“Esta gente que se levanta de peito e escreve para não matar ninguém”
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Raquel Nobre Guerra tem um livro publicado e outro a ser preparado para sair em 2015. Todos os poemas que escreveu até 2007 estão enterrados no cemitério de Caneças, com a sua avó. Para esta rubrica do Expresso Diário às sextas, aceitou ler “Pura”, um dos seus poemas, e escolheu ainda António José Forte para ser lido por Raquel Marinho
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TEXTO RAQUEL MARINHO VÍDEO JOANA BELEZA GRAFISMO VÍDEO JOÃO ROBERTO
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A poesia serve para quê?
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Para atrair as traças.
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Deve saber vários versos de cor. Qual o primeiro que lhe vem à cabeça?
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“Gostava tanto de mexer na vida”, Mário de Sá-Carneiro, “Últimos poemas”.
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Se não fosse poeta português (ou de outro país) seria de que nacionalidade?
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Se eu fosse poeta era sul-americana.
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Um bom poema é...
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Uma banana a apodrecer numa fruteira.
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O que a comove?
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Uma banana a apodrecer numa fruteira.
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Que poema enviaria ao primeiro-ministro português?
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“Discurso do filho da puta”, Alberto Pimenta.
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Por sua vontade, o que ficaria escrito no seu epitáfio?
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a) Vem brincar comigo. b) Onde se come, ficam migalhas.
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“brincando aos abismos esvaziamo-los como vasos”
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Raquel Nobre Guerra nasceu em Lisboa. Estudou num colégio de freiras até se licenciar e mestrar em Filosofia, e investiga atualmente para o doutoramento em Literatura Portuguesa a categoria de “fragmento” na obra de Fernando Pessoa.
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O poeta do desassossego foi, talvez, o primeiro de quem ouviu falar nas tardes em que ia para o café Nicola, no Rossio, com a avó: “Eu tinha 5, 6 anos e foi ela que me disse que o Pessoa costumava lá ir. Lembro-me de ter estranhado o nome e de ter perguntado: como é que uma pessoa se pode chamar Pessoa?” Mais tarde, pela voz de uma professora de português, conheceu a Ilha dos Amores do Canto IX dos Lusíadas e percebeu o que a poesia podia ser: “A minha professora emocionou-se quando leu o Canto IX. Eu estava na quarta ou na quinta fila, vi-lhe os olhos verdes ficarem marejados, e estremeci”.
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Corava muito com a palavra “amor”
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Começou a escrever poemas por essa altura, durante a adolescência, num caderno oferecido pela mãe, “reciclado e com conchas na capa”, mas tinha “muita vergonha” de os mostrar. Era o tempo em que ouvia Chico Buarque e Rita Lee e “corava muito com a palavra ‘amor’”, e em que tudo o que escrevia era guardado como um segredo que não pode ser encontrado.
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Ninguém encontrou esses poemas nem vai encontrar algum dia porque em 2008, quando morreu a avó de Raquel Nobre Guerra, morreu também toda a produção poética até esse ano. Num ato que considera “simbólico, impulsivo e adolescente”, mas do qual não se arrepende por ter sido também “de amor”, despediu-se dos poemas quando se despediu da avó: “Eu tinha os meus textos todos guardados numa disquete que pus entre as mãos da minha avó durante o velório. A disquete foi com ela. Os meus poemas até 2007 estão todos enterrados no cemitério de Caneças”.
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“Eu gostava de um dia conseguir dizer em vez de querer dizer”
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Em 2012 lançou o primeiro livro de poesia, “Groto Sato”, e ganhou o prémio Pen Clube Primeira Obra: “O livro resultou de coisas novas mas também há muitos poemas que foram rescritos de coisas antigas. É um livro com várias idades”. Fala de “Groto Sato” como uma obra “que pretendeu fixar de forma definitiva aquilo que estava em marcha há muitos anos” e que a fez aproximar-se daquilo que é: “Como se me tivessem passado um microfone para as mãos e eu quisesse lá pôr todas as pessoas que abracei na vida”.
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O próximo livro, a ser publicado em 2015, será diferente do primeiro, “como se eu me tivesse apropriado de mim com uma maior lucidez, autenticidade: o querer dizer nunca é o dizer, eu gostava de um dia conseguir dizer em vez de querer dizer”.
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A par da investigação para o doutoramento e da preparação do novo livro, é DJ numa danceteria ao Cais do Sodré. Tem dois pares de sapatos, “um para os amigos, outro para a Academia”.
Raquel Nobre Guerra tem 35 anos, um livro publicado e outro a ser preparado para sair em 2015. Todos os poemas que escreveu até 2007 estão enterrados no cemitério de Caneças, com a sua avó. Para esta rubrica do Expresso Diário às sextas, aceitou ler “Pura”, um dos seus poemas, e escolheu ainda António José Forte para ser lido por Raquel Marinho