LIVRO

VAI UM BOLINHO DE BACALHAU COM BROA DE AVINTES?

TABERNAS A Adega Alfredo Portista é ainda um dos ícones das tascas portuenses retratadas em livro por Hélder Pacheco FOTOS HÉLDER PACHECO

TABERNAS A Adega Alfredo Portista é ainda um dos ícones das tascas portuenses retratadas em livro por Hélder Pacheco FOTOS HÉLDER PACHECO

As tascas do Porto, ou casas de pasto, ou tabernas, constituíram grandes espaço de socialização construídos à volta de uns petiscos e um copo de tinto, mas estão a desaparecer fruto das transformações da cidade. Hélder Pacheco lança hoje à noite um livro sobre este património em declínio

TEXTO VALDEMAR CRUZ

Havia as iscas, o bacalhau frito, as sardinhas, o verde tinto, o maduro branco, a broa de Avintes, o rancho, a sopa caseira, a broa de milho, as azeitonas e um palito, o bagaço e os cheiros intensos à mistura de todos os fritos, o fumo, a vozearia e a camaradagem. Havia o sentido de partilha e o desejo de comunidade. Havia a noção de pertença e agora há sobretudo uma sensação de perda quando se pretende recuperar a memória das tascas, das tabernas, das casas de pasto ou o que se lhes queira chamar, que enxamearam a baixa do Porto.

Hélder Pacheco, investigador e um dos grandes cronistas da cidade, decidiu resgatar a vivência destas casas onde havia de tudo, num livro a lançar hoje à noite, na Fundação Engº António de Almeida, à Rua Tenente Valadim, e intitulado “Adegas, Tabernas e Casas de Pasto, os Bons Velhos Lugares de Convívio do Porto”. A apresentação estará a cargo de Rui Moreira, presidente da Câmara Municipal.

O homem que anda há décadas a calcorrear as mais recônditas vielas da cidade deixa um importante aviso prévio: “não se trata de um livro nostálgico. É muito fácil refugiarmo-nos na nostalgia, mas temos de perceber que o país mudou”, a cidade mudou e, por isso, há ali uma tentativa de “fazer a ponte entre a tradição e a modernidade”.

Quando muito poderá ser um livro onde é percetível uma sensação de perda, sem pretender, todavia, negar a importância, “ou calar a validade de muitas versões atuais, equivalências ou transposições das antigas tabernas para atrativos turísticos ou utilização das burguesias dadas ao revivalismo”. Por outro lado, não pode negar-se a perda da animação onde quase sempre havia gente a confraternizar de copo na mão. Perdeu-se a algazarra, perderam-se as discussões acaloradas durante os relatos de futebol. Perderam-se linguagens de um grande colorido, perderam-se as montras arranjadas às três pancadas.

O trabalho que hoje Hélder Pacheco apresenta, não é um guia, nem um inventário de tabernas. É antes de mais, sublinha, “um livro sobre a cidade”, trabalhado ao longo de vários anos. O historiador recorda que em 1997, ao proceder a um pequeno inventário do comércio tradicional para escrever um livro sobre Stº António como padroeiro de muitas das lojas mais antigas, entrou em quase uma centena de adegas, casas de pasto, mercearias, e outras que eram tudo aquilo e ainda carvoarias. Pelo caminho tornou-se um dos fundadores do Grupo dos Amigos das Tabernas e começou a aperceber-se do progressivo definhar das adegas tradicionais.

Nem Guia, nem inventário

Tasco do Luís, em S. Roque da Lameira

Tasco do Luís, em S. Roque da Lameira

Ao longo do livro tenta perceber o que mudou na cidade e levou ao fecho destas casas de pasto. O último e doloroso encerramento ocorreu a 12 de agosto deste ano. A Adega de S. Martinho era, na opinião de Pacheco, “a mais característica, castiça e autêntica taberna do Porto” e acabou vencida pelas necessidades de reabilitação urbana, precisamente quando a Câmara anunciava para setembro a entrega das primeiras novas casas reconstruídas da ilha da Bela Vista.

