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Martim Silva

Opinião

Martim Silva

Infarmed rima com trapalhada

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Devo dizer que desconfio dos anúncios isolados e casuísticos de governantes sobre medidas de deslocalização e descentralização. Normalmente são mais soundbytes para marcar pontos do que medidas sérias, pensadas e com pés e cabeça.

Lembro-me à cabeça do anúncio feito por Pedro Santana Lopes em 2004, no dia em que se tornou primeiro-ministro, de que ia deslocalizar um conjunto de Secretarias de Estado para outras tantas cidades do país. O objetivo, fácil de perceber, era mostrar que Portugal é mais que o Terreiro do Paço e que os governos se preocupam genuinamente com a coesão territorial. Enfim, e numa frase, que Portugal é muito mais que Lisboa e quanto mais perto estiver quem decide dos cidadãos melhor poderá, em teoria, governar.

Não me parece que a medida anunciada por Santana Lopes tenha tido qualquer efeito prático (embora aí os próprios possam sempre alegar que aquele tristemente célebre executivo não durou tempo suficiente para deixar marcas políticas - tirando a marca política ela própria de Santana, e que não foi boa).

Há uns meses, Adalberto Campos Fernandes, no rescaldo da perda pelo Porto da candidatura a uma agência europeia, decidiu anunciar de imediato que o Infarmed, o instituto do medicamento, passaria para o Porto.

Nada me movia contra o referido anúncio. Gerou, como é normal, ondas de aplausos e de críticas. Mas logo aí as dúvidas eram legítimas: o anúncio era mesmo para levar a sério? Se era importante, porquê só agora? Ficava a ideia de querermos compensar a cidade do Porto. Como se estivéssemos a dar um rebuçado a uma criança para esta não amuar.

Em seguida, anunciou-se um estudo para se avaliar o impacto da referida medida. Voltei a ficar de pé atrás. Ainda mais. Então primeiro anuncia-se e depois estuda-se? Bizarra forma de governar, essa.

Francamente, não sei se é melhor o Infarmed funcionar em Lisboa, no Porto, em Braga ou em Coimbra. O que sei é que será muito difícil alguma vez as coisas funcionarem bem quando quem nos governa funciona assim

Enfim, mas reclamar contra a medida poderia colocar-me imediatamente ao lado dos centralistas empedernidos. Isso é que não!

Agora confirma-se que o que nasceu torto nunca se conseguiu endireitar.

Mais, usando terminologia típica do tempo de Santana, tratou-se de uma enorme trapalhada. Que vai passando mais ou menos impune porque os tempos correm de feição ao Governo socialista.

O ministro Adalberto Campos Fernandes foi ao Parlamento explicar a sábia decisão: "entendeu o ministro da saúde propor ao primeiro-ministro que provavelmente seria mais adequado que essa decisão não fosse tomada agora." Isto porque não estavam garantidas duas condições: a garantia do bom funcionamento da instituição no Porto. E o acordo dos trabalhadores.

Dito isto, é legítimo perguntar: então porquê o anúncio há uns meses? Por que não acautelar as premissas antes de se avançar para a conclusão?

E, como se não bastasse, a falta de frontalidade para assumir o que se passou leva a que agora se anuncie que a deslocalização não foi cancelada, foi simplesmente suspensa para que possa ser analisada no âmbito de uma comissão criada pelo Parlamento.

Francamente, não sei se é melhor o Infarmed funcionar em Lisboa, no Porto, em Braga ou em Coimbra. O que sei é que será muito difícil alguma vez as coisas funcionarem bem quando quem nos governa funciona assim.