BUSCAS
“Ouvimos um murmúrio, um choro baixinho e era ele”
FOTO LUSA PAULO CUNHA
Três guardas da GNR encontraram Martim, o bebé de dois anos desaparecido há 24 horas da casa dos avós, perto de Leiria. Estava assustado, molhado e cheio de fome. Mas vivo. O militar que o encontrou conta como é participar numa história que acaba bem
TEXTO RUI GUSTAVO e LILIANA COELHO
O guarda Duarte andava há uma hora e meia a bater o terreno junto à casa onde Martim, de dois anos, tinha sido visto pela última vez quando ouviu um barulho. “Era um murmúrio, mas não percebi logo o que era. Naquele momento passou um avião e eu e os meus colegas deixámos de ouvir”. Depois de o avião passar, os três militares da GNR voltaram a ouvir o mesmo barulho. “Um murmúrio, um choro baixinho. Era ele.”
Sentado “na beira da estrada” de terra batida, a oitocentos metros em linha reta da casa dos avós, estava Martim, o bebé de dois anos que tinha desaparecido há 24 horas e que se suspeitava ter sido raptado, até pelo pai, separado da mãe há poucos meses. “Perguntou primeiro pela mãe e depois pela avó”, conta o guarda. “Estava assustado e muito molhado. O meu colega despiu-o, embrulhou-o no casaco da farda e levamo-lo logo para o posto médico. Parou de chorar e via-se que estava aliviado.” Minutos depois estava nos braços da mãe. “Foi indescritível”, admite o guarda Duarte que está na GNR há oito anos e viveu hoje “um dos dias mais emocionantes de sempre”. O momento ficou registado numa selfie. “Tirei para festejar com os meus colegas, a decisão de publicar no Facebook foi da GNR.”.
A criança desapareceu por volta das dez da manhã de ontem da casa dos avós, em Amieira, perto de Leiria. E só foi encontrada 24 horas depois. A PJ, que está a investigar o caso, terá agora de perceber se a criança aproveitou um momento de desatenção dos avós e perdeu-se no mato, ou se foi raptada e devolvida.
“À partida não tinha quaisquer sinais de maus tratos”, diz o militar da GNR, informação mais tarde confirmada pelo médico que o assistiu: “Encontra-se bem, naturalmente assustada e cheia de fome, Por isso, o primeiro 'medicamento' que foi dado foi comida”, disse Bilhota Xavier.
De acordo com a GNR, Martim foi encontrado a oitocentos metros em linha reta da casa dos avós, numa zona de mato não foi alvo de buscas no primeiro dia. Fica por saber se percorreu a distância sozinho, o que é possível; e como é que resistiu a uma noite ao relento, com frio e chuva, o que é bastante difícil.
A Polícia Judiciária garantiu que se mantêm “todas as possibilidades em aberto”, esperando que a curto prazo seja possível determinar as circunstâncias concretas que levaram ao desaparecimento da criança. A polícia forense está a recolher quaisquer vestígios suscetíveis de serem analisados e que possam contribuir para um quadro mais próximo da realidade”, disse o coordenador da PJ de Leiria, António Sintra, em conferência de imprensa.
GNR O guarda Duarte, à esquerda, falou ao Expresso depois de ter vivido um dos momentos mais emocionantes da carreira FOTO DR
Sónia Frias, advogada da mãe, disse ao Expresso que a criança se encontra bem e que já está ao cuidado da família em Ourém. “O Martim está estável. Esteve algum tempo no Hospital de Leiria em observação, mas só por precaução.", afirmou Sónia Dias.
A advogada acredita que ainda é cedo para se avançarem teorias sobre o desaparecimento da criança, esperando que a investigação em curso determine com rigor o que aconteceu. “Tudo o que se diz é especulação, vamos esperar que apurem as circunstâncias do desaparecimento quem está no campo”, acrescentou.
Foi em agosto que Sandrina Silva, de 32 anos, pediu a guarda do filho, após ter-se separado do companheiro Marco Teixeira, de 35 anos. Segundo a advogada o processo decorreu com normalidade, “sem grandes alarmismos”. A guarda não podia ser partilhada, uma vez que o pai se encontra emigrado em França, mas ficou acordado que quando estivesse em Portugal, Marco podia ver o filho sob uma série de condições. “Houve alguns termos do acordo que não foram do agrado do pai, mas isso não quer dizer que tenha havido conflito”, garantiu Sónia Frias.
Martim - que completa dois anos no próximo dia 7 de novembro - encontrava-se na casa dos avós antes de ser dado como desaparecido às 9h de segunda-feira. Os pais de Sandrina estavam com o neto no exterior e ausentaram-se por instantes para levarem uma coisa a casa, e no regresso já não encontraram o bebé. Foi desde logo acionado o alerta às autoridades. Durante cerca de 24 horas, vários elementos da PJ e da GNR estiveram nas imediações, acompanhados por cães, à procura da criança. O bebé 23 meses acabou por ser localizado às 10h desta terça-feira numa zona de pinheiros e eucaliptos, situada próximo da casa dos avós.