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Bernardo Ferrão

Andamos nisto

Bernardo Ferrão

Sabia que tutti frutti também significa bloco central?

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Não é possível falar de bloco central e ignorar as ameaças de tal solução política. Com uma concentração de poder ao centro não só crescem os perigos nos extremos como desaparecem as alternativas. O centrão toma conta de tudo e exponencia uma lógica de compadrios e favorecimentos. A captura do Estado por interesses político-partidários fica mais facilitada. A investigação Tutti Frutti mostra-nos isso: como os partidos de poder compactuam em negociatas em troca de lugares e favores prejudicando o país e a democracia.

Muitos reagiram à operação da Judiciária com um encolher de ombros. Como quem diz: qual é a novidade? Há anos que se sabe destes esquemas que, basicamente, são o oxigénio das bases e das tão faladas máquinas partidárias. Tudo por baixo da mesa. Não há como negá-lo; sobretudo no poder local, e agravado com a reforma nas freguesias, há um submundo de caciques, jotas “empresários”, financiamentos ilegais, lugares “vendidos”, pagamentos em massa de quotas, obras adjudicadas a militantes. Tudo isto numa dinâmica de corrupção e com um foco: garantir lugares e manter a chave do cofre.

Não se pode dizer, preto no branco, que um bloco central traz mais corrupção, mas é óbvio que os riscos aumentam. A lógica é: todos traficam e todos se protegem. Vejam este caso Tutti Frutti, está lá tudo. Um esquema de financiamento que terá sido montado por um grupo de jotinhas e vários autarcas a surgirem como clientes/utilizadores desse mesmo esquema

Qual é a novidade? Bom, mais vale tarde do que nunca. Se o caso Sócrates mudou a forma como muitos passaram a perceber a relação entre os negócios e a alta política, esta investigação levanta o véu da baixa política. Bem sei que ainda são apenas indícios, apesar de fortes, mas quebram com um silêncio instalado. E servem de lição. Se essas práticas ilegais existem e se são a base dos partidos de poder e com maior implantação autárquica, é bom que se investigue. Mais: para quem achava que a corrupção era só um problema do PS, percebe agora – se é que já não tinha percebido – que no outro partido do centrão as práticas não mudam muito.

No medidor mediático, o caso pode ter tido pouco impacto mas é muito importante para a salvaguarda da democracia. Só separando o trigo do joio é que se impede que a política se afunde nesta imagem de fruta podre. É verdade que não se pode dizer, preto no branco, que um bloco central traz mais corrupção, mas é óbvio que os riscos aumentam. A lógica é: todos traficam e todos se protegem. Vejam este caso, está lá tudo. Um esquema de financiamento que terá sido montado por um grupo de jotinhas e vários autarcas a surgirem como clientes/utilizadores desse mesmo esquema.

Em 2010, numa eleição para a JSD, Carlos Reis, um dos principais visados nesta operação, aparecia num cartaz onde se podia ler “Acreditar – Nova Geração”. Oitos anos depois o país precisa de continuar a acreditar nessa e em todas as outras gerações de políticos. Por isso é tão importante que se apurem as culpas e os culpados. Para que não se possa dizer que os políticos são todos iguais. Não são. PS e PSD são os grandes interessados em evitar esse perigoso discurso. Olhem para o que está a acontecer na Europa e vejam quantos populistas tem crescido à conta dos políticos tutti frutti.