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Martim Silva

Opinião

Martim Silva

Rio quer dar-nos um banho de ética mas sem molhar os pés

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A confusão entre política e negócios é dos fenómenos mais nefastos para a coisa pública.

Quando se lançou na corrida à liderança do PSD, Rui Rio disse ao que vinha: “A política precisa de um banho de ética”.

Tirando um possível lado mais populista da tirada, ninguém pode estar verdadeiramente contra isso. Mas, lição número 1 do tal banho, é que convém praticar o que se prega. E a ida recente de Rio à Guiné-Bissau levanta questões legítimas, não respondidas. Bem sei que muito se escreveu sobre a ida do líder do PSD a Angola. Mas embora a Guiné seja política e economicamente menos relevante, foi em Bissau e não em Luanda que Rio deu um passo em falso.

Por partes. No seu primeiro 10 de Junho como presidente do PSD, Rui Rio foi à Guiné Bissau em visita oficial. Compreensível e natural. Decidiu levar consigo uma pequena comitiva oficial, composta pelo seu braço-direito no partido, Maló de Abreu, e pela assessora de imprensa, Florbela Guedes.

Mas da comitiva faziam também parte três empresários amigos de Rio, que aproveitaram a viagem para tratar de negócios pessoais. Ou melhor, que foram na viagem para tratar de negócios pessoais.

De acordo com os relatos da visita, noticiados pelo Expresso no sábado, a confusão de papéis foi evidente. Os três empresários foram com o presidente do partido à homenagem aos soldados mortos na guerra colonial, participaram numa deslocação a um orfanato e a um hospital. E ainda estiveram com Rio em receções na Embaixada de Portugal e numa sessão do AICEP.

A própria notícia do Expresso mostra a confusão que reina na sede do PSD e na cabeça de quem o lidera. O partido nega os convites aos empresários para estes fazerem parte da comitiva, mas os próprios confirmaram em ‘on’ que foi a convite do PSD que se juntaram a Rio. Não é difícil saber em quem acreditar.

Convém que quem quer dar um banho de ética aos políticos não seja o primeiro a precisar de passar pelo chuveiro

A presença de empresários em comitivas oficiais não é nova nem é surpreendente. Mas cada coisa no seu lugar. Uma coisa é o primeiro-ministro, ou o ministro da Economia, ir ao estrangeiro e levar uma comitiva empresarial. Cuja lista é previamente conhecida e divulgada.

Neste caso, a política também são os negócios.

Outra coisa, bem diferente, é um líder do partido ir de visita a um país com os quais Portugal tem ligações históricas e decidir levar um conjunto de empresários amigos, e seus apoiantes (pelo menos num caso até financiador da campanha) debaixo do braço.

Não é preciso tomar um banho gigante de ética para perceber que quem o faz arrisca-se a ficar captivo de interesses particulares.

Imagine o leitor se fosse Passos a fazer o mesmo. O que não se diria ou escrevia.

Muitos têm criticado a estratégia de Rio em matérias como os acordos com o Governo em matéria de descentralização e de fundos europeus. Ou sobre a posição face ao Orçamento do Estado. Mas para se avaliar verdadeiramente quem é este homem que quer suceder a Costa na liderança do país talvez a viagem à Guiné seja tão ou mais importante.

É que convém que quem quer dar um banho de ética aos políticos não seja o primeiro a precisar de passar pelo chuveiro.