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Sucessão na Sonae

Tal pai tal filha

Cláudia Azevedo, escolhida para substituir o irmão Paulo Azevedo na presidência executiva da Sonae, gosta de fatos discretos e usa e abusa do azul escuro

Cláudia Azevedo, escolhida para substituir o irmão Paulo Azevedo na presidência executiva da Sonae, gosta de fatos discretos e usa e abusa do azul escuro

A mulher Sonae é “uma rapariga normal”, que dedicou boa parte do seu tempo nos últimos anos a viajar pelo mundo em busca de startups para o grupo e quer “ser frontal” como o pai. Belmiro reconhecia-lhe o seu “killer instinct”

Texto Margarida Cardoso Fotos Rui Duarte Silva

“Tento ser tão frontal como o meu pai. Acho que é uma virtude”. A declaração é de Cláudia Azevedo e é uma das raras citações possíveis da filha mais nova de Belmiro de Azevedo, escolhida para suceder ao pai e ao irmão Paulo na liderança da Sonae a partir de 2019.

Nascida a 13 de janeiro de 1970, sob o signo de Capricórnio, o que a acreditar na astrologia pode significar que tem os pés bem assentes na terra, aos 49 anos Cláudia chega – entre abril e maio de 2019, na assembleia-geral que aprova as contas do grupo e elege a administração para o próximo mandato – à presidência executiva da Sonae SGPS com fama de “durona”, “intuitiva”, pouco dada a ouvir um ‘não’, mas “rápida a decidir”.

“É uma mulher de poucos sorrisos”, mas isso “talvez seja mais timidez do que mau feitio”, diz quem trabalha com ela. Gosta de futebol, de esqui, do humor dos Monty Phyton, comentam os amigos. “Pede para ser tratada pelo nome próprio”, “prefere a informalidade” e é a mais parecida com o pai “na fisionomia e no feitio”, repetem colegas da Sonae quando tentam comparar Cláudia e os irmãos Paulo e Nuno Azevedo com o pai Belmiro.

Apontado por muitos como o melhor empresário português do pós-25 de Abril pelo trabalho feito na construção do grupo Sonae, a partir de uma empresa quase falida, Belmiro de Azevedo terá sido o primeiro a reparar nas semelhanças. “É a mais parecida comigo, a que tem mais killer instinct”, assumiu o empresário, vítima de uma pneumonia em novembro de 2017, numa entrevista para o livro “O Homem Sonae”, de Filipe S. Fernandes.

“É a mais parecida comigo”, dizia Belmiro de Azevedo da filha Cláudia

“É a mais parecida comigo”, dizia Belmiro de Azevedo da filha Cláudia

A hora da “Mulher Sonae”

Se quando definiu o perfil do “Homem Sonae”, líder ou candidato a líder, em 1985, pensou apenas no masculino, o próprio Belmiro de Azevedo acabaria por dar a mão à palmatória anos mais tarde, admitindo que teria feito mais sentido falar do “Homem e Mulher Sonae”.

Mas a verdade é que quando avançou com o processo de sucessão “mais bem preparado que houve em Portugal”, como gostava de dizer, escolheu o filho do meio, Paulo Azevedo, sublinhando sempre que o pilar da cultura da empresa era a meritocracia. Na subida de Cláudia à presidência executiva da Sonae SGPS, para ocupar o lugar que o irmão Paulo partilhava com Ângelo Paupério, um dos primeiros desafios a vencer será exatamente provar o seu mérito na gestão diária de um dos maiores grupos nacionais. Para isso, terá de se afirmar como gestora antes de se apresentar como herdeira.

E tem muitas frentes para se afirmar num grupo que gera 5,71 mil milhões de euros em receitas, teve lucros de 166 milhões de euros em 2017, emprega cerca de 44 mil pessoas em áreas como as tecnologias, as telecomunicações, o retalho ou os centros comerciais, assume vocação global, tem duas empresas no PSI-20 (Sonae SGPS e Sonae Capital) e prepara a entrada em bolsa de uma nova holding, ainda em formação, no sector do retalho.

Depois de o grupo Amorim ter escolhido Paula, a filha mais velha de Américo Amorim, para suceder ao pai, a Sonae segue a mesma linha, num processo que surpreendeu os trabalhadores do grupo e o mercado mas já estava a ser preparado há algum tempo.

“Tudo foi feito com calma e tranquilidade, no âmbito de um processo de sucessão em que pela primeira vez na Sonae, e até um pouco contra a posição defendida no passado por Belmiro de Azevedo, se analisaram vários perfis de gestores de fora (do grupo)”, conta ao Expresso fonte da Sonae.

