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Henrique Monteiro

Chamem-me o que quiserem

Henrique Monteiro

Taxistas e ludistas: uma razão sem futuro

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Ao provocarem hoje um pandemónio reivindicativo nas cidades de Lisboa, Porto e Faro, sobretudo na capital, os proprietários e condutores de táxis chamam a atenção para algo que nos nossos tempos é extraordinariamente interessante: pode ter-se razão sem conseguir suster essa razão? A mudança da sociedade não acabará por tornar as suas reivindicações ridículas?

Explico-me já. Não penso que não assista qualquer razão aos taxistas e compreendo que eles querem defender o seu modo de vida. Mas isso advém de um tempo e de uma forma de ver o mundo. Recuemos no tempo e pensemos no que fizeram os primeiros prejudicados pelas máquinas? O Ludismo foi um movimento para destruir os teares a vapor pioneiros em Inglaterra. Mas imaginemos o que podem ter feito os ferreiros, os cocheiros, os moleiros, as lavadeiras de Caneças (que ainda são da minha infância) contra um mundo que desapareceu. Os taxistas estão desse lado do problema.

Ao criticarem o facto de o diploma que regulamenta a sua atividade não ter ido ao Tribunal Constitucional podem, ou não, ter razão. Não faço ideia, embora presuma que Marcelo sabe suficientemente do assunto para, ao não o ter enviado, estar convicto de que nenhuma inconstitucionalidade haveria. Coisa diferente é saber se há algo de imoral nesta questão, mas isso os tribunais não julgam.

Não me parece ser sonhar alto quando aposto que o futuro está na Uber e nos TVDE (só me interrogo se com ou sem condutor)

Convém, ainda, saber que, do ponto de vista do utilizador, um Uber ou um TVDE (transporte em veículo descaracterizado com plataforma eletrónica) é muito mais cómodo. Não só é imensamente mais porque estes TVDE já tiveram efeitos positivos sobre os táxis tradicionais; alguns (mytaxi) organizaram-se com plataformas digitais; outros tornaram-se mais limpos e acolhedores e os seus motoristas, até para não perderem clientela, parecem agora mais simpáticos.

É certo que os táxis, por leis que devem ter a origem no tempo das caleches, são altamente regulamentados. Os TVDE não tanto, ou quase nada. E isso é desigual. Mas a questão jurídica de saber se o serviço que prestam é igual é mais complexa do que se possa julgar. O veículo descaracterizado, por essa mesma qualidade, não pode ser mandado parar em plena via pública. Obriga a um contacto prévio, não chega a todas as zonas; em contrapartida sabemos de antemão quem é o condutor, qual a opinião dos passageiros que viajaram com ele; a marca do carro e podemos escolher entre uma viatura normal, uma de luxo e uma elétrica. E tudo isto é diferente.

Não me parece ser sonhar alto quando aposto que o futuro está na Uber e nos TVDE (só me interrogo se com ou sem condutor). Não me engano quando os mais jovens (e até os menos) já dizem chamar um Uber com descontração total, como se há bastantes anos eles existissem no mercado. Os jovens, mais atentos aos preços, sabem quando há promoções dos concorrentes e chamam consoante a tarifa. Há aplicações que as comparam para os mesmos trajetos.

E tudo isto me leva a compreender duas coisas: que a luta dos taxistas está perdida a prazo. Pode ter uma vitória de Pirro, mas é uma guerra perdida. Se alguém quiser dar um bom conselho aos profissionais dos táxis é dizer-lhes que comecem a pensar em mudar de atividade. Mesmo que ela seja parecida, no futuro não vai ser igual. Os especialistas afirmam que mais de metade dos empregos daqui a uma geração (25 anos) nem sequer existem hoje. Isso tem uma contrapartida: muitos dos que existem hoje terminarão ou serão residuais. Como os operários que teciam manualmente; como os cocheiros, os moleiros, os ferreiros ou as lavadeiras de Caneças.

Como dizia o outro, não é bom nem mau. É o que temos.