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Daniel Oliveira

Antes pelo contrário

Daniel Oliveira

A catástrofe venezuelana

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Já aqui escrevi, mais do que uma vez, que o regime venezuelano saltou para o lado de lá da democracia com Nicolás Maduro. O caudilhismo e o desrespeito por algumas regras essenciais da democracia já lá estavam, com Hugo Chávez. Mas nunca aceitei que a situação da Venezuela fosse analisada ignorando o que sempre foram as “democracias” musculadas e oligárquicas da América Latina. Analisar o chavismo, regime que nunca apoiei por razões que agora são claras, ignorando que à sua nascença a “oposição democrática” da Venezuela tentou derrubar um governo eleito pelo povo através de um golpe militar é ignorar o contexto em que tudo o que veio depois aconteceu. É bom recordar que, em plena crise humanitária, a oposição de direita apoia as sanções económicas de Donald Trump, um homem que, como sabemos, não dorme a pensar na defesa dos valores democráticos no mundo.

Com todos os abusos, Hugo Chávez não pôs em causa o essencial das instituições da democracia liberal e respeitou os resultados eleitorais, incluindo quando lhe foram negativos. Isso mudou com Maduro, um homem sem o carisma, a autoridade e a popularidade de Chávez. Ao desrespeitar a eleição da última Assembleia Nacional, Maduro passou a linha que separava esta revolução de uma ditadura. Lamentavelmente, perante a crise humanitária que vive, esse já é o menor dos problemas da Venezuela.

Cerca de 2,3 milhões de venezuelanos abandonaram o país nos últimos dois anos e 1,3 milhões sofrem de desnutrição. Maduro e quem ainda o apoia podem queixar-se das sanções e do cerco interno e externo ao país. Mas se o socialismo pretende dar ao povo uma vida digna não é seguramente em nome do socialismo que Maduro se pode agarrar ao poder. Até porque a culpa da catástrofe económica foi, primeiro, de Chávez, por não ter mudado uma economia extrativista incompatível com qualquer verdadeira mudança social, e do próprio Maduro, que, com a sua avassaladora incompetência, tem piorado tudo o que já estava mal. O problema é que Nicolás Maduro acredita se combate esta crise gritando ordens à economia.

A Venezuela terá, pelo quinto ano consecutivo, a inflação mais alta do mundo. Em julho, foi de 125% e uma inflação anual, entre julho 2017 a julho 2018, de 65.320%. O problema é que esta hiperinflação é acompanhada por uma queda profunda da produção, o que nem sempre acontece. Contra tudo isto, Maduro tem um plano. Um plano de medidas dispersas, mal preparadas e contraditórias. Vale a pena, para perceber a catástrofe que é a sua governação, ler este texto do economista marxista venezuelano Manuel Sutherland, de onde também tiro algumas das informações que aqui uso.

Quem, em nome do povo, da pátria e do socialismo, atira para a mais vil miséria o povo, entrega os recursos naturais a um país estrangeiro e aprofunda os erros de uma economia extractivista já não está a defender coisa nenhuma a não ser a sua própria sobrevivência

Como os salários vão sendo devorados pela inflação, Maduro avançou com um aumento do salário mínimo de 3.3645%. Apesar do salário mínimo estar muito abaixo do limiar de pobreza extrema, este aumento é incomportável para quase todas as empresas, que estão virtualmente falidas numa economia em colapso extremo, e para o próprio Estado, que terá de garantir este brutal aumento para funcionários públicos, pensionistas, no total de sete milhões, e ainda se comprometeu a assumir, na fase inicial, o acréscimo de despesa das PME, o que corresponde a três milhões de trabalhadores. Se a isto juntarmos os 10 milhões que recebem o Carné de la Patria, temos noção do compromisso impossível para quem tem 20% de défice e se compromete a chegar rapidamente ao zero. Para o conseguir, aumentará o IVA e o IRS, somando crise à crise. Como pagará o que não tem? Emitindo dinheiro e contribuindo mais para a inflação. A espiral não tem fim. Na realidade, sem resolver o problema da hiperinflação, o aumento nominal dos salários não resolve coisa alguma.

A reconversão monetária, que tirou cinco zeros ao bolívar (estava para tirar “apenas” três), transformando o “bolívar forte” em “bolívar soberano”, seria sempre necessária. Mas se mais nada mudar, daqui a uns meses a Venezuela terá de adotar um “bolívar extraordinário”, com menos uns zeros.

Perante a tragédia que vive, o vídeo de Maduro a comer uma excelente refeição em Istambul causou escândalo. O populismo que serve para derrubar a direita também serve para derrubar a esquerda. A imagem só resulta porque há fome na Venezuela. E se há fome na Venezuela isso tem um responsável. Só que a imagem foi recolhida no regresso de uma viagem onde o almoço foi o menos importante. Maduro foi à China para salvar o regime. De Pequim virão cinco mil milhões de dólares que, somado ao que já existe em dívida, chega aos 28 mil milhões. Em troca, a China conquista novos acordos de exploração de gás, expande as suas operações petrolíferas no país e aumenta a sua participação acionista em empresas petrolíferas venezuelanas, o que corresponde a uma perda de peso do Estado na exploração da maior riqueza nacional.

Poderão dizer, e não mentem, que qualquer mudança que ponha em causa os interesses da elite económica latino-americana terá de enfrentar a sabotagem, as tentativas de golpe, o cerco externo. E que qualquer mudança em nome dos mais pobres, naquelas nações, não pode sofrer de ingenuidades que ignorem a especificidades políticas do continente. Mas a verdade pura e dura é que quem, em nome do povo, da pátria e do socialismo atira para a mais vil miséria o povo, entrega os recursos naturais a um país estrangeiro e aprofunda os erros de uma economia extrativista já não está a defender coisa nenhuma a não ser a sua própria sobrevivência.