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Espanha

Uma pessoa de esquerda pode ser rica? Pode. E pode mostrá-lo? Talvez não…

Foto epa

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Pablo Iglesias, líder do Podemos, e a mulher, Irene Montero, também funcionária do partido, compraram casa há pouco tempo. Gastaram mais de 600 mil euros e foi aí que começou a polémica: pelo preço e por Iglesias já ter criticado anteriormente outros políticos que gastaram quantias semelhantes em apartamentos de luxo

Texto Marta Pereira Gonçalves

VENDIDO
Tipologia: Moradia T3, com piscina e jardim
Área: 268 metros quadrados 
Área do lote: 2000 metros quadrados
Localização: Galapagar, a 40 quilómetros de Madrid
Preço: 615 mil euros


Este podia ser anúncio da casa que Pablo Iglesias, líder do Podemos, e a mulher, Irene Montero, também funcionária do partido, compraram há poucos dias. O casal está no centro da polémica em Espanha devido à recente aquisição e, por isso, tem sido criticado. Esta terça-feira, o Podemos (partido político de esquerda fundado há quatro anos) lançou um referendo interno para avaliar a continuidade dos dois. Uma pessoa de esquerda pode ser rica? Pode. E pode mostrá-lo? Talvez não…

“Não se trata de trair os valores do partido. Num universo cada vez mais polarizado, é natural que surja esse velho estereotipo da direita e da esquerda. Por um lado, a questão da propriedade e que quem é de esquerda não pode ser rico. Por outro, o simbolismo e a esquerda caviar, muitas vezes associada aos intelectuais, aos artistas… Esses estereótipos existem e são normais.”

Ao Expresso, António Costa Pinto, politólogo e investigador coordenador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, recorda que na História apenas os partidos comunistas tentaram pôr fim à dimensão de propriedade, chegando mesmo a pedir aos líderes partidários que abdicassem de parte dos bens e salários. “Essa tradição apenas existe na cultura comunista. Partidos novos, como o Podemos, e, em Portugal, o Bloco de Esquerda, são ideologicamente situados à esquerda do espetro político mas não têm essas ideias.”

Para o investigador, há uma “aparente contradição” entre o estilo de vida e o discurso político de Pablo Iglesias, mas na realidade “não há qualquer contradição”. “Neste caso em particular, a maior questão é a falta coerência, e não a compra da casa”, defende Costa Pinto. Em 2012, num tweet, Iglesias criticou o então ministro da Economia, Luis de Guindos, que acabara de comprar um imóvel com o mesmo preço da vivenda que agora comprou: “Confiariam a política económica de um país a alguém que gasta 600 mil euros num apartamento de luxo?”

Em nome do “projeto familiar”

A contradição entre o que disse em tempos e o que agora fez foi motivo de perguntas por parte da imprensa espanhola, que ouviu do Podemos que a compra da nova casa se deve ao “projeto familiar” de Iglesias e Montero, que em breve vão ser pais de gémeos e têm três cães.

Foto reuters

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Legalmente, nada impede a compra da casa. Moralmente, a discussão está a ser feita. “Quando se coloca em causa a credibilidade, não se pode esconder. Se nos disserem que temos que nos demitir, demitir-nos-emos”, disse o líder do Podemos. “Se nos disserem que nos devemos envergonhar, não somos nós que os vamos julgar. São as pessoas do Podemos, os que estão inscritos, que devem avaliar”, acrescentou Montero. E, por isso mesmo, ficou esta terça-feira disponível um referendo online – que vai estar a aberto a votação até domingo – para os membros do partido decidirem se houve ou não choque com os princípios do Podemos.

“Em Espanha, nos últimos tempos a discussão política tem sido feita muito à volta de questões deste género. Quando nos envolvemos em projetos políticos, há determinados princípios e valores. Não creio que haja uma opinião generalizada de que quem é de esquerda não pode ser rico. Mas quem lidera os projetos políticos acaba por estar mais sujeito a um escrutínio da opinião publica,” diz Marisa Matias, eurodeputada eleita pelo Bloco de Esquerda, para quem o mais importante é o debate estar a ser feito internamente. “Comprar casa toda a gente tem direito. O partido está a avaliar o que foi dito e feito, não me cabe a mim julgar.”

Segundo o Código de Ética do Podemos, não há nada que impeça a compra de um imóvel pelos valores em causa.


Para comprar a casa, os dois pediram um crédito para habitação de 540 mil euros, a ser pago em 30 anos. Ou seja, vão ter de suportar, segundo refere a imprensa espanhola, uma prestação mensal de mais de €1600. Os restantes milhares em falta não previstos no crédito vêm de poupanças do casal e dinheiro de heranças.

“Sabemos que muitas famílias espanholas, tendo em conta os seus salários, não podem ter uma hipoteca como esta. E também por isso entendemos a importância de defender salários dignos para todos e todas. A verdade é que os nossos ordenados, que são de conhecimento público e decididos pela Assembleia Cidadã do Podemos, nos permitiram iniciar este projeto”, escreveu Iglesias no Facebook.

“Vai ficar condicionado no ataque político”

E agora, como fica o líder do Podemos no meio de toda a polémica? “Não acredito que seja isto que o afaste da liderança”, diz Rodrigo Moita de Deus, diretor do NewsMuseum, e explica: “aqui já não há nada que possa ser feito, a casa está comprada. Tecnicamente, pode-se encontrar uma justificação. No meio de toda a polémica é preciso encontrar um argumento racional que explique o que foi feito: precisava de uma casa maior. Isto é necessário porque, obviamente, os outros partidos vão usar a informação contra o Podemos. E depois há também os fãs, que precisam de argumentar em defesa e precisam de argumentos.”

Casos destes resolvem-se criando mais notícias até que a história da polémica fique esquecida. “Isto não é mania da perseguição, mas porque é que ninguém fala na desgraça que foi a época do Benfica, que não ganhou? Porque é que só se fala em Bruno de Carvalho?”

A importância de “vulgarizar a notícia”

O diretor do NewsMuseum não ficaria surpreendido que ao longo dos próximos dias começassem a vir a público os preços das casas de outros deputados espanhóis. “Chama-se vulgarizar a notícia e, se o Podemos estiver a trabalhar bem, é isso que vai fazer. E assim esta história passa só a ser mais uma.”

O politólogo Costa Pinto sublinha que nos últimos anos a figura do líder político ganhou relevância nas democracias dos países desenvolvidos e que as polémicas sobre as ações e o dia a dia são disso consequência. “A adoção de determinados comportamentos e estilos de vida de classe alta são reprovados pela opinião pública. É exatamente o mesmo que aconteceu com Yanis Varoufakis, a quem foi apontado o dedo por usar roupas de marcas de luxo, se ter casado com uma arquiteta e ter um estilo de vida de classe alta sendo do Syriza [partido de esquerda radical grego].”

Já para Rodrigo Moita de Deus, tendo em conta o eleitorado tipo do Podemos (“urbano, de classe alta e média alta, não da esquerda proletária como o partido comunista”), dar mais de meio meio milhão de euros por uma casa nos arredores de Madrid talvez não seja um choque. “A Iglesias não fica bem a incoerência, mas não acho que o problema seja o valor da casa”, refere. “Daqui para a frente, Pablo Iglesas fica muito mais condicionado nos ataques políticos que pode fazer.”