AVIÃO DESVIADO

Como é que um homem conseguiu sequestar um avião para chamar a atenção da ex-mulher?

ALARME O fantasma do terrorismo assombrou a comunidade internacional com o desvio de um avião da EgyptAir, esta terça-feira FOTO KATIA CHRISTODOULOU / EPA

ALARME O fantasma do terrorismo assombrou a comunidade internacional com o desvio de um avião da EgyptAir, esta terça-feira FOTO KATIA CHRISTODOULOU / EPA

Portugal acordou segunda-feira a saber que uma turista na Madeira se atirou ao mar para tentar apanhar a nado o cruzeiro onde seguia o marido. Esta terça-feira, o mundo despertou em sobressalto com a notícia de que um avião da EgyptAir tinha sido sequestrado, sabendo-se depois que foi protagonizado por um “tipo estúpido” que queria falar com a ex-mulher. O caso na Madeira foi estranho, o desta terça-feira ainda mais. Os passageiros sobreviveram ao susto - não houve feridos -, mas as perguntas ficam no ar: como é que um incidente destes a bordo de um avião acontece, sobretudo agora que a segurança nos aviões é prioridade máxima?

TEXTO EXPRESSO

O que leva um homem a sequestrar um avião, deixando em pânico quem está lá dentro e quem vê de fora, apenas para horas depois libertar todos os passageiros? A resposta ainda não é clara, mas já há pistas e estas afastam as hipóteses de terrorismo que um mundo absorvido pelo terror se apressou a colocar. Ao que parece, o sequestro do avião da EgyptAir, que começou e acabou esta terça-feira manhã, baseou-se numa tentativa do pirata do ar de “contactar a ex-mulher”, que vive em Chipre.

As autoridades não têm a certeza do que terá passado pela cabeça de Seif El Din Mustafa, o egípcio que impediu o voo 181 de aterrar no Cairo depois de uma curta viagem com início em Alexandria, como estava previsto. Ao invés disso, o sequestro que protagonizou, acompanhado da garantia de que trazia consigo um cinto de explosivos – uma ameaça que as autoridades cipriotas já desmentiram – obrigou o avião a aterrar no aeroporto de Larnaca, no Chipre, onde os passageiros acabaram por ser libertados sem registo de quaisquer ferimentos.

RESGATE Os passageiros que seguiam no avião conseguiram sair em segurança FOTO GEORGE MICHAEL / AFP / GETTY IMAGES

RESGATE Os passageiros que seguiam no avião conseguiram sair em segurança FOTO GEORGE MICHAEL / AFP / GETTY IMAGES

As explicações ainda continuam por chegar. Segundo o primeiro-ministro egípcio, Sherif Ismail, citado pela Reuters, “em alguns momentos ele pedia para se encontrar com um representante da União Europeia, e noutros para aterrar noutro aeroporto, mas nada de específico”. De resto, o sequestro parece ter decorrido tão calmamente quanto possível: um dos passageiros contou à CNN que o homem “não fez discursos no avião” nem invadiu o cockpit, mantendo-se durante as seis horas que o sequestro durou na parte de trás do aparelho enquanto dava indicações à tripulação.

As autoridades egípcias detiveram o suspeito e vão questioná-lo agora para “perceber os seus verdadeiros motivos”. Numa conferência de imprensa que aconteceu ao início da tarde desta terça-feira, o ministro dos Negócios Estrangeiros de Chipre, Ioannis Kasoulides, disse que o homem se rendeu voluntariamente e que se encontrava num estado mental frágil, tendo feito várias exigências, do contacto com a ex-mulher e dos pedidos para se encontrar com os líderes europeus à libertação de prisioneiros políticos. Na mesma declaração, Kasoulides confirmou também que o suposto cinto de explosivos era formado, na verdade, por várias capas de telemóvel.

A impressão geral a partir do meio da manhã foi que o caso começava a ser desvalorizado, tendo o “The Guardian” chegado a citar fonte oficial do Ministério dos Negócios Estrangeiros egípcio que dizia: “Ele não é um terrorista, é um idiota. Os terroristas são malucos mas não são estúpidos. Este tipo é”. As declarações tornaram-se públicas enquanto as negociações decorriam, pelo que foram rapidamente desmentidas pelo mesmo Ministério.

Tratando-se ou não de um romance que correu mal e de um terrorista que se calhar era só “um idiota”, a verdade é que esta história nos traz muito mais perguntas do que respostas. A primeira é óbvia e não tardou a ser colocada a nível internacional, mal surgiu a hipótese do cinto de explosivos: como é que um caso destes acontece numa altura em que a segurança nos aeroportos e aviões é tida como uma prioridade máxima?

SEGURANÇA As autoridades cipriotas detiveram o suspeito FOTO BEHROUZ MEHRI / AFP / Getty Images

SEGURANÇA As autoridades cipriotas detiveram o suspeito FOTO BEHROUZ MEHRI / AFP / Getty Images

Embora um comunicado do Governo cipriota divulgado ao início da manhã esclarecesse desde logo que “em qualquer caso isto não se trata de terrorismo”, a garantia de que este foi “um incidente sem precedentes” deixa dúvidas. Talvez nos moldes e principalmente nos motivos, mas esta não é nem a primeira nem a segunda vez – atalhando, é a oitava – que um avião desta companhia aérea é desviado - e o Egito ainda há semanas se viu envolvido numa tragédia.

