashar al-Assad. Fazem-no por “interesses pessoais e sectários” e porque o presidente, apesar de tudo, garante-lhes aí alguma “estabilidade e segurança”. “As pessoas procuram um sítio onde não haja ataques aéreos todos os dias”, diz Ammar.
“Em Alepo, o céu nunca está limpo por mais de cinco minutos. Os aviões russos e as forças do regime estão permanentemente a atacar.” A cidade está quase sempre “vazia”, exceto de madrugada e ao final da tarde, quando ainda não começou a ronda diária de bombardeamentos. É nessas alturas que as pessoas, aproveitando os poucos minutos de acalmia, saem de casa para comprar bens de que precisam, conta Abdalrhman Ismail.
Também é normal vê-las a conversar na rua, reunidas em pequenos grupos. As conversas andam quase sempre à volta do mesmo. Fala-se sobre o conflito, sobre os familiares que morreram desde o início da guerra, diz Abdalrhman. Pode acontecer (e acontece muito) que, de repente, ouçam o barulho de um avião a aproximar-se. Quando é assim, as pessoas são obrigadas a fugir imediatamente. Fogem para as suas casas, escondendo-se nos abrigos subterrâneos que aí construíram. É em escolas improvisadas nesses abrigos debaixo da terra, onde o sol não chega e o ar é saturado, que as crianças têm aulas. “Os pais mandam-nas para lá. É a única forma de estarem protegidas dos bombardeamentos”, acrescenta Ammar.
Desde o início dos confrontos em Alepo morreram já milhares de crianças. Segundo a organização internacional Save the Children, as crianças representam aproximadamente 35% do total de civis mortos ou feridos. O vídeo de Omran Daqneesh, o menino de cinco anos que foi resgatado dos escombros da sua casa semidestruída atingida por uma bomba, e que é filmado sentado numa cadeira, numa ambulância, com o corpo e os cabelos cobertos de pó e o rosto em parte coberto de sangue, pôs o mundo a olhar finalmente para a tragédia que se vive na Síria.
— Emma Cole (@EmmaCole00001) 29 de setembro de 2016
Num e-mail divulgado pelo grupo The Syria Campaign, Mahmoud Rislan, o fotógrafo que captou o vídeo de Omran Daqneesh explica como tudo aconteceu:
“Passava pouco das 19h00, hora a que terminam as orações da noite, quando ouvimos as explosões. Eu e mais três pessoas, ativistas, dirigimo-nos ao local que nos indicaram. Assim que cheguei, vi três corpos a serem transportados para uma ambulância. Eram os vizinhos do Omran. O edifício deles estava totalmente destruído – os seus seis pisos haviam-se transformado num grande monte de lixo e entulho. Depois olhei para um prédio que estava apenas parcialmente destruído – era aí que o menino de cinco anos vivia, com a sua família. Os socorristas dos White Helmets dirigiram-se para esse prédio e eu fiz questão de os acompanhar. Lá dentro, o primeiro sobrevivente que encontraram foi o Omran. Eu peguei logo na minha câmara e comecei a filmar. Estava muito escuro lá dentro, a imagem não ia ficar bem, mas eu continuei agarrado à câmara. Um dos socorristas agarrou nele e transportou-o para uma ambulância que estava ali perto. Eu estava a filmar tudo. Mas foi quando reparei no quão perturbado ele estava que decidi parar de filmar e tirar apenas uma fotografia. Assim que a tirei, comecei logo a sentir as lágrimas a escorrer-me pelo rosto. Não era a primeira vez que chorava. Já tinha chorado muitas vezes ao filmar crianças perturbadas, que estão em choque. Choro sempre. Nós, fotógrafos de guerra, choramos sempre. Na noite passada, toda a gente chorou.”
“O que mais me impressionou em Omran”, continua Mahmoud Rislan, “foi o silêncio dele”. “Ele não chorou. Não disse uma única palavra. Estava simplesmente em choque.” Ali Daqneesh, de 10 anos, irmão de Omran, morreu dois dias depois, a 20 de agosto, vítima dos ferimentos sofridos durante o ataque aéreo.
Formado por antigos carpinteiros, padeiros, professores, engenheiros, farmacêuticos e estudantes, sobretudo homens - embora haja também algumas mulheres -, o grupo de defesa civil White Helmets tem como missão resgatar vítimas de bombardeamentos e prestar apoio às centenas de crianças que perdem os pais na guerra. No total, são quase 3000 voluntários.
“A parte mais difícil e perigosa do nosso trabalho é quando, durante uma missão de resgate, temos os aviões do regime em cima de nós a largar bombas”, conta Khaled Khatib, 20 anos, que trabalhou durante algum tempo como fotógrafo para o grupo e é agora membro da equipa de socorristas.
WHITE HELMETS Khaled Khatib, depois de “quase ter sido apanhado” numa explosão causada por uma bomba-barril, em julho de 2014 FOTO D.R.
Khaled recorda-se de uma situação em particular. Aconteceu em setembro de 2014. Os aviões sobrevoavam o bairro de al-Hedaria, em Alepo, já depois de terem lançado as primeiras bombas-barril. Ele e outros membros do grupo foram chamados de emergência ao local. Era preciso ver se havia sobreviventes. Mas ao aperceberem-se da sua presença, os aviões recomeçaram a atacar. Três colegas de Khaled foram atingidos e morreram imediatamente, assim como dezenas de outras pessoas presentes no local.
