Chamem-me o que quiserem
Henrique Monteirohmonteiro@impresa.pt
A Feira do Gado e o jornalismo de manada
Os jornalistas são tramados. Mas não somos todos? Propensos a ver o cisco no olho dos outros, mas jamais a trave no nosso próprio, como já escreviam os antigos (não digo que é na Bíblia, senão promovem-me a beato). Assim dispõem-se a crucificar Augusto Santos Silva por uma frase (e agora sublinho, para que meditem) dita em privado a um colega e amigo do Governo e captada por uma câmara televisiva para uma rubrica da TV chamada “Indiscretos”. Portanto é isto. O jornalismo deixou de ser uma mediação, um serviço e passou a ser uma indiscrição. Ou uma sacanice!
Defendo o direito de Santos Silva a dizer o que disse ao seu destinatário (que não era a audiência televisiva ou o país). E digo mais: exijo ao jornalista que cumpra o seu dever - ouvindo o que ouviu, sem que o autor da frase soubesse que estava a ser gravado, teria de pedir autorização ao próprio para a difundir. Sustento que os discursos público e privado têm âmbitos diferentes em todos nós – incluindo jornalistas. Receio – e, mais do que receio, acho até – que uma espécie de polícia do pensamento invada as nossas sociedades. Por último, lastimo que não se saiba analisar uma frase tão simples como esta: “ Ó Zé António, és o maior! Grande negociante… Era como uma feira de gado! Foram todos menos a CGTP? Parabéns!” (a frase que Augusto Santos Silva dirigiu a José António Vieira da Silva).
Que a esfera pública é diferente da privada é óbvio. Que diriam os polícias de costumes da nova era se eu dissesse que qualquer jornalista pode ter perguntado a outro: “Já mataste o George Michael?” - referindo-se ao facto de escrever o obituário do cantor; ou “passa isso para a merda do Parlamento, eles estão lá todos histéricos”, referindo-se a uma discussão entre representantes do povo? Toda a gente o faz. Toda a gente fala com os amigos num registo diferente do que faz em público. É, pois, hipócrita pretender que os ministros não o façam ou não o possam fazer.
Defendo ainda que gravações à traição não fazem parte do jornalismo. Dizem os códigos de jornalismo que só perante uma obstrução injustificada ao acesso à informação isso pode ser admissível. Não me consta que Santos Silva obstrua qualquer acesso. O Código de Conduta do Expresso diz o seguinte: “Não é admissível a utilização de meios ocultos para a obtenção de imagens da esfera privada de uma pessoa e/ou da sua família, em local público ou privado, sem a sua autorização. Da mesma forma, ao jornalista é vedada a gravação de conversas sem autorização do interlocutor ou a publicação de informação obtida ilegal e clandestinamente”.
Por último, a frase em causa, se analisada gramaticalmente, não compara a concertação e os seus membros a gado, mas sim as negociações que ali se fazem às negociações feitas nas feiras de gado. Para quem se preocupe em saber, pode perguntar a quem sabe de negociação o que retira da frase. Eu tive aulas disso mesmo, com o professor espanhol Agustín Avillez, e embora não seja especialista, posso em resumo dizer que há um preço que desejamos e um preço abaixo ou acima do qual não aceitamos (consoante vendemos ou compramos). Esse ponto chama-se ponto de rutura. Quem consegue fechar um acordo nessa margem é um bom negociador. Seja para comprar um automóvel, para fechar contratos de trabalho, para vender e comprar gado, para comprar casas, para o que for. Não há, como se vê, qualquer insulto.
Recentemente, em diversas entrevistas, das quais saliento a concedida à revista ‘Visão’, onde também escreve, Ricardo Araújo Pereira salientou que este politicamente correto nos leva para maus caminhos. Tem razão. Andamos todos a querer bons políticos, mas não lhes permitimos uma piada, uma boca, um desabafo qualquer sem ficarmos todos em pé de guerra. Havemos de ter lindos políticos assim… Soares, Sá Carneiro, Mota Pinto, Pinheiro de Azevedo e tantos outros teriam sido corridos por este coro de falsas vestais. A política há de ser para totós, incapazes de dizer uma piada, com medo da sombra, ou então para fanfarrões desbocados tipo Trump – eis o que a mediocracia aceita.
O ministro dos Negócios Estrangeiros decidiu pedir desculpa. Reconheceu ter dito palavras excessivas. Optou pelo mais fácil, pelo menos conflituoso. Nada me liga a Santos Silva, salvo uma ligeira embirração com o ar doutoral que por vezes o ministro coloca na sua pose, mas não me sentiria bem com a consciência se não me demarcasse desta manada de virgens pudicas em que os jornalistas, comentadores e políticos na comunicação social e nas redes sociais se estão a tornar.
Agora que o caso da Octapharma parece em vias de resolução e que o plasma público voltou a ser utilizado, é altura de dizer algo politicamente incorreto a todos eles: “Vão dar sangue!”.
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Amanhã
ESPETÁCULO
LUÍS DE MATOS INSTALA O CHAOS
O mágico Luís de Matos atua esta quinta e sexta-feiras no Teatro Tivoli BBVA, em Lisboa, onde vai apresentar o espetáculo CHAOS. O evento tem início às 21h30 e os bilhetes custam de €12 a €20.
CONCERTO
ORQUESTRAS DO ENSINO BÁSICO
A Academia de Música de Costa Cabral leva até à Casa da Música, no Porto, várias das suas orquestras de ensino básico, desde os sopros às cordas, passando pela percussão. Os jovens músicos vão apresentar neste concerto o trabalho que desenvolveram e prepararam ao longo de um ano. O concerto começa às 21h e os ingressos custam €7.
TEATRO
À CONVERSA COM O PRINCIPEZINHO
É apresentado esta quinta-feira no Convento do Espinheiro, em Évora, a peça de teatro “Conversa com o Principezinho”, adaptada da obra de Antoine de Saint-Exupéry por José Proença Carvalho. O espetáculo está agendado para as 21h30, a entrada é gratuita mas está sujeita a reserva.
CINEMA
“OITO E MEIO”, DE FEDERICO FELLINI
É exibido esta quinta e sexta-feiras na Casa das Artes, no Porto, o filme “Oito e Meio” (1963), do realizador italiano Federico Fellini. A narrativa é sobre um diretor de cinema que trabalha tanto que deixa de conseguir distinguir a ficção da realidade. As sessões são às 21h30 e a entrada é gratuita.