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Vitor Matos

Índice de citacionismo

Vitor Matos

Os ovos do PCP e o Rui sem medo

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O PCP é mais contra a UE que contra a extrema-direita. Rui Rio parece mais contra o seu partido do que contra António Costa. O ministro da Educação joga póker com os sindicatos. E a CGTP acha que mais vale a pena o PS governar à direita do que ter a direita a Governar em vez do PS. As frases da semana, os significados e as consequências. O índice, de zero a 20 valores.

“O indispensável combate às forças de extrema-direita e fascizantes passa por não branquear as políticas que lhes abrem caminho, como o ataque a direitos sociais e o desrespeito por sentimentos e soberanias nacionais, que resultam do aprofundamento do carácter supranacional e anti-democrático da UE. A solução não pode passar por aprisionar os povos em falsos dilemas e dicotomias – como tentam fazer os que, censurando a serpente, lhe cuidam dos ovos.”
João Ferreira, eurodeputado do PCP, 18 de setembro, em artigo no Público

18 valores no índice anti-europeu. Em termos simples é isto: os comunistas são mais contra a União Europeia do que contra o regime anti-democrático de extrema-direita que se está a desenvolver na Hungria. É com esta linguagem cifrada que o PCP tenta explicar por que razão votou, na passada quarta-feira, contra o relatório aprovado pelo Parlamento Europeu a penalizar os abusos do regime de Viktor Órban, por ser contra o espírito fundador da União. Esta novilíngua de João Ferreira é demonstrativa daquilo que verdadeiramente pensa o PCP. É mais importante a luta contra os ovos postos pela UE do que a luta contra a serpente pós-fascista. O PCP não quer saber das as violações de princípios básicos da democracia na Hungria, como a independência do poder judicial, a liberdade de expressão - geral, académica e de imprensa -, a xenofobia contra os migrantes, ou as declarações de ódio contra as minorias, etc. etc. Isso não é o fundamental.

Para o PCP, isso é uma “ingerência” em assuntos internos de um Estado, o que serve sempre para justificar toda a retórica do partido na defesa de regimes pouco recomendáveis - da Venezuela, a Cuba, à Rússia ou à Coreia do Norte. A metáfora dos ovos quer dizer o seguinte: a União Europeia, com as suas políticas liberais contra os trabalhadores (e com os erros que cometeu nas políticas de migração), é que incuba os ovos de onde nascem os Órban. Por isso, o PCP vota contra a galinha e não contra a serpente. Para o PCP, que não partilha dos valores básicos da UE, se não houvesse uma União Europeia capitalista não haveria um ressurgimento fascista. Mas o pensamento subjacente é mais elaborado e cínico: quanto mais movimentos de extrema-direita houver mais perto da ruptura estará a UE. Há estranhas alianças históricas e contranatura: o pacto germano-soviético de 1939 também não parecia fazer sentido. E não fazia. Os comunistas até podem não estar a ser contraditórios porque esta posição é apenas instrumental para um fim que entendem ser maior. João Ferreira acusa a UE de “hipocrisia”, mas não há hipocrisia maior que a do PCP.

“A indignação em relação ao conteúdo das notícias entretanto publicadas levou a que praticamente a totalidade dos membros da Comissão Política Nacional me tivesse transmitido, por escrito, o mais vivo repúdio, não só pela falsa ideia de divisão que estão a tentar criar na opinião pública, mas também pelo desgosto de verificar que a notícia que originou toda esta desinformação, tenha tido, necessariamente, a colaboração direta de alguém que, tendo estado presente, não se coibiu de usar um jornalista para a prossecução de pequeninos objetivos de guerrilha partidária”
José Silvano, secretário-geral do PSD, 15 de setembro, em comunicado

7 valores no índice de tática política. Rui Rio reagiu, assim, através de um comunicado assinado pelo secretário-geral do PSD, às notícias que foram publicadas ao longo de dois dias, sobre divisões na sua direção - depois de uma notícia do Expresso que dava conta de críticas na Comissão Política Nacional à sua posição favorável ao princípio da chamada “Taxa Robles”, do Bloco de Esquerda. O líder do PSD conseguiu duas coisas em simultâneo: manter o tema das críticas internas na agenda, e lançar uma suspeita sobre os membros da sua própria direção, ao acusar os dirigentes da cúpula do PSD de lhe fazerem “guerrilha”. Muita gente no partido não gostou. É verdade que a Comissão Política Nacional é um órgão alargado onde estão dirigentes de outras estruturas nacionais por inerência (JSD, autarcas, líderes regionais), mas a “caça às bruxas” recai sobre todos. Não deixa de ser assinalável o comunicado dizer que a direção está “globalmente coesa”. E não “totalmente”. E a ironia: o homem que vive arrepiado com as fugas de informação do Ministério Público agora acontece-lhe o mesmo em casa. Não é azar. É o mundo que é assim.