As bombas-barril, pelo seu grande poder de destruição – são barris de petróleo ou de combustível apetrechados de explosivos ou fragmentos de metais, para causarem ainda mais danos – nunca deveriam ser usadas perto de civis. A Amnistia Internacional tem alertado para isso. O regime sírio, porém, tem-nas usado intensivamente nos últimos anos. Só em julho último, foram lançadas 1.182 bombas deste tipo, a maioria sobre Alepo. Os bombardeamentos causaram a morte de 93 civis, incluindo 21 crianças, segundo números da Rede Síria para os Direitos Humanos.
SOCORRISTAS Parte da equipa de socorristas dos White Helmets FOTO THE SYRIA CAMPAIGN
Os White Helmets estão nomeados para o Nobel da Paz. “Esta nomeação é uma honra para nós. Para nós e para todo o país. É importante que o mundo saiba que a população síria quer a paz para o país, não a guerra nem a destruição”, comenta Khaled. O vencedor do galardão é anunciado a 7 de outubro.
Do total de voluntários que integra o grupo, morreram já 136, diz Khaled, que assume ter já pensado várias vezes em desistir e abandonar simplesmente o país. Mas nesses momentos de indecisão, há uma certeza que se impõe sempre: “Há muitas pessoas que precisam de ser retiradas dos escombros. O nosso país e a nossa população precisam de nós”. É essa a sua certeza. “Temos esperança de que a guerra termine em breve. Quando isso acontecer, vamos começar a reconstruir a Síria para que os refugiados possam voltar para as suas casas.” Embora se encontre atualmente em Istambul, na Turquia, Khaled espera voltar em breve a Alepo. A sua última experiência na cidade, há dois meses, foi “extremamente perigosa” (“tive medo a toda a hora”), mas nem isso o fará mudar de ideias.
HOSPITAIS DESTRUÍDOS DE PROPÓSITO
Os hospitais em Alepo são frequentemente atingidos por bombas. Desde o início dos confrontos, 95% dos médicos que trabalhavam na cidade fugiram, foram detidos ou morreram, segundo números da organização sem fins lucrativos Physicians for Human Rights (PHR). No relatório “Aleppo Abandoned: A Case Study on Health Care in Syria”, especialistas da organização notam que, em 2015, “foram atacados mais hospitais do que em todos os anos anteriores, privando milhares de pessoas de cuidados médicos essenciais”. Se antes dos confrontos havia “um médico para 800 pessoas, agora há um médico para cada 7.000 pessoas”.
RESISTENTE Abo Alezz, chefe de cirurgia de um dos hospitais da zona Este de Alepo FOTO D.R.
“A situação em Alepo é muito dura”, diz ao Expresso Abo Alezz, chefe de cirurgia de um dos “nove hospitais” da zona este da cidade que ainda se encontram de pé – os restantes foram destruídos por bombas. Há ainda “sete clínicas” em funcionamento. Quarenta médicos e 50 enfermeiros prestam cuidados de saúde aos 300 mil habitantes da zona este. Para Abo Alezz, o que torna a situação de Alepo “tão grave” é precisamente o facto de hospitais e outras instalações médicas “continuarem a ser atingidos propositadamente por aviões russos e do regime”. Widney Brown, da associação Médicos pelos Direitos Humanos (MDH), falava recentemente sobre o assunto à PBS, emissora norte-americana: “Sempre que se ataca um hospital não se está a destruir apenas uma estrutura - está a destruir-se um lugar seguro onde as pessoas podem ir para procurar ajuda. Sempre que se mata um médico não se está apenas a matar uma pessoa, está a matar-se todas as pessoas que poderia ter salvo”.
Escolas, mesquitas e mercados continuam também a ser atingidos deliberadamente. O grande objetivo do regime é fazer com que os rebeldes, incapazes de continuar a lidar com tanta destruição e morte, se rendam e abandonem a cidade, apontam vários especialistas. Com os rebeldes afastados, será mais fácil fazer a limpeza que Assad, alauita (um ramo do xiismo), pretende fazer sobre a população, que é maioritariamente sunita.
Abo Alezz sabe o perigo que corre. Mas, tal como Khaled Khatib, não pretende abandonar a cidade. “Estou aqui porque esta é a minha casa e este é o meu povo. E o meu dever é ficar aqui”. Não é que não sinta medo, porque sente. Medo e frustração, por não haver quem se preocupe. “Ninguém faz nada para salvar estas pessoas.” Mas a sua vontade de ajudar é superior a tudo isso. “Continuarei em Alepo e continuarei a defender a minha cidade, a minha casa, mesmo que o preço a pagar por isso seja elevado. Mesmo que, para isso, tenha de pagar com a minha alma e com o meu corpo.”
Ammar Abdullah, o fotógrafo da Reuters que começámos por citar, dizia algo semelhante durante a entrevista ao Expresso. “Porque é que ainda estou em Alepo? Francamente, não sei. Perdi o meu irmão nesta cidade, quando começaram as primeiras manifestações pacíficas contra Assad. Foi assassinado por um militar das forças pró-governamentais. Mas ele sonhava continuamente com a libertação de Alepo, com a liberdade do povo, e eu vou continuar a lutar pelo sonho dele.”
Um agradecimento especial a Ali Demir, editor de fotografia da agência estatal turca Anadolu, por se ter disponibilizado para filmar as entrevistas em Alepo, com a respetiva tradução em inglês; a Waela Leji, da Rede Síria para os Direitos Humanos, ao grupo The Syria Campaign (Laila Kiki, Lubna al-Kanawati e Bissan Fakih) e aos White Helmets