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Saúde

O sono das mulheres não é igual ao dos homens. É pior. E a razão é biológica

Ao logo da vida as hormonas irão determinar a forma como a mulher dorme. A estrutura do cérebro feminino também terá grande influência Foto Getty Imagens

Ao logo da vida as hormonas irão determinar a forma como a mulher dorme. A estrutura do cérebro feminino também terá grande influência Foto Getty Imagens

Tirem todas as questões sociológicas e culturais da equação: o trabalho, a vida doméstica, os filhos, as doenças, as correrias entre as várias responsabilidades femininas. Mesmo assim o sono das mulheres será diferente. Porque, para começar, o cérebro também o é, já para não falar da ditadura das hormonas. Um cromossoma diferente equivale a outro “cronossono”. É uma das possíveis conclusões a tirar no segundo dia do Lisbon Sleep Summit, exclusivamente dedicado ao “Sono nas Mulheres”

Texto Cristina Margato

A atividade cerebral dos homens é diferente das mulheres. As mulheres mostram ter (predominantemente) mais ligações entre os dois hemisférios. Os homens concentram a atividade em apenas um deles. Os homens mostram mais movimento nas áreas cerebrais relacionadas com as perceções espaciais e a atividade motora, e logo estão melhor preparados para traduzir sensações em ações. As mulheres, com as suas ligações intra-hemisférios, conseguem mais facilmente juntar os aspetos analíticos aos emocionais, e logo terão melhores capacidades cognitivas e sociais.

Os homens são mais físicos. As mulheres são mais emocionais.

Poder-se-ia então dizer que não há nada a acrescentar ao pensamento comum, aos chamados clichés, não fosse esta conclusão ter outras implicações. Nomeadamente na forma como homens e mulheres dormem.

Até há pouco mais de dois anos era impossível perceber, sem abrir o crânio de uma pessoa, as atividades rítmicas do cérebro humano, garante Fernando Lopes da Silva, neurologista português a viver na Holanda, convidado a participar no Lisbon Sleep Summit (de 16 a 19 de maio de 2018).

“Não se pode concentrar tudo na psique”

Foi a combinação entre novas tecnologias e metodologias que permitiu ir um pouco mais longe, e olhar com atenção para a forma como funciona o cérebro masculino e o feminino. As mulheres dormem pior do que os homens e a culpa não é apenas do quotidiano. A razão é também estrutural, orgânica, fisiológica, hormonal. As mulheres dormem pior e isso tem consequências. Uma delas é a depressão.

Teresa Paiva, neurologista, responsável pela organização deste congresso, não tem dúvidas de que um cromossoma faz a diferença: “As mulheres têm problemas específicos do sono que ainda não foram suficientemente estudados. Tem de ser perceber que o sono da mulher é diferente do do homem.” Procurar obter mais dados e lançar a discussão na sociedade fazem parte dos seus objetivos.

Mesmo que a especialista do sono não queira, em nenhum momento, descurar os fatores culturais e sociais que interferem no sono da mulher – e que, em regra, estão relacionados com as múltiplas responsabilidades da vida moderna, que são obrigadas a conciliar – Teresa Paiva fala na questão biológica. “A biologia das mulheres é muito diferente da do homem. Tudo parte de uma base orgânica. Somos mulheres porque temos dois cromossomas X, e os homens têm o X e o Y. Logo aí há uma diferença marcadíssima. Não se pode concentrar tudo na psique, até porque as questões psicológicas têm muito a ver com as alterações estruturais e biológicas, apesar das circunstâncias da vida e das questões envolventes.”

Fernando Lopes da Silva, investigador especializado em ritmos cerebrais, analisou as diferenças entre o cérebro masculino e feminino a nível estrutural e fisiológico, procurando perceber quais as implicações no sono de cada sexo, apresentando-as num painel do Lisbon Sleep Summit intitulado “Neurobiologia do Sono Feminino”. E a verdade, confessou Lopes da Silva ao Expresso, é que não esperava encontrar tantas diferenças. Os ciclos ou ritmos circadianos (que regulam o sono) são diferentes em homens e mulheres.

Mulheres têm mais pesadelos

A finlandesa Tiina Paunio já tinha começado o dia explicando que as mulheres têm mais problemas em dormir, mais pesadelos. A estrutura (a divisão entre as várias fases do sono) muda ao longo da vida da mulher. Está sujeita à idade da mulher e logo à influência hormonal. Uma grávida, uma mulher na perimenopausa ou na menopausa terá diferentes estruturas do sono, maiores ou menores fases de REM, por exemplo.

Um mau sono, como tantas vezes acontece com as mulheres, provocará inequivocamente depressão e ansiedade. O problema, porém, é que um bom sono depende não apenas dos tais ritmos ou ciclos circadianos, que são diferentes em homens e mulheres, mas também do ciclo hormonal da mulher, que além de ser mensal é também diferente ao longo da vida.

A diminuição dos níveis de estrogénio, por exemplo, a que as mulheres ficam sujeitas quando se aproximam da menopausa, leva, como a investigadora Helena Hachul demonstrou, a um sono mais fragmentado, a uma diminuição da fase REM, e logo a problemas de memória, depressão e ansiedade. Hachul apresentou dados que confirmam que uma terapia hormonal pode solucionar os problemas de sono das mulheres, quando não existem contraindicações para o fazer.

Como bem lembrou Teresa Paiva no final do painel dedicado à “Neurobiologia do Sono Feminino”, as mulheres nascem, contudo, com uma esperança de vida maior, apesar de dormirem pior do que os homens ao longo da vida. Estarão estas duas realidades relacionadas?, perguntou a especialista do sono a Lopes da Silva. No palco, como fora dele, o investigador não conseguiu responder. Mas Teresa Paiva acha que vale a pena perceber esse duplo comportamento da composição hormonal das mulheres, que ora as protege de doenças e as faz viver mais tempo ora as obriga a dormir pior.