Antes pelo contrário
Daniel Oliveiradanieloliveira.lx@gmail.com
Israel bloqueado em Netanyahu
Depois do que parecia que iria ser uma noite dramática, Benjamin Netanyahu volta a ganhar as eleições israelitas de forma folgada. Desde 2009 no poder, a que se acrescentam mais três anos, entre 1996 e 1999, o primeiro-ministro israelita parece ser capaz de sobreviver a tudo. Na instável política israelita, é obra. O "mágico Bibi", como é conhecido pelos autênticos milagres eleitorais que vai conseguindo, fez o impossível. Israel nunca esteve tão isolado internacionalmente e vive uma crise económica e social de grandes proporções - que explica o surpreendente resultado do partido de centro-direita Kulanu, que, resultado de uma dissidência do Likud, concentrou aí todo o seu discurso. E, no entanto, Netanyahu aguenta-se.
Israel está tremendamente dividido. Essa divisão não tem apenas a ver com a esquerda e a direita. Uma das grandes surpresas destas eleições foi a unificação dos vários partidos árabes na Lista Árabe Unida, que conquistou 14 deputados (em 120). O que quer dizer que conseguiu representar uma parte razoável dos 20% dos palestinianos com cidadania israelita (é assim que muitos gostam de ser identificados). Se esta força se mantiver, a esquerda terá de contar com ela para, no futuro, governar.
O novo governo de Benjamin Netanyahu estará amarrado. Ao Yisrael Beytenu (6 deputados), do líder russo de extrema-direita, atual ministro dos Negócios Estrangeiros, Avigdor Lieberman. Aos ultra-ortodoxos do Shas (7 deputados) e do Judaismo da Torah Unida (6 deputados). À Casa Judaica (8 deputados), fortes defensores da expansão dos colonatos. A direita israelita vive e continuará a viver refém do discurso racista e dos movimentos religiosos anti-laicos.
De notar a queda dos partidos moderados seculares, como o centrista Yesh Atid, que passa de 19 para 11 deputados, ou o esquerdista Meretz, que continua a sua irrevogável queda num Israel cada vez mais religioso e militarista e está agora nos 4 deputados.
A volatilidade eleitoral de Israel, assim como a incapacidade do centro-esquerda, agora representado pela União Sionista, voltar a impor-se como alternativa de poder, não são o mais relevante da sua vida política. Há quatro marcas consistentes dos sucessivos atos eleitorais. A primeira é que o discurso belicoso, radical e por vezes racista de Netanyahu consegue sempre, à última da hora, que os israelitas esqueçam o crescente isolamento em que se encontram e a sua crise económica. A segunda, é que a extrema-direita e os grupos ultrarreligiosos são hoje um bloco poderoso e incontornável da política israelita. A terceira, é que as únicas surpresas partidárias vêm quase sempre de uma classe média concentrada nos seus problemas sociais e económicos, mas alheada da questão da guerra e da paz. E a quarta, é que, do lado oposto, cresce uma consciência dos árabes israelitas com a qual o centro-esquerda, por ausência de um discurso alternativo ao militarismo, não tem feito as pontes suficientes. Israel está bloqueado. Está assim desde o assassinato de Yitzhak Rabin por um ativista de extrema-direita. Neste momento, está bloqueado em Netanyahu.