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Justiça

As 62 escutas sobre o Sporting que a PJ está a investigar

A Operação Cashball incide sobre dirigentes do Sporting e é investigada pela PJ e pelo DIAP do Porto há já alguns meses Foto Adam Davy/EMPICS Getty Images

A Operação Cashball incide sobre dirigentes do Sporting e é investigada pela PJ e pelo DIAP do Porto há já alguns meses Foto Adam Davy/EMPICS Getty Images

Do guarda-redes que se atirou propositadamente para o lado oposto ao jogador que alinhou no esquema e depois se arrependeu, acabando por ser um dos melhores em campo. Estas são duas das várias histórias contadas pelo empresário Paulo Silva, um dos quatro detidos na operação Cashball, e que, arrependido de alegados subornos a futebolistas e árbitros de andebol, estará agora a colaborar com a PJ

Texto Hugo Franco e Pedro Candeias

O empresário Paulo Silva, detido esta quarta-feira de manhã na operação Cashball, é a personagem central na maior parte dos 62 ficheiros áudio a que o Expresso teve acesso, e que estão a ser investigados pela Polícia Judiciária e pelo DIAP do Porto. Também há chamadas feitas por João Gonçalves (empresário) e Gonçalo Rodrigues (funcionário do clube) igualmente detidos e que seriam os intermediários de André Geraldes, atual diretor de futebol do Sporting, referido em algumas das conversas.

As escutas dividem-se em três tipos de assuntos: possíveis negócios de jogadores de futebol em ascensão na mira dos empresários, aliciamento a árbitros de andebol e tentativa de suborno a futebolistas de equipas adversárias para facilitarem a vida ao Sporting.

Este é o capítulo mais polémico, caso se prove que as conversas de e para Paulo Silva — o arrependido que terá entregue as provas à Judiciária — têm fundo de verdade.

Numa destas mensagens de voz, o empresário conta que esteve alguns dias no norte do país com a missão de subornar o jogador de um clube antes de uma partida contra a equipa leonina. Numa primeira fase, terá conseguido convencê-lo a alinhar no esquema, mas ao contrário do que combinaram, o futebolista acabou por fazer uma boa exibição. E até ser um dos melhores em campo. Mais tarde terá explicado ao empresário que o pai o convencera a não alinhar no esquema apenas por 6 mil euros. Uma quantia que o próprio Paulo Silva considerou baixa. Alertou por isso para o risco de os valores propostos aos atletas serem demasiado magros e acabarem por não convencer ninguém.

Nas escutas não há menção a datas, raramente se ouvem nomes de clubes ou de atletas. As meias-palavras e os códigos multiplicam-se. Os intervenientes têm a noção de que as conversas podem ser intercetadas ou cair em mãos erradas.

Um outro jogador também de uma equipa nortenha ter-se-à retraído num jogo na ótica de Paulo Silva. Argumento rebatido pelo atleta, de nacionalidade brasileira, que lembrou ter feito uma falta que podia ter dado golo do Sporting. “Não ia dar escandaleira”, argumentou o futebolista.

Também um guarda-redes é alvo da crítica de Paulo Silva. Teria sido caro e até somado oportunidades para fazer mais. O guardião garantiu que não. E que num penálti se atirou para o lado oposto do remate, propositadamente, pois já saberia qual a direção da bola.

As críticas estendem-se aos próprios jogadores do Sporting, apelidados em determinado jogo de “incompetentes” e de terem feito “um jogo sofrível”. Ao contrário da equipa adversária, que fez o que deveria ter feito e foi mais do que amiga dos leões.