Opinião
Filipe Santos Costa
O ódio ao jornalismo livre
O clima de ódio que se tem criado em relação à comunicação social não permite aos talibãs enxergar um palmo para além do seu fanatismo. Dou dois exemplos daquilo a que me refiro.
Na sexta-feira, o Observador publicou uma série de VÍDEOS em que denuncia o domínio dos sindicatos de voto nas recentes eleições para a distrital de Lisboa do PSD. É um trabalho jornalístico exemplar, em que prova o peso dos caciques e dos "sacos de votos" na estrutura de um dos grandes partidos do regime, facto que constitui um enorme entorse à democracia que temos. Há anos que os jornais escrevem sobre isto, há anos que sabemos que isto não é exclusivo do PSD - a realidade é a mesma no PS (e no CDS, à medida do partido, que, como sabemos, tem medidas mais modestas). Os partidos sempre negaram esta realidade, mentindo com os dentes todos.
Eis a prova: imagens dos caciques partidários com listas de nomes, de carrinhas a despejar gente para votar devidamente orientada, tudo com grande à vontade e total impunidade.
E eis que se levantam várias vozes atacando esta investigação. Uns porque o Observador usou câmaras ocultas. Outros porque levantam dúvidas sobre a legalidade do que os jornalistas fizeram. A sério? Desde quando é proibido filmar o que se passa em público, na rua ou num hall de hotel, como foi o caso, num evento público com óbvio interesse público? E é preciso fazer um desenho para explicar que essas imagens só existem porque foram feitas como foram? Que se fossem filmadas às claras o comportamento dos caciques seria dissimulado?
Essas objeções, sobre a forma, mas não sobre o conteúdo, vieram quase sempre coloridas com insultos ao Observador. Por ser “de direita”, por ser “PAFista” (adoro este, porque já nem os partidos da PAF são PAFistas!...), por ser “fascista”, enfim, por ser a nova PIDE.
Nada demoveu os críticos do seu preconceito - nem o facto de a reportagem em causa atingir o PSD. Talvez isso até tenha piorado o caso, porque contraria o preconceito de que o Observador “está ao serviço da direita”, frase feita que esmaga tudo debaixo de um rolo compressor, sem distinguir textos de opinião e notícias. No fundo, o problema desta gente é só um: o Observador obviamente não alinha no coro de hossanas ao governo e ao seu Querido Líder, portanto tem de ser descredibilizado, desacreditado e atacado custe o que custar. O Observador não passará e nada do que escreva passará - foi isso que se viu na generalidade das críticas à reportagem da semana passada.
(E nem me refiro a casos limite, como um texto em que uma suposta especialista em jornalismo elaborava uma delirante teoria segundo a qual o Observador colocou câmaras ocultas no hotel onde decorreu a eleição do PSD-Lisboa, obviamente com a cumplicidade do pessoal do hotel... Esse é só um caso dramático em que se recomenda a intervenção urgente das competentes entidades de saúde.)
Segundo exemplo.
O Expresso escreveu no sábado sobre dúvidas fundadas em relação aos mortos da tragédia de Pedrógão. A primeira, a mais básica das dúvidas, nunca devia ter existido: em qualquer país civilizado, a lista com os nomes das vítimas de uma tragédia como esta é pública. Por respeito aos mortos, não se escondem os mortos. Seja por que razão for.
A lista do Expresso tinha um nome a mais. Uma vítima que não estava na contabilidade oficial. É irrelevante? Não pode ser. Primeiro, porque cada pessoa conta; depois, porque a família dessa vítima julgava que ela era uma das 64
Para poder publicar os 65 nomes que publicou, o Expresso não ficou sentadinho à secretária, à espera de informação que o Estado esconde, nem se limitou a reproduzir listas mais ou menos apócrifas ou conspirativas: os jornalistas do Expresso (nota: eu não fui um deles) foram para o terreno, ouviram relatos, compilaram nomes, despistaram informações não confirmadas. Chegaram a 65 nomes. Desses, 64 seriam os mesmos da lista oficial - muito bem: a questão é que, se não fosse o trabalho dos jornalistas, esses nomes nunca seriam conhecidos, porque a lista oficial começou por ser recusada pelo Governo e depois ficou sob um absurdo segredo de Justiça.
Mas a lista do Expresso tinha um nome a mais. Uma vítima que não estava na contabilidade oficial. É irrelevante? Não pode ser. Primeiro, porque cada pessoa conta; depois, porque a família dessa vítima julgava que ela era uma das 64. Não era (com tudo o que isso implica do ponto de vista de indemnizações ou apoios do Estado). Podia haver mais casos destes? Sim. Sabíamos que havia mais? Não. Mas surgiu entretanto a suspeita em relação a uma 66º morte. Podemos questionar? Devemos.
Mais: até à publicação da notícia do Expresso, poucos saberiam quais eram os critérios para a contabilização dos 64 mortos. Agora sabemos: são mortes diretas, por queimadura ou asfixia. É este o critério - podia ser outro. Podemos questionar? Claro que sim.
Depois da notícia do Expresso, o Ministério Público anunciou que está a investigar a morte da 65ª e da 66ª vítimas. Revelou a lista oficial com os 64 nomes. E apelou a quem tenha mais informações que as divulgue às autoridades. Que diferença em relação ao discurso de que “está tudo esclarecido”.
Apesar de tudo isto, os tifosi do Governo, percebendo a fragilidade em que o Governo está neste caso, tudo fizeram para desacreditar o trabalho do Expresso. Desvalorizaram o que não se sabia e ficou a saber-se. Desprezaram as dúvidas que se levantaram. Deram gás a teorias da conspiração que o Expresso não alimentou (pelo contrário, o texto explicitamente rebatia a validade das “listas” que corriam no terreno). Apoucaram o trabalho dos jornalistas que cruzaram fontes e confirmaram informação. Imputaram intenções obscuras a um trabalho sério. E não foram apenas espontâneos mais ou menos anónimos e mais ou arregimentados a fazê-lo. Esse ataque foi feito também por membros do Governo e dirigentes do PS, com um discurso que nada deve às acusações de “fake news” de Donald Trump.
Um último comentário, sobre a manchete desta edição. Por uma questão de lealdade, fiz as minhas apreciações a quem de direito dentro do jornal. Serei, por isso, parcimonioso na crítica pública. Digo apenas que achei a formulação infeliz, pela simples razão de que aquela manchete não se percebe. Eu, pelo menos, não a percebi - ou seja, não consigo tirar dali um sentido. E isto significa que não leio ali uma manchete contra o Governo, contra a oposição ou a favor do que quer que seja. Não percebo, ponto final. E uma manchete que não se percebe não pode ser boa.
Mas percebo que um jornal não é uma manchete - é muito trabalho, de muita gente. Convém lê-lo e não ficar pelas gordas, sobretudo se se quer criticá-lo. Mas para quem queira apenas atacá-lo, basta o ódio à imprensa livre. E disso há muito por aí.
*versão adaptada pelo autor de um texto publicado na sua página de Facebook