PERFIL | THOMAS COVILLE
“O maior feito a velejar desde Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral”
FOTO GETTY
Durante 49 dias, Thomas Coville viajou à volta do mundo, sozinho num veleiro, evitando colisões com baleias ou ondas de dez metros que faziam o seu barco balançar. Esta semana, e depois de quase uma década de tentativas falhadas, tornou-se o mais rápido a terminar o percurso. “Os grandes sonhos nunca se realizam à primeira tentativa”
TEXTO MARIANA LIMA CUNHA
Imagine que passava exatamente 49 dias, 3 horas, 7 minutos e 38 segundos rodeado de mar por todos os lados, sem qualquer contacto humano e sem terra à vista. Durante esse tempo, tinha a enorme responsabilidade de vigiar constantemente a embarcação em que seguia, uma vez que não havia mais ninguém a bordo – e assim ninguém com quem dividir turnos ou partilhar horas de sono, que tinham de ser apressadas e sem nunca deixar de estar alerta. Mais: enquanto vigiava o percurso do barco, enfrentava ventos fortes e ondas de dez metros de altura, tinha de se assegurar que chegava à sua meta no tempo planeado – afinal, fazia parte de uma das mais exigentes competições do desporto mundial.
Foi exatamente isto que aconteceu a Thomas Coville, o velejador francês que no dia de Natal se consagrou o novo detentor do recorde de vela em solitário, com uma marca incrível que bate em oito dias o recorde anterior, conseguindo pelo seu conterrâneo Francis Joyon, em 2008. Este domingo, pelas 17h57 (hora local) e após ter dado a volta ao mundo completamente sozinho, Coville chegava finalmente ao porto francês de Brest, erguendo uma tocha na mão enquanto era saudado por milhares de apoiantes e familiares que durante semanas temeram – e com razão – a sua segurança.
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— erik petersen (@erik_petersen) 28 de dezembro de 2016
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A travessia não se adivinhava fácil e Coville sabia-o, ou não fosse esta a sétima vez que deu a volta ao mundo e a quinta que tentou quebrar o recorde estabelecido por Francis Joyon, que fez o mesmo percurso em 57 dias, 13 horas e seis minutos. A frustração funcionou para ele como uma espécie de combustível, conseguindo nas primeiras tentativas bater o segundo melhor tempo de sempre, da britânica Ellen MacArthur (71 dias, 14 horas e 18 minutos). Nesses primeiros ensaios, que aconteceram a partir de 2008, chegou a ter graves estragos no barco devido a colisões com gelo, chegando em lágrimas ao fim do percurso, que conseguiu completar em duas das ocasiões.
Desta vez, mesmo tendo feito um tempo que está a ser considerado “incrível” pelos órgãos especializados, Coville também não se livrou dos desafios que uma viagem destas representa. Durante a travessia, feita a uma velocidade média impressionante de 45 quilómetros por hora, o velejador chegou a enfrentar ondas de até 10 metros de altura e ventos entre 55 a 75 quilómetros por hora no Oceano Índico. “Viver com isto não é fácil, porque temos de estar muito concentrados e disponíveis para o barco. Temos de estar no exterior: há muito para monitorizar. É preciso aceitar que às vezes estás a velejar debaixo de água”, explicou à chegada.
Condições verificam-se uma vez numa década
Para a velejadora britânica Samantha Davies, que fez parte da sua equipa de apoio em terra, não houve “um momento particularmente tenso”: “Todo o percurso foi tenso”, esclareceu, citada pelo “Telegraph”. “Num barco como o Sodebo, pequenas coisas podem tornar-se rapidamente grandes complicações. O nosso trabalho era ajudá-lo a encontrar soluções, mas frequentemente ele encontrava-as primeiro”. Numa ocasião, Coville achou mesmo que corria perigo de vida, quando conseguiu por pouco evitar uma colisão frontal com uma baleia: “Devemos ter-nos visto ao mesmo tempo. O barco virou-se de lado. Por um momento, esperei o pior. Podia ter sido o fim”.
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Com a partida marcada para as 13h49 do passado dia 6 de novembro, Coville recebeu durante a travessia informações da sua equipa de apoio em terra, como mapas das condições climatéricas, fotos de satélite e opções para a rota, e respondeu via mensagens instantâneas no Skype. Conseguiu assim desviar-se mais para sul, apanhando os ventos mais favoráveis e evitando o gelo, além de ter beneficiado de condições climatéricas espetaculares, que segundo a revista “Yachting World” se verificam “talvez uma vez numa década”: “Coville precisou de todas estas tentativas para o encontrar e tirar proveito delas”.
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Esse tempo, que tantas vezes no passado o prejudicou e o impediu de concretizar este sonho, foi desta vez crucial para o triunfo do velejador francês: é preciso recordar que Coville foi tão rápido que não só bateu o recorde para vela em solitário como ficou em terceiro lugar para qualquer veleiro – as únicas duas embarcações que completaram o percurso mais rapidamente tinham tripulações de 10 e de 14 pessoas, pelo que podiam trabalhar em turnos. Coville apenas precisava desta vez de chegar até dia 3 de janeiro para bater o recorde anterior e antes de 26 de dezembro, pelas 13h49, para bater o recorde histórico em menos de 50 dias – acabou por cruzar a linha oficial de chegada, em Ushant, ilha do Canal da Mancha, ainda antes disso, alcançando segundo as revistas da especialidade “velocidades estonteantes” na reta final.