Ainda sobrevivem autênticas catedrais taberneiras, como a do “Alfredo Portista”, na entrada da rua do Cativo, próximo do Teatro Nacional S. João, ou o antigo Tasco da Glorinha, depois Adega Mesquita e agora casa Mesquita, na zona do Bicalho, nas proximidades da ponte da Arrábida.

Testemunhas de um tempo extinto, de uma cidade que já não existe, como as define o autor do livro, as tabernas soçobraram à desindustrialização, às contingências da habitação social, à transferência das populações para as periferias da cidade, ao desmantelamento dos grandes bairros operários. Se nenhuma cidade poderia escapar a processos como a da desindustrialização, o Porto podia, pelo menos, ter tentado escapar a outros alçapões. “Nos anos de 1960 dizia-se que o centro da cidade era para o terciário. O resultado é que desapareceram os cafés, os cinemas, as tabernas”, explica Hélder Pacheco. A tudo isso junta-se o desinvestimento no centro histórico e ficam reunidas as condições para a desertificação verificada.

Defensor desde sempre da habitação social no centro do burgo e da requalificação em vez da destruição das ilhas, o investigador fala de duas oportunidades perdidas e que podiam ter feito toda a diferença, caso tivessem sido aproveitadas em pleno: o Processo SAAL e o CRUARB, projeto de reabilitação urbana no centro histórico.

Nesse sentido, o livro, escreve na introdução o autor, “pretende demonstrar que o desaparecimento (ou morte) das tabernas não foi apenas consequência da evolução natural dos modos de viver e das suas formas de conjunção associativa. Foi, principalmente, produto da erosão cívica provocada nos moradores submetidos a violentos processos de exclusão dos seus locais de origem e à própria destruição do tecido urbano que constituía e moldava as aglomerações bairristas”.

O que sucedeu no Porto, prossegue, “não fora a tragédia que expulsou do Burgo mais de cem mil habitantes (e impediu a sua expansão populacional para a dimensão apontada nos planos dos anos 60) seria exemplo acabado ou case study da justaposição de incompetência, especulação, preconceito social e político e, certamente, corrupção na gestão do território da cidade”.

A pátria das conversas

D. Cremilda na cozinha do Escondidinho do Barredo

D. Cremilda na cozinha do Escondidinho do Barredo

Algumas tabernas fizeram o caminho da modernização, como aconteceu com a Adega Mesquita, que até já tem no exterior letreiros escritos em inglês, e Hélder Pacheco compreende que “com o 25 de abril, e numa sociedade democrática que evoluiu, o filho do taberneiro pode ser licenciado” e já não verá a taberna como horizonte. Outra explicação para a diminuição da presença dos tascos passa pela constatação de que nos novos bairros não foi possível afirmar o sentido de comunidade, nem impô-los como lugares de socialização de classe.

Vistas como a pátria das conversas, as tabernas estão ligadas ao início do mutualismo (com as caixas dos 20 amigos e os mealheiros), ao desenvolvimento das práticas associativas, com clubes de pesca, de futebol e columbofilia, ao excursionismo, ao recreio cultural.

Mas não haja ilusões. Com o ambiente dos tascos como pano de fundo e os seus frequentadores como protagonistas, não admira, frisa Pacheco, “que a violência, a marginalidade, o vício e a exclusão surjam como consequência de condições sociais e económicas que a face sombria da urbe também conhecia”. Afinal, a realidade da taberna, que neste livro tanto se elogia, “não era apenas a da sã convivência e camaradagem em tempo de ócio para uns, ou de companhia ansiada na fuga à exclusão para outros”.

Ou seja, o livro terá de ser visto, não como uma visão romântica de um tempo e de um conjunto de espaços em grande parte perdidos, mas antes como uma reflexão “sobre a cidade rumorosa, povoada e profunda”. Uma cidade vista através de um instrumento de análise chamado taberna e, conclui Hélder Pacheco, “da evolução desta ao longo dos últimos séculos. Do apogeu da sua presença na vida tripeira nos finais de Setecentos aos finais de Oitocentos, quando se contavam por centenas, um milhar ou mais, continuando por Novecentos até à sua quase extinção, a que estamos assistindo nos nossos dias”.

Enquanto não é por completo destruída esta paisagem social e humana, vai um bolinho de bacalhau com um copinho de tinto e broa de Avintes?