Terrorismo
Médicos decidem esta quarta-feira se operam português baleado no ataque em França
Foto Reuters
Decisão sobre delicada operação a Renato Silva, um jovem português que ficou gravemente ferido pelo terrorista com uma bala alojada no cérebro, deverá ser tomada nesta quarta-feira. No mesmo dia, a França vai prestar uma homenagem de Estado ao tenente-coronel Arnaud Beltrame, que foi assassinado depois de se ter oferecido como refém para salvar a vida a uma empregada de um supermercado
Texto Daniel Ribeiro, correspondente em Paris
A equipa médica que está a acompanhar Renato Silva, de 26 anos, baleado na cabeça pelo terrorista do ataque de sexta-feira em França, terá esta quarta-feira uma reunião decisiva com os pais do jovem português, para decidir sobre se vão ou não tentar extrair a bala do seu cérebro.
Esta terça-feira, Renato Silva, designer de 26 anos natural da região de Coimbra, filho de portugueses modestos, emigrantes que residem na região de Carcassonne, permanecia em coma induzido, num hospital de Perpignan. O caso clínico de Renato, sobre quem o terrorista disparou ao roubar-lhe o carro, é o mais grave de todos os feridos, uma dezena, internados em hospitais da região.
De acordo com relatos que chegam a Paris, é “um milagre” que Renato tenha conseguido sobreviver aos ferimentos que lhe provocou o terrorista. Fontes da polícia consideram igualmente ser “um milagre” que ele, segundo alguns jornais portugueses, tenha conseguido contactar a mãe pelo telefone logo a seguir aos disparos do atacante.
A reunião dos médicos com os pais de Renato Silva, que vivia há dois anos em França, decorre no mesmo dia da homenagem de Estado a Arnaud Beltrame, um novo herói francês. Na passada sexta-feira, o “gendarme” (equivalente aos militares da GNR portuguesa) teve um comportamento exemplar em Trèbes, nos arredores da cidade de Carcassonne (sul de França). Ofereceu-se, desarmado, como refém, em substituição de uma empregada de um supermercado que um terrorista ameaçava matar. Salvou-lhe a vida, mas sacrificou-se. Morreu no dia seguinte, sucumbindo a três tiros e a uma facada na garganta (foi esta que o matou, segundo a autópsia).
Foi elogiado pela Presidência, o Governo e as autoridades militares francesas como um grande soldado, insigne patriota, e todos os mais altos louvores. Militar de carreira, tinha 45 anos de idade, não tinha filhos, era católico praticante e pretendia desposar nas próximas semanas, na Igreja, a sua mulher (com quem estava casado apenas civilmente).
Arnaud Beltrame foto epa
Possuía um riquíssimo currículo militar - recebeu, em vida, as mais altas condecorações, esteve no Iraque, foi paraquedista, diretor de segurança da Presidência francesa e de ministérios e quadro do restrito corpo operacional de assalto do GIGN (secção especial de intervenção da “gendarmeria”).
Ofereceu a própria vida para salvar uma refém. Todos se emocionam e o elogiam hoje em França, incluindo a Igreja e os mais anónimos dos cidadãos. “A França nunca esquecerá o seu sacrifício, morreu pela pátria, é um herói nacional”, disseram em conjunto o Eliseu, o Governo e as hierarquias militares.
Arnaud Beltrame vai ser postumamente elevado ao grau de coronel nas homenagens oficiais da manhã desta quarta-feira, em Paris, presididas pelo chefe de Estado, Emmanuel Macron, e que começarão no Panteão Nacional e terminarão no Pátio dos Invalides, local onde habitualmente decorrem as cerimónias fúnebres dos chamados Grandes Homens franceses.
Herói nacional esteve 3h37 a sós com o terrorista que o matou
Na sexta-feira, passou 3h37 a sós, num aterrador frente a frente, com Radouane Lakdim, 25 anos, francês de origem marroquina e islamita radical, no interior de um supermercado de Trèbes (da marca Super U), nos arredores de Carcassonne.
Antes, Lakdim já tinha assassinado a tiro uma pessoa e ferido outras, antes de chegar ao parque de estacionamento e de entrar no estabelecimento.
Tudo o que o militar e o terrorista disseram durante essas mais de três horas de angústia e de nervosismo foi ouvido no exterior por alguns dos seus camaradas - e provavelmente ficou gravado - porque Beltrame tinha deixado o seu telemóvel ligado sem que Lakdim se apercebesse disso. Era de facto um profissional que sabia o que estava a fazer.
Foto epa
As câmaras de vigilância do exterior do Super U registaram a chegada ao parque, às 10h38, do Opel Corsa branco que Lakdim tinha roubado ao português dez minutos antes, depois de ter disparado sobre ele e matado a tiro o seu passageiro, um agricultor reformado. Entrou um minuto depois no supermercado e matou imediatamente duas pessoas: uma cliente e o empregado do talho. Foi o pânico total no local. Alguns clientes conseguiram fugir pelas traseiras, outros deitaram-se aterrorizados no chão.
O alarme foi dado e, poucos minutos antes das 11h, o tenente-coronel Arnaud Beltrame já estava no exterior do Super U. Entrou a seguir, com um grupo de colegas, no edifício, pelo primeiro andar, onde funciona a administração. Apercebeu-se que se estava à beira de uma tragédia de grandes proporções e decidiu agir. Uma pequena coluna desceu então ao rés-do-chão e entrou na parte comercial do supermercado. Clientes continuavam apavorados e deitados no chão e o terrorista agarrava uma empregada como escudo e com uma arma apontada à cabeça.
Foi então que Beltrame pousou a sua arma no chão, levantou os braços e se ofereceu para ficar refém no seu lugar. Lakdim aceitou a troca de prisioneiro. O militar encetou a seguir uma negociação com ele, que pedia a libertação de Salah Abdeslam (implicado nos atentados de Paris de 13 de novembro de 2015) e ameaçava fazer explodir o supermercado.
A polícia não divulgou o conteúdo das negociações, mas, às 13h10, os agentes no exterior viram que Lakdim apontava uma arma à cabeça do seu camarada militar. Às 14h16 foram ouvidos três tiros no Super U. As forças do GIGN entraram então no interior, abateram o terrorista e viram o corpo do tenente-coronel no chão, num banho de sangue. Durante o assalto, mais dois gendarmes ficaram feridos. Arnaud Beltrame ainda foi socorrido num hospital, mas não resistiu aos graves ferimentos, sobretudo à facada na garganta, que foi fatal.
Nesta terça-feira à tarde, a polícia continuava a interrogar, Marine, uma provável namorada de Lakdim, de 18 anos e possivelmente radical islâmica e cúmplice dele. No ataque morreram cinco pessoas.