O POEMA ENSINA A CAIR

UM ESTALO E UM BEIJO AO MESMO TEMPO

Quando era pequena passeava com bichos ao colo porque gostava de passar a mão neles. Hoje, escrever continua a ser isso - uma maneira de pôr a mão nas coisas

TEXTO RAQUEL MARINHO VÍDEO JOANA BELEZA GRAFISMO VÍDEO JOÃO ROBERTO

"Faz sentido quando se pensa no prazer do manuseio
Mexer nas coisas como quem mexe debaixo da roupa"

Poeta, coreógrafa, performer e intérprete, Sónia Baptista (n. 1973) gosta da ideia da "dramaturgo-poesia" para explicar o que faz. Tem três livros publicados, um quarto para sair este ano, e reclama-se dona de diversas vozes que falam em simultâneo: "a voz do corpo, a voz da palavra, a voz da criação de um objecto plástico. Depois há uma contaminação maravilhosa entre todas elas."

Explica que a palavra é uma velha amiga - "sempre li muito, sempre escrevi muito, e sempre escrevi coisas minhas" - mas nem sempre pensou que o que escrevia era passível de ser publicado: "aquilo fazia parte de uma coisa performativa embora depois tenha percebido que há uma coreografia nas palavras, um corpo nas palavras." Integrar a palavra na interpretação de peças performativas foi, a determinada altura do percurso de Sónia Baptista, uma necessidade. Estava a estudar Dança Contemporânea e magoou-se "violentamente" nas costas, "de tal maneira que não conseguia andar": "queria ficar no curso, e como nós tínhamos de criar pequenos solos num seminário e eu não podia apresentar grande movimento, tinha de usar o que podia usar; os braços, a voz, uma plasticidade para me exprimir sem ser com o corpo em movimento. Usei a palavra, criei uma personagem e uma persona para criar uma peça curta, e foi o início das minhas peças curtas que se chamavam haikus."

Os haikus de Sónia Baptista tinham a duração de uma hora. Espaços onde eram criados "ambientes poéticos que não eram bem histórias mas momentos, como se fossem uma polaroid de qualquer coisa."

A primeira vez que se inscreveu numa escola para aprender a dançar fê-lo "por causa do Fame que dava na televisão": "inscrevi-me em aulas de dança jazz mas percebi que não tinha muito jeito para aquilo."

Mais tarde, já na faculdade, descobriu uma outra escola onde foi bolseira durante dois anos: "fiz tudo. Tudo o que me apareceu à frente. Comecei a fazer workshops com muitos dos coreógrafos da nova dança portuguesa." Estava então a estudar História de Arte e a dançar tudo o que podia, quando as conclusões apareceram: "comecei a perceber, oops, se calhar não estou muito bem a fazer História de Arte mas não foi fácil assumir isso. Assumir, aceitar, e explicar à família. Então passei por um período conturbado de tentar perceber o que me ia acontecer."

Nesse período de reflexão percebeu que mais do que "estudar, interpretar e analisar" a arte, o que lhe interessava era "fazê-la", e deu o passo: "tive que me assumir, sair do armário. Foi custoso e doloroso mas tinha de ser, porque senão acho que seria uma pessoa muito infeliz."

Desabrochou para as artes performativas sem preconceitos estanques - "cantei, fiz figurinos, fiz cenários, escrevi, participei na elaboração de vídeos, fiz tudo o que podia fazer" - e encontrou um espaço amplo onde cabem muitas coisas e onde se sente confortável: "faz sentido para mim. Faz sentido juntar, aglomerar as coisas e ter diversas vozes. Ter a voz do corpo, ter a voz da palavra, ter a voz da criação de um objecto plástico. São diversas vozes."

Conta que nem sempre quis ser artista - "nem sequer me passava pela cabeça que tivesse esse gene, essa deficiência, esse handicap" - mas que sempre escreveu. Começou pelas tradicionais composições da escola e por diários sentimentais e filosóficos escritos à mão, onde tentava imitar a caligrafia "maravilhosa" do pai: "durante muitos anos escrevia com caneta de tinta permanente. Gostava do som do aparo da caneta de tinta permanente no papel, e desse deslizar, como se fosse o desenho da unha na pele, quando se faz um risco na pele."

Quando se iniciou na escrita das peças utilizou o mesmo método porque "achava que não conseguia escrever no teclado, que só conseguia escrever em locais públicos" mas, entretanto, deixou-se disso: "felizmente evoluí, e agora posso escrever num aeroporto, com crianças à minha volta aos berros, na casa de não sei quem. O único sítio onde não consigo escrever é provavelmente na praia. Aí só me apetece ler e ficar de papo para o ar."

No que Sónia Baptista escreve encontramos "a vivência da natureza" que, no entanto, não é bucólica: "não sou guardadora de rebanhos mas acho que às vezes quando escrevo tento sincronizar a minha respiração com qualquer coisa da natureza, seja fauna ou flora." Explica que não se trata de "antropomorfizar os bichos" mas antes de aceitar que eles "funcionam como arquétipos que podem revelar algumas coisas sobre nós" porque são inícios de qualquer coisa.

Brinca com a ideia para dizer que "em vez de ser como os futuristas e partir das máquinas para escrever poemas, às vezes parto dos bichos."

Não encontra uma explicação exacta para esta ligação, mas arrisca uma possibilidade: "quando era criança passeava com bichos ao colo e sentia o respirar deles contra o meu peitinho pequenino da altura. Não fui uma criança aventureira, sempre fui mais sonhadora e medrosa, mas gostava de sentir, de pôr a mão nas coisas e sentir." Aumenta a dimensão da metáfora para dizer que "se calhar escrever continua a ser isso, uma maneira de pôr a mão nas coisas, de criar um dueto. Lá está, volta-se à dança, fazer duetos com as coisas vivas e não vivas."

A poesia serve para quê?

Para ordenar e desordenar o mundo

Deve saber vários versos de cor. Qual o primeiro que lhe vem à cabeça?

Rose is a rose is a rose is a rose ( Gertrude Stein)

Se não fosse poeta português (ou de outro país) seria de que nacionalidade?

Japonesa

Um bom poema é...

É um estalo ou um beijo ou as duas coisas ao mesmo tempo

O que o comove?

O bem querer e o bem fazer

Que poema enviaria ao primeiro-ministro português?

Este Livro (de Ana Cristina Cesar)

Meu filho. Não é automatismo. Juro. É jazz do coração. É
prosa que dá prémio. Um tea for two total, tilintar deverdade
que você seduz, charmeur volante, pela pista, a toda. Enfiea
carapuça.
E cante.
Puro açúcar branco e blue.

Por sua vontade, o que ficaria escrito no seu epitáfio?

Oops...

Poemas "Poética" de Sónia Baptista e "Raposa" de Adrienne Rich