A tempo e a desmodo
Henrique Raposo
O suicídio do centro-esquerda
Outro caixão do centro-esquerda Foto reuters
Para um certo conforto narrativo, criou-se a ideia de que o centro político por inteiro está em crise; debaixo do chavão “centro versus populismo”, criou-se a imagem de um centro-direita e um centro-esquerda de mãos dadas, de joelhos e apavorados perante a ascensão das forças populistas. Lamento, mas a imagem não faz sentido. A crise está no centro-esquerda, não no centro. As forças tradicionais do centro-direita estão onde sempre estiveram. No Reino Unido, os conservadores estão confortáveis, é o Labour que se encontra em rota de autodestruição. Na Holanda, é o partido socialista que está em crise. Na Alemanha, a CDU e os liberais estão fortes, o SPD e os Verdes estão em crise. Em França, é de novo o partido socialista que se encontra em rota de autodestruição. Sem o caso judicial, Fillon teria passado à segunda volta e a visão governativa do centro-direita não está em crise. Pelo contrário, Macron representa em parte essa visão. E, agora, em Espanha, o PSOE dá sinais de autodestruição populista. Não acreditam? Leiam o “El País”.
“Finalmente Espanha teve o seu momento populista. E teve esse momento logo no coração de um partido essencial para a governabilidade”, diz o editorial do “El País” no rescaldo das primárias do PSOE vencidas ontem por Pedro Sanchéz. O jornal critica sobretudo o radicalismo ideológico (ex.: o namoro com o conceito de Espanha/nação dos independentistas; o culto radical das primárias, que ameaça as estruturas intermédias e locais do partido) e a incapacidade para aceitar o óbvio: nada mudou desde outubro, ou seja, o PSOE continua a não conseguir formar uma solução de governo sólida; Sanchéz e o seu radicalismo foram recusados várias vezes pelo eleitorado, mas ele continua a insistir, à espera do seu momento António Costa. No mesmo jornal, Salvador Sostres fala em suicídio do PSOE enquanto partido útil para a governação de Espanha, sobretudo devido “ao medo” que lhes “chamem fascistas”. Devido a este medo quase infantil perante uma palavra, Sostres vê o partido a naufragar num mar de populismo da democracia direta. Esta questão das primárias é importante porque mais uma vez mostra o perigo da democracia direta para a ideia de república e para a racionalidade do espaço público.
Entre a adaptação política a uma nova realidade através da razão e o suicídio em nome de uma alegada pureza ideológica, os militantes do centro-esquerda estão a escolher a segunda. Assim exige o seu mural de Facebook, assim exige o seu pós-verdade narrativo
O PSOE está num caminho idêntico aos do Labour e do PSF, porque está mergulhado num caldo populista, emocional e irracional, uma pós-verdade que começa no militante normal que vive encostado ao seu mural de facebook, lendo e escrevendo as mesmas coisas em circuito fechado junto dos amigos. E o que quer ouvir/ler/ver este militante médio de centro-esquerda? Quer martirologia, suicídio honrado. Sanchéz encaixa como uma luva neste padrão do centro-esquerda europeu: a martirologia do perdedor. Hamon e Corbyn são figuras do passado, perdedores à partida, e foram escolhidos pelos militantes precisamente porque vão perder. Porquê? O centro-esquerda europeu está perdido, não sabe o que pensar sobre a globalização na questão económica e sobre o Islão na questão cultural. No meio da confusão, esta esquerda, como dizia Tony Judt, apega-se a palavras vagas (“fascismo”, “neoliberalismo”, “racismo”, “islamofobia”, “estado social”) que evitam um confronto efetivo e racional com a realidade. Sanchéz representou o papel da vítima aos militantes e teve sucesso, porque o PSOE quer ser vítima, quer a imagem de “alguém que morre de pé”; entre a adaptação política a uma nova realidade através da razão e o suicídio em nome de uma alegada pureza ideológica, os militantes do centro-esquerda estão a escolher a segunda. Assim exige o seu mural de Facebook, assim exige o seu pós-verdade narrativo, assim exige o seu reflexo de Narciso.