Henrique Raposohenrique.raposo79@gmail.com

A tempo e a desmodo

Henrique Raposo

Será que os criminosos devem ser subsidiados?

Não, não pensem que é piada ou provocação. É uma ideia que está a ser implementada numa cidade saturada de crime: Richmond (Califórnia). Lembram-se do mecanismo do “Minority Report” que antecipa o autor do crime ainda por cometer, retirando assim a surpresa e a morte do futuro? Através de uma sistemática recolha de dados, a câmara municipal de Richmond descobriu que a esmagadora maioria (70%) dos crimes violentos era cometida apenas por 28 homens - 28 bandidos em 100 mil habitantes. Qual foi a reação da cidade? Foi bater um papo com os tipos, levando debaixo do braço uma proposta revolucionária.

A proposta era esta: vocês recebem 1000 dólares por mês e, em troca, largam essa vidinha e submetem-se a programas de reinserção. O espantoso desta história não está na ideia, não está na coragem da câmara municipal em aplicá-la, o que é realmente espantoso é que os 28 homens aceitaram a proposta inicial em 2010. Entre 2010 e 2016, cerca de 70 homens entraram no programa. 79% saiu da vida do crime violento (armas de fogo). Em resultado, Richmond tem agora menos 73% de homicídios e menos 71% de assaltos à mão armada. Já não é a nona cidade mais violenta dos EUA.

Não sei o que pensar disto. Há um lado de mim que vê aqui rendição ao mal, mas há outro lado que vê misericórdia. Enquanto me decido, olho para os factos. Há menos crime, há menos pessoas assassinadas, há mais vida. É uma solução cara? Talvez. Mas não é mais caro manter a espiral de violência que provoca danos materiais? E cada homicídio nos EUA custa 400 mil dólares ao contribuinte (custos da investigação policial e do processo judicial). Richmond só gasta cerca de 28 mil dólares por mês e, ainda por cima, evita vários homicídios, isto é, evita várias multiplicações de 400 mil dólares. Mas, convém frisar, o mais importante é mesmo a retirada da morte: há menos 73% de homicídios, há mais 73% de vida. É um número que nos obriga a pensar fora da caixa.