“Cláudia foi escolhida e disse sim”, acrescenta a mesma fonte. A irmã mais nova não tem um perfil de gestão tão vincado como Paulo Azevedo, na liderança da Sonae desde 2007, mas tem o percurso em ziguezague que o pai exigia aos seus quadros, exibe já uma longa experiência na Sonae e tem competências em áreas fortes do grupo como a tecnologia e a inovação.

Caçadora de startups

Na base da mudança estará a vontade de Paulo Azevedo ter mais tempo para dedicar à Efanor, a holding da família Azevedo, o que significa deixar as funções executivas da Sonae no final do atual mandato (dezembro de 2018), mantendo, no entanto, a presidência do grupo. Com ele sai o copresidente executivo da Sonae Ângelo Paupério, que passa a assumir funções não executivas na Efanor, com Carlos Moreira da Silva.

Tudo isto significa muitas outras mudanças no grupo, desde logo porque Cláudia, já a preparar o próximo passo na sua carreira, deixa a presidência executiva da Sonae Capital, onde será substituída por Miguel Gil Mata. E também deixa a presidência da Sonae IM. E irá, certamente, escolher a sua equipa, tal como o irmão fez. E como reage o mercado? Penalizando as ações das duas empresas, com a Sonae Capital a cair 0,43% e a Sonae SGPS a perder 1,74% na Bolsa de Lisboa no fecho desta quarta-feira.

Licenciada em gestão de empresas pela Universidade Católica do Porto (1994), com o MBA do INSEAD em Fontainebleau (2000), Cláudia sempre foi boa aluna mas hesitou entre biotecnologia e gestão antes de escolher o caminho que a podia levar diretamente aos negócios da família. Entrou no grupo aos 24 anos, como gestora de produto do Banco Universo, percebeu que para se afirmar internamente precisava de “ter mais 25% de mérito”, como disse um dia. Foi trabalhando para isso, somando cargos na administração de empresas como a SonaeCom, “Público”, NOS ou na presidência executiva da Sonae Capital e da Sonae IM.

Uma da suas primeiras missões foi a campanha de marketing de lançamento da Optimus, com a oferta de comunicações a cinco escudos por minuto. Outra missão foi a representação da Sonae na Zopt, empresa parceira de Isabel dos Santos na NOS. Outra foi a reorganização do jornal “Público”, onde não conseguiu tirar as contas do vermelho, tornando-se notícia, já este mês, ao assumir, pessoalmente, demitir o diretor adjunto Diogo Queiroz de Andrade, num processo que levaria também à saída do diretor David Dinis.

Nos últimos meses, Cláudia Azevedo apareceu também nas notícias devido às operações feitas pela Sonae Investment Management (Sonae IM) para entrar no capital de empresas tecnológicas na Europa e nos Estados Unidos, como a Arctic Wolf Networks, a Secucloud, a Ometria ou a Case on IT. Na verdade, nos últimos anos, dedicou muito do seu tempo a procurar e analisar startups pelo mundo.

Cláudia Azevedo terá ao seu lado o irmão Paulo, como presidente da Sonae SGPS

Cláudia Azevedo terá ao seu lado o irmão Paulo, como presidente da Sonae SGPS

Para a administração da Sonae, “tem um percurso profissional notável que se tem caracterizado pela gestão de portfólios diversificados e pela internacionalização dos negócios das várias participadas, tornando a sua experiência e aptidões particularmente adequados para esta função”, como se lê no comunicado onde o grupo anuncia o processo de sucessão, a pedido do acionista maioritário Efanor.

Do lado da futura presidente executiva da Sonae, as primeiras palavras, citadas pelo jornal “Público”, foram de agradecimento pelo “voto de confiança” da administração da Sonae e da Efanor e de garantia de que aceita o novo desafio “com a convicção de quem olha para o futuro e tem a confiança de ter nos valores Sonae a determinação e otimismo necessários” para enfrentar o que tem pela frente,

Separada, mãe de Lucas, de 15 anos, e de Margarida, de 11 anos, Cláudia sempre evitou entrevistas. Com um posicionamento discreto e austero e gostos frugais, como o pai, foi “uma rapariga comum, sem grandes histórias, rebeldias ou problemas, com uma enorme afeição pelo pai”, disse Magalhães Pinto na biografia de Belmiro de Azevedo. Será, agora, uma gestora da raça do pai? É a pergunta a que só tempo irá responder.