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Ricardo Costa

Opinião

Ricardo Costa

O novo problema do futebol é a falta de dinheiro e o avanço da Justiça

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Não vale a pena perder muito tempo a tentar encontrar as razões para o clima de extrema tensão que se abateu sobre o futebol português nesta época. Há diagnósticos de sobra, desde os mais básicos aos mais elaborados, passando pelas inevitáveis teorias da conspiração e pelas visões totalmente clubísticas.

As grandes diferenças desta época assentam em três razões e só uma delas é que é desportiva, a luta pelo título até à penúltima jornada. As outras duas jogam-se em planos diferentes: a fragilidade financeira dos clubes e o avanço da Justiça, sem os medos ou erros do passado.

Convém lembrar que esta época arrancou com um FC Porto muito fragilizado financeiramente, com um Benfica que vendeu demais e um Sporting que gastou em excesso. E que a época desembocou rapidamente na divulgação de emails internos do Benfica através de um canal detido pelo FCP, no caso e-toupeira, nas investigações sobre apostas e jogos combinados e acabou no Cashball.

Não há nenhuma expectativa razoável de que a tensão diminua nem que os dirigentes dos clubes estejam interessados nisso. Vão tentar explorar sentimentos básicos e movimentos de manada a seu favor, sempre que lhes apetecer ou precisarem

Neste momento, Luís Filipe Vieira é arguido num caso lateral ao futebol (o Lex, que envolve Rui Rangel), mas o seu braço-direito, Paulo Gonçalves, está indiciado num caso que a Justiça vai tratar com extrema severidade. Ao mesmo tempo, o responsável pelo futebol do Sporting é arguido num caso de corrupção em que o Ministério Público não acredita que não tivesse ordens ou autorizações superiores.

Neste clima de tensão judicial e de enormes dúvidas financeiras, não há nenhuma expectativa razoável de que a tensão diminua nem que os seus dirigentes estejam interessados nisso. Vão tentar explorar sentimentos básicos e movimentos de manada a seu favor, sempre que lhes apetecer ou precisarem.

A falta de dinheiro e, sobretudo, o avanço da Justiça é mesmo a única coisa que não controlam. Imagino a cara dos fanáticos das claques ao verem que 23 meliantes ficaram em prisão preventiva. Nunca aconteceu nada semelhante em Portugal, vinte e três pessoas presas preventivamente no mesmo caso, todos pela mesma tabela. É um aviso claro às claques e aos clubes. O mundo mudou, o dinheiro é menos e Justiça já não faz os cálculos de outros tempos. Avança e se for preciso peca por excesso.