Um aventureiro dos tempos modernos
Tal feito só podia ter sido alcançado por um velejador tão experiente, descrito pelos colegas como um desportista eclético, inteligente, um excelente comunicador e um competidor nato; a patrocinadora Sodebo explica que Coville é a personificação do “aventureiro dos tempos modernos” - uma paixão que começou cedo e que foi incutida ao francês quando era apenas uma criança pelos seus pais.
Nascido em Rennes, a 10 de maio de 1968, cedo Coville começou a velejar, inscrevendo-se durante a adolescência numa escola de vela em Côtes-d’Armor, onde se iniciaria na competição náutica em embarcações de vela ligeiras. A partir desse momento, e apesar dos desvios a que a vida o levou – estudando áreas como a informática, contabilidade e finanças, e tornando-se finalmente engenheiro -, nunca mais abandonou o mar.
Coville ainda chegou a exercer a sua profissão, mas em 1993 decidiu seguir o seu sonho e dedicar-se à carreira marítima – uma decisão que hoje parece ter sido a mais acertada, tendo em conta os prémios e louvores que foi acumulando. Vamos aos números: desde então, o velejador já venceu duas vezes a volta a França, em 1985 e 1993, e deu sete vezes a volta ao mundo (três delas em solitário), tendo estabelecido durante a sua carreira um total de 11 recordes (sete deles em solitário e quatro em equipa). No seu currículo encontram-se ainda 15 viagens transatlânticas.
Muitos destes registos foram conseguidos com o seu fiel companheiro, o veleiro “Sodebo Ultim”, que herdou há cerca de 16 anos do velejador Olivier de Kersauson, ainda a embarcação se chamava “Geronimo”. No entanto, desses tempos resta quase exclusivamente a base, de 31 metros de comprimento e 21 metros de largura: durante um ano, tempo que Coville considerou um “verdadeiro desafio”, o velejador e uma equipa de designers dedicaram-se a remodelá-lo quase na totalidade, tornando esta embarcação uma “libelinha que devora as águas e enfrenta perigos constantes”.
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É como se alguém voltasse a chegar à lua
Para Ricardo Diniz, velejador português que em 2014 partiu de Portugal no mês de abril, sozinho num veleiro, chegando ao Brasil em junho, o feito de Coville ultrapassa a esfera da vela ou mesmo do desporto: “É um feito tão grandioso que é como se alguém voltasse a chegar à lua, é um feito humano”. Ao Expresso, também Diniz enfatiza as qualidades únicas de Coville, que lhe permitiram realizar a façanha – descreve-o como um marinheiro “muito determinado, completo, um dos melhores do mundo” – e explica o que qualquer velejador precisa de fazer para completar um viagem tão solitária: “Estar sozinho no mar é muito exigente; temos de estar atentos a tudo, dormir atentos. Nunca dormimos mais de dez, 15 minutos de cada vez. Temos de ser multifacetados, saber produzir conteúdos, ser meteorologistas, cozinheiros, mecânicos, até jornalistas, para poder partilhar o projeto”.
No meio de todos os desafios, o que faz cada velejador solitário querer desistir não é a parte do isolamento: “Essa é a parte da meditação, o privilégio de estarmos no meio do mar, em contacto com a natureza. Coville, que estava em competição, tem de gerir todas as frentes, o perigo está sempre à espreita; não tem tempo de apreciar a natureza, o pôr do sol. Pode querer desistir por estar num cansaço extremo, mas desistir no meio do mar é perigoso: a única solução que temos ali é continuar”.
A exaustão do campeão, que chegou ao porto de Brest, 52 mil quilómetros depois, por entre muitas lágrimas e champanhe, foi notória nas declarações que se apressou a dar aos jornalistas que o esperavam. “Neste momento, só quero uma coisa: dormir e deixar a minha mente descansar. Quero ir dormir dizendo a mim próprio: tudo acabou bem!”, explicou, citado pelo “The Guardian”. “Com as velocidades que atingia, estava sempre no fio da navalha. Fisicamente, não conseguia ir mais longe. Tudo isto foi combinado com uma grande fadiga. A minha privação de sono é muito séria.”
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Todas as dificuldades tiveram o mérito de inspirar Coville e dar um sabor especial a esta vitória, que Ricardo Diniz descreve como “o maior feito alguma vez conseguido a velejar, depois de Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral”, e uma motivação que vai além do mundo da vela, podendo inspirar “qualquer pessoa, em qualquer esfera, a lutar pelos seus objetivos”. Essa é exatamente a motivação de Coville, explicou o recordista à chegada: “Os grandes sonhos nunca se realizam à primeira tentativa. Eu tentei; eu falhei; levantei-me de novo e reconstruí-me. A minha história é a de um tipo que um dia acredita que o consegue fazer e um dia concretiza o seu sonho. Talvez o meu sonho liberte outros sonhos”.