SÍRIA
A História não nos absolverá facilmente
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O cessar-fogo entre o regime sírio e os rebeldes voltou a ser quebrado. Os inimigos culpam-se mutuamente pelas explosões, que continuam a afetar quem tem “a infelicidade de ali viver”. “É um lugar do fim do mundo”, garante quem viu Alepo esta semana, durante a sua “libertação”
TEXTO MARIANA LIMA CUNHA
As informações mudam, evoluem ou contradizem-se a cada minuto que passa. Diz-se que são as forças do regime, apoiadas por aliados como a Rússia ou o Irão, que estão a atacar e a prender os civis que, após meses de cerco, conseguem sair de Alepo; mas também se diz que não, que são os rebeldes, a quem os Estados Unidos chamam moderados mas que também incluem forças que costumavam estar associadas à Al-Qaeda, que quebram os sucessivos acordos de cessar-fogo e disparam sobre os feridos. Escreve-se que há 50 mil pessoas, das quais 40 mil civis, por retirar da parte este de Alepo, a que continua – por muito pouco tempo – nas mãos dos rebeldes; mas também se diz, pela boca das autoridades russas, que a evacuação está completa e foi terminada com sucesso.
Esta semana disse-se tudo e o seu contrário sobre a Síria. Acontece porque a batalha é complexa, o seu campo principal – Alepo, quase totalmente nas mãos do Governo após meses de cerco aos rebeldes – está devastado, e as notícias de mulheres que se suicidam para evitar violações ou de crianças com menos de cinco anos que vão sobrevivendo aos bombardeamentos que ninguém assume chocam. A verdade, porém, é só uma – a Síria está a viver uma crise humanitária sem precedentes.
As informações na tarde desta sexta-feira são diferentes daquelas com que acordámos também nesta sexta-feira, ou daquelas que lemos na véspera. Afinal, o cessar-fogo – o segundo desta semana alucinante – voltou a ser quebrado; a retirada de gente está suspensa, os autocarros com rebeldes, famílias e crianças, supostamente a ser levados para outras zonas controladas por rebeldes - ou para abrigos e hospitais no caso dos feridos- , estão parados.
Ninguém sabe bem porquê e, como de costume, as versões diferem: Elizabeth Hoff, da Organização Mundial de Saúde, diz que as operações pararam por ordem das forças russas, sem que fosse revelado um motivo; os media estatais sírios adiantam que a missão foi suspensa depois de os rebeldes terem tentado transportar consigo armas pesadas e reféns durante a evacuação; o Ministério da Defesa afirma mesmo que a operação está completa, depois de terem sido retiradas 9.500 pessoas da parte este de Alepo e que o exército sírio está a “liquidar os últimos focos isolados de resistência”, cita a BBC.
Entretanto, as organizações humanitárias negam esta versão e voltam a pedir que sejam retomados os processos de evacuação, com o diretor regional do Comité Internacional da Cruz Vermelha (ICRC, na sigla original) a publicar no Twitter um pedido: “Pedimos às partes envolvidas que assegurem que as operações podem ser relançadas e continuadas nas condições certas.” Hoff explica, numa chamada à ONU feita esta sexta-feira, que “ainda há números elevados de mulheres e crianças [no este de Alepo] – crianças com menos de cinco anos – e precisam de sair. Têm-se reunido nos pontos onde as ambulâncias e os autocarros as esperavam. Mas agora, com a operação abortada, tiveram de voltar às suas casas e isto é uma grande preocupação para nós, que sabemos que estão desesperados por sair.”
Algemaram-nos e mataram quatro de nós. É a vingança
O sentimento deverá estender-se a grande parte da população – segundo o enviado da ONU à Síria, Staffan de Mistura, haverá ainda 50 mil pessoas, das quais 40 mil serão civis, à espera de conseguir sair da cidade onde têm “a infelicidade de viver”, depois de uma semana em que os bombardeamentos e ataques foram constantes e a situação humanitária se deteriorou gravemente, com grandes avanços das tropas de Assad, que têm agora o controlo cerca de 90% da cidade, deixando apenas alguns bairros nas mãos dos rebeldes.
No entanto, com o processo aparentemente tão perto do fim, esta sexta-feira voltaram a ouvir-se explosões e disparos, com os dois lados do conflito a culparem-se pelo ataque – segundo os mais recentes relatos, feitos a meio da tarde desta sexta-feira por jornalistas sírios no local, terão havido mortes nas mais recentes tentativas de evacuação (o jornalista sírio Zahir al Shimale tweetou: “Somos cerca de mil, eles levaram-nos depois de chegarmos a zonas controladas pelo regime, algemaram-nos, mataram quatro e disseram que era a vingança. Depois voltámos para trás”).
Não é a primeira tentativa falhada de cessar-fogo e de evacuação da população que permanece nas escassas zonas de Alepo ainda controladas pelos rebeldes. Também esta semana foi acordada uma pausa para deixar as pessoas deixarem Alepo e serem distribuídas pela província de Idlib, controlada por forças rebeldes, abrigos e hospitais, a começar na quarta-feira. No entanto, cedo se percebeu que também esse cessar-fogo seria quebrado, com as partes a acusarem-se de ataques violentos e com a hipótese de ter sido o Irão, aliado da Síria, a exigir a condição de que as aldeias de Foua e Kefraya, sitiadas pelos rebeldes, fossem evacuadas em simultâneo com o este de Alepo – uma exigência primeiro negada e depois permitida pelos rebeldes, segundo dizia uma das suas fontes à Reuters no início desta tarde (segundo o ICRC, mais de 20 mil pessoas viverão nessas aldeias, pessoas que no final de 2015 se noticiou estarem a alimentar-se à base de erva e a ser operadas sem anestesia por falta de meios adequados).