O caso que ainda perdura na memória de todos, por ser sangrento e recente, é o de outubro, em que um avião russo que partiu do aeroporto egípcio de Sharm el-Sheikh se despenhou na Península do Sinai, matando os 224 passageiros que ali seguiam. Na altura, o Daesh reivindicou o ataque ao Metrojet Flight 9268, mostrando uma imagem da alegada bomba com que o fez explodir e garantindo ter descoberto “uma forma de comprometer a segurança no aeroporto internacional de Sharm El-Sheikh”. Na fotografia, uma imagem demasiado simples mostrava como o terror pode ser básico: uma lata de refrigerante e dois objetos que se pareciam com um detonador e um interruptor tinham alegadamente chegado para tirar a vida a 224 pessoas inocentes. Segundo o perito em explosivos Anthony May, que falou na altura ao “Guardian”, “qualquer protocolo de segurança típico devia detetar isto nos detetores de metal ou com raio X”, salvaguardando no entanto a hipótese de que os elementos tivessem sido transportados em separado até ao avião.

Mas o incidente desta terça-feira parece não ter muito que ver com o de outubro: “Não parece ser em nada semelhante. Parece tratar-se de uma forma mais antiquada de terrorismo”, diz o especialista Sajjan Goehl, do centro de investigação britânico Asia-Pacific Foundation. Depois das promessas do Egipto de intensificar a segurança aérea em resposta ao ataque do Daesh, o próprio aeroporto de Alexandria de onde o voo 181 partiu esta terça tinha aumentado as medidas de segurança.

O especialista em transportes do “Guardian” Gwyn Topham escreveu ao início da tarde um texto em que explicava que “a bomba do Metrojet russo em outubro e consequentes dúvidas sobre a eficácia da segurança na aviação egípcia acabou virtualmente com a indústria do turismo no Mar Vermelho”. “Se se provar que o homem estava armado ou que conseguiu entrar no avião com um cinto de explosivos, as autoridades terão de responder a perguntas difíceis, mas esse não parece ser o caso. Se ele não tinha qualquer arma consigo, os peritos dizem que este incidente poderia ter ocorrido em qualquer avião”, o que, como agora sabemos, se confirma. No entanto, as dúvidas permanecem quanto à facilidade com que o homem entrou com o que parecia à primeira vista ser um cinto de explosivos no avião.

TRAGÉDIA O ataque de outubro vitimou todas as 224 pessoas que seguiam a bordo do avião russo FOTO OLGA MALTSEVA/AFP/Getty Images

TRAGÉDIA O ataque de outubro vitimou todas as 224 pessoas que seguiam a bordo do avião russo FOTO OLGA MALTSEVA/AFP/Getty Images

A tragédia de outubro não foi a única a alarmar o Egito e a comunidade internacional, e a ameaça desta manhã não foi a única a envolver especificamente a EgyptAir neste tipo de notícias e acusações por falta de segurança a bordo dos aviões. Em oito ocasiões diferentes no passado, a EgyptAir teve de lidar com sequestros e desvios de voos que operava.

O mais recente aconteceu a 21 de outubro de 2009, quando um passageiro sudanês que viajava num voo que partira de Istambul com destino ao Cairo puxou de uma faca para ameaçar uma hospedeira e exigiu que o voo fosse desviado para Jerusalém. Na altura, dois oficiais da Força Aérea que seguiam a bordo do aparelho conseguiram imobilizar o homem, que estava embriagado.

O sequestro mais sangrento de que há registo na companhia teve lugar há mais de 20 anos, a 23 de novembro de 1985. Foi nesse dia que atiradores com ligações ao grupo extremista Abu Nidal tomaram conta do avião, desviando-o pouco depois da descolagem em Atenas para aterrar em Malta. Um dos atacantes foi morto pelo guarda que seguia a bordo, que acabou também por ser alvejado e ferido nos confrontos. Quando o aparelho aterrou, as autoridades egípcias tomaram o avião depois de 22 horas de negociações, numa operação que teve como saldo a morte de 50 passageiros e seis dos atacantes.

Entre os casos que envolvem a EgyptAir contam-se ainda o de 1976, em que um voo que partiu do Cairo e se dirigia a Luxor foi sequestrado por três passageiros armados que exigiam a libertação de cinco prisioneiros detidos por conspirarem para assassinar políticos dissidentes da Líbia e do Iémen. Outro incidente foi o de um homem egípcio e o seu filho e sobrinho adolescentes, que desviaram um voo em 1996 e disseram ter em sua posse explosivos, pedindo um encontro com os líderes políticos mundiais. Os atacantes acabaram por se render às autoridades da Líbia, onde o avião que se destinava ao Cairo se viu forçado a aterrar, dizendo que tinham uma mensagem de Deus para entrar ao então líder do país Muammar Kadafi.