“Estou cheiinho de medo”
Rui Rio, 12 de setembro, antes de entrar no Conselho Nacional do PSD

18 valores no índice de bravata. A frase - é uma daquelas que vai ficar nos anais da política portuguesa - já tem quase uma semana, mas resume bem a forma de estar do líder do PSD. Rui Rio gosta do confronto e vai ao choque de peito feito. Acha que o eleitorado vai valorizar o facto de não se deixar amedrontar pelo “políticos” que fazem a “guerrilha” tradicional dos “corredores” em vez de pensarem nos problemas das pessoas. O problema é que uma atitude de permanente hostilidade gera conflitos e onde há conflitos há notícias. E quando há notícias sobre conflitos não há notícias sobre ideias e não é possível a uma liderança desenvolver uma narrativa clara. Desgasta-se a imagem do líder e dificulta-se a formulação de uma mensagem consistente. O Conselho Nacional que se seguiu a esta frase foi dos mais violentos dos últimos anos para um líder. A conflitualidade interna vai continuar a fazer ruído, mas foi Rio quem escolheu o caminho mais difícil. Rui não tem medo e se calhar até tem razão, porque noutros países estas estratégias menos convencionais têm funcionado (sobretudo entre os políticos populistas): com o tempo, veremos se tem razão.

“O Governo não enganou os docentes e não enganou os seus representantes através das organizações sindicais. Além disso, demos um passo quando apresentámos a proposta de contabilização dos dois anos, nove meses e 18 dias, que são 70% dos quatro anos que é o impulso de carreira dos professores”.
Tiago Brandão Rodrigues, ministro da Educação, 17 de setembro, em entrevista ao Público

17 valores no índice de opacidade. Não enganou mas parece ter escondido. O Governo esteve reunido mais uma vez com os sindicatos e, pelo que se soube pelos jornais, não disse aos representantes dos professores que ia publicar um decreto a contar os dois anos, nove meses e 18 dias do tempo de carreira que esteve congelado desde o tempo de José Sócrates. O Governo até pode ter razão, por uma questão de equidade em relação a outras carreiras da função pública, mas sem mínimos de confiança entre as partes é impossível negociar seja o que for. O ministro disse que não mentiu aos sindicatos. Mas por maior que seja a inflexibilidade dos representantes sindicais, esta não parece ser uma maneira de negociar de boa-fé. O impasse vai perdurar. Até quando e com que consequências, saberemos quando o dito decreto aparecer.

“Se o PS quer dar um chega para lá à esquerda, que o assuma”
Arménio Carlos, secretário-geral da CGTP, 15 de setembro, em entrevista ao Expresso

16 valores no índice da esquizofrenia política. Conforme acelera o calendário em direção ao Orçamento do Estado, António Costa parece ter alterado a relação com os partidos da “geringonça”. Apesar de o Bloco de Esquerda ser o partido que tem mais razões de queixa do primeiro-ministro - que parece estar já a competir com o BE pelos votos à esquerda - Arménio Carlos, que é do PCP, faz a mesma leitura política. “É pouco sensato o PS optar por se encostar à direita numa altura em que ela está profundamente descredibilizada. O Bloco Central tem sido concretizado nos últimos tempos”, disse o líder da CGTP ao Expresso este sábado. Em que aspetos? Na legislação do trabalho, na regionalização e na política europeia. Percebemos pelas declarações à esquerda que a margem de manobra da “geringonça” está a afunilar-se. No entanto, “era prestar um serviço à direita se houvesse uma rutura”, assume Arménio Carlos. O caminho vai estreitar-se até às eleições mas sempre com esta espécie de esquizofrenia: o Governo apoiado pela esquerda trata do essencial com a direita. Em que ficamos, afinal? No ensaio para um discurso eleitoral com um ano de antecedência.