Duas faces de um conflito interminável
As conversações são complicadas, muito por ser também difícil a definição das partes que negoceiam. De um lado está o regime de Assad, apoiado por aliados internacionais como a Rússia, o Irão, combatentes do Iraque, Afeganistão, Líbano e Paquistão. Já a oposição, predominantemente sunita, é composta por vários grupos rebeldes, muitos dos quais recebem apoio financeiro de inimigos de Assad como os Estados Unidos, a Turquia ou a Arábia Saudita. Para mais, da oposição fazem ainda parte grupos extremistas como o Jabhat Fateh al-Sham, que este ano deixou de ser conhecido como a Frente Nusra e cortou os seus conhecidos laços com a Al-Qaeda.
Com a lista de todas as partes envolvidas, não será de estranhar que as informações que chegam de cada uma das partes – responsáveis pelo bloqueio de Alepo, que já dura há quatro anos e que tem sido um terreno de batalha importante para determinar o que acontece na política nacional, dividindo Alepo entre a parte este, dos rebeldes, e a oeste, do regime – constituam versões muito diferentes. Mesmo os números não são fáceis de apurar – segundo várias fontes, que vão da ONU ao ministério da Defesa russo, o número de pessoas que já terão sido retiradas esta semana do este de Alepo poderá variar entre as 3 mil e as 9 mil.
Enquanto Putin dá os parabéns ao exército sírio por “deixar os sírios seguirem as suas vidas e voltarem às suas casas”, pedindo o fim definitivo da violência e revelando estar em conversações com o presidente turco para dar início a um diálogo de paz para a Síria em paralelo com as negociações de Genebra, John Kerry, secretário de Estado dos Estados Unidos, acusa o mesmo exército sírio por um “massacre”. “A única questão que resta é saber se o regime sírio, com o apoio russo, está disposto a ir a Genebra preparado para negociar de forma construtiva e se está disposto a parar este massacre da própria população”. Assad, por seu lado, celebra a “libertação” de Alepo e o facto de, diz, se estar a “fazer História”.
A segunda pior crise da História
As organizações humanitárias concordam, mas não pelos melhores motivos. “A crise humanitária síria é a pior da História, a seguir à Segunda Guerra Mundial”, explica ao Expresso a organização não-governamental Syria Charity. “Não há condições para garantir que a evacuação e o cessar-fogo continuarão, porque nenhuma das tentativas foi respeitada por mais do que umas horas pelos exércitos russo e iraquiano. O exército do regime continua a quebrar o cessar-fogo, abrindo fogo sobre autocarros com feridos e fazendo-os reféns”.
Esse é o perigo que espera quem deixa Alepo – mesmo para os milhares que já o conseguiram fazer, deixando para trás o “completo colapso da humanidade” descrito esta semana pela ONU ao anunciar as mortes de 82 pessoas que terão sido executadas pelo regime nas próprias casas, conforme o relato do porta-voz das Nações Unidas para os direitos humanos, Rupert Colville. No caminho que os autocarros seguem para deixar Alepo, pelo distrito controlado pelo Governo de Ramousseh, em direção a cidades rebeldes próximas, há um suposto corredor humanitário de 21 quilómetros – mas é lá que continuam a ouvir-se explosões e ataques a tiro.
É também por isso que se especula agora que Idlib, a província para onde estão a ser levados boa parte dos civis e rebeldes que deixam Alepo, possa tornar-se o novo campo de batalha para o regime de Assad, que em outubro prometera que a vitória em Alepo seria o primeiro passo para “libertar outras áreas dos terroristas”, como costuma referir-se aos rebeldes. Staffan de Mistura alerta agora: “Se não houver um acordo político e um cessar-fogo, Idlib tornar-se-á a próxima Alepo.”
Um lugar do fim do mundo
Os próximos passos de Assad, com o controlo quase inteiramente recuperado de Alepo – e assim das quatro maiores cidades sírias – não são claros, uma vez que os especialistas recordam que por muito que esta seja uma grande vitória simbólica, o seu exército continua a enfraquecer e depende em grande parte do apoio russo, enquanto os rebeldes continuam a deter boa parte do território sírio. “A narrativa perpetuada pelo Governo sírio tem tipicamente sido de culpar as forças da oposição, quer tenha razão ou não, como uma tática de distração para redirecionar a estratégia militar após a toma de controlo de uma área”, explica ao Expresso Reema Hibrawi, do think tank Syria Institute.
Qualquer que seja o próximo passo do regime, fica para trás a devastação de Alepo – outrora a maior cidade síria, com 2,3 milhões de habitantes e uma cidade velha que é património mundial da UNESCO, o cenário é agora como o de um “lugar do fim do mundo”, como descrevia há dias um médico presente no local, numa carta dirigida à BBC.
“Vemos pessoas desesperadas por cuidados de saúde e pessoas que adiaram a procura desses cuidados de saúde para darem outros cuidados às suas famílias. Por volta de 60 mil fugiram antes da evacuação atual, e cerca de 30 mil desses estão a viver em abrigos. Têm necessidade de tudo, desde abrigos, comida, e apoio psicológico e social. A água é uma prioridade”, resume Penny Sims. Um flagelo a que o mundo não pode fechar os olhos e que a comunidade internacional já ignorou demasiadas vezes, admitia esta semana o secretário-geral da ONU cessante, Ban Ki-moon: “O Conselho de Segurança não exerceu a sua responsabilidade tendo em vista a manutenção da paz e segurança internacionais. A História não nos absolverá facilmente”.