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PERFIL | JAIR BOLSONARO

O apologista da tortura e dos assassinatos extrajudiciais que quer ser presidente do Brasil

Foto Reuters

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Numa altura em que apenas uma minoria dos brasileiros se diz satisfeita com o sistema político, Jair Bolsonaro ocupa o segundo lugar nas sondagens. Apenas atrás de Lula, que se encontra preso

Texto Luís M. Faria

O homem a que muita gente chama “Donald Trump brasileiro” fez este domingo o anúncio formal da sua candidatura à presidência do Brasil. Na verdade, a alcunha não transmite inteiramente aquilo que ele é. Está em causa um homem com posições que nalguns casos facilmente se podem descrever como fascistas: misógino, homofóbico e racista (com um forte preconceito contra as populações indígenas do seu país, que vê como um obstáculo ao progresso), a favor da tortura e de assassinatos extrajudiciais, apologista de um regime que praticou liberalmente ambos esses crimes, bem como muitos outros. Comparado com ele, Trump, apesar de todas as suas afirmações bombásticas, quase pode passar por pacifista.

Jair Bolsonaro, de 63 anos, atualmente deputado federal pelo Rio de Janeiro, é um antigo militar que serviu a ditadura militar brasileira (1964-1985) e ainda hoje a considera a melhor solução para o Brasil. Oficialmente, é o candidato de um pequeno partido, o PSL (Partido Social Liberal). Mas tem uma popularidade que vai muito além dele, atingindo os 17% do eleitorado. Segundo indicam as sondagens, numas eleições em que Lula da Silva participasse, Bolsanaro ficaria em segundo lugar.

Ficando Lula impedido de concorrer, que é a hipótese mais provável (a sua condenação criminal por corrupção, em princípio, será um obstáculo inultrapassável), Bolsonaro fica em primeiro - isto, claro, admitindo que o Partido dos Trabalhadores não consegue transferir os votos do seu líder para outro candidato.

Haverá então uma segunda volta, na qual é previsível que toda a gente se una contra Bolsonaro. Mas ninguém se sente muito tranquilo com essa perspetiva. Afinal, depois do que aconteceu com Trump, ninguém pode ter a certeza de que numa democracia um candidato extremista acaba necessariamente por ficar pelo caminho. Até porque os controlos políticos tradicionais - por exemplo, o acesso aos grandes órgãos de comunicação - já não têm o valor que tiveram. Bolsonaro, tal como Trump, é um rei nas redes sociais. Tem mais de cinco milhões de seguidores no Facebook.

Um apoiante de Bolsonaro com uma máscara de Trump FOTO REUTERS

Um apoiante de Bolsonaro com uma máscara de Trump FOTO REUTERS

Elogio da tortura

“Minha candidatura é uma missão. Se estou aqui é porque acredito em vocês e se vocês estão aqui é porque acreditam no Brasil”, disse Bolsonaro este domingo, no congresso do seu partido, assumindo um tom que liga bem com o seu nome do meio (Messias). Ao seu lado estava uma deputada que teve um papel central no impeachment de Dilma Roussef, a presidente anterior, que tinha sido uma escolha pessoal de Lula.

O gigantesco escândalo e corrupção que dá pelo nome de Lavajato aumentou brutalmente o descrédito da classe política, criando condições favoráveis a candidatos vindos de fora dos principais partidos - sobretudo quando aparecem a prometer uma limpeza geral e violenta. Apenas uma pequena minoria dos brasileiros acha que o sistema está bem e muitos apoiariam um novo golpe militar. O atual presidente Michel Temer tem uns escassos 3% de aprovação pública.

Tal como Trump, Bolsonaro defende (ou afirma defender) soluções drásticas. Entre elas que cada cidadão tenha uma arma de fogo em casa para sua proteção pessoal. Garante que se chegar ao poder acaba com as ONG e com as reservas indígenas. E propõe reforçar o poder das Forças Armadas para as ajudar a fazer frente “a tudo o que é escória no mundo”, incluindo imigrantes que fogem a situações de desespero nos seus países.

Foto Reuters

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Afirmações (voluntariamente) escandalosas

Ainda como Trump, Bolsonaro notabilizou-se por afirmações escandalosas - que no seu caso conseguem ser bastante piores. Chamou canalhas e idiotas aos membros da Amnistia Internacional. Disse que preferia que um filho dele morresse a que fosse gay. A uma deputada, durante um debate na Câmara dos Deputados, atirou que jamais a violaria porque ela não merecia; esclareceu a seguir, para não haver dúvidas, que a deputada era demasiado feia. Dedicou a sua intervenção no debate sobre o impeachment de Dilma ao principal torturador da ditadura militar - sabendo que Dilma foi ela própria torturada nessa altura. Aliás, já em tempos dissera que o erro da ditadura foi torturar e não matar.

Há muito, muito mais no seu cadastro, onde constam dezenas de processos, a começar pelos disciplinares (quando estava no Exército tornou-se notado pela sua irracionalidade agressiva, chegando a estar preso). Em tribunal, as condenações são três - por danos morais e incitamento ao crime, entre outras coisas. Podiam ser muitas mais. Nada que o impeça de avançar em direção à presidência.