Chamem-me o que quiserem
Henrique Monteirohmonteiro@expresso.impresa.pt
Que tal suspender a Hungria da União Europeia?
Viktor Orban, chefe do governo húngaro, nunca escondeu quem era. Sempre se percebeu que era um tiranete sem escrúpulos e sem piedade. A sua mais recente declaração – segundo a qual os refugiados sírios colocam em causa os “valores cristãos” da Europa – mostra que ele sabe mais de teologia do que os teólogos cristãos e do que o próprio Papa, que recomenda que os refugiados sejam bem recebidos. Mas o pior é que a Hungria, com um punhado de países ao lado, está a desfazer a Europa e a zona Schengen. Ao não permitir refugiados manda-os seguir para a Alemanha, ou em menor quantidade para a Áustria.
A forma de os receber na Hungria lembra o modo como se tratam animais. A sua acomodação nos comboios faz lembrar episódios mais terríveis. A Hungria tornou-se no carrasco da Europa, enquanto recebe dinheiro da Europa. A República Checa, a Eslováquia já se colocaram, em parte, ao lado de Orban. A Polónia e a Roménia ameaçam fazê-lo. É curioso como são países que ainda recentemente tiveram refugiados em massa (os checos e os eslovacos para a Áustria, por exemplo, durante a queda do comunismo) sem que tal os demova de fazer aos outros o que não lhes fizeram a eles – e isto há apenas 26 anos.
O encerramento das fronteiras alemãs, embora bastante condenável, é compreensível. Os seus ministros Sigmar Gabriel (Economia e líder do SPD) e Thomas de Maiziere (Interior, CDU) afirmam, com alguma razão, que não pode ser a Alemanha o único país a receber os refugiados. E por isso de Maiziere propôs que os países que recusam as quotas recebam, em contrapartida, menos fundos europeus.
Também Bernard Cazeneuve, ministro do Interior de França, afirmou que a solidariedade não é divisível. Ou a Europa está toda na mesma onda ou nada disto faz sentido. Enquanto países como a Grécia, a Itália, Portugal, Irlanda, Espanha (para falar dos suspeitos económicos do costume) aceitaram sem reservas as quotas, o Reino Unido, fora de Schengen concede 20 mil entradas, como se isso fosse extraordinário e a própria Europa discute o astronómico número de 120 mil entradas. Por amor de Deus! Deve haver estádios de futebol que levam quase essa lotação!
120 mil pessoas, que representam a extraordinária percentagem de 0,02% da população europeia. 120 mil seres humanos, que viriam pelo sistema de quotas (de acordo com a proposta da UE sempre em percentagem dos habitantes de cada país: 31 500 para Alemanha, 24 mil para a França, 15 mil para a Espanha até 3074 para Portugal ou 133 para Malta). Em algum caso representam mais do que 0,03% da população de cada Estado. É este estrondoso número que põe em causa os nossos valores cristãos, segundo Orban… É esta ‘avalanche’ que impede a Europa de chegar a acordo.
É interessante recordar que quase 9000 refugiados foram mortos depois de raptados, presos ou torturados na Síria (dados do The New York Times) e que nas travessias do mediterrâneo já morreram quase três mil. A soma dos dois números corresponde a 10% daqueles que a Europa toda, com os seus mais de 500 milhões de habitantes, não se põe de acordo em receber.
De facto, os valores cristãos – ou quaisquer valores humanistas - estão postos em causa… pelos europeus. A começar por aqueles que os invocam para não dar abrigo a quem foge da morte e da guerra.
Orban e a Hungria já deviam estar suspensos da União. Não se pode conviver com líderes que constroem muros de arame farpado e tratam pessoas como gado.
Por mim tenho vergonha que ele seja europeu. E tenho vergonha do discurso racista que por aí paira em certa opinião pública, mesmo quando não é essa a orientação dos governos – da Hungria a Berlim e Varsóvia e de Londres a Madrid e Lisboa.
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Amanhã
LIGA DOS CAMPEÕES
DÍNAMO KIEV VS PORTO
A partir das 19h45 o Futebol Clube do Porto faz a sua estreia na liga dos campeões na Ucrânia, frente ao Dínamo de Kiev, onde atua o português Miguel Veloso. No jogo, que será arbitrado pelo alemão Felix Brych, Julien Lopetegui não se poderá sentar no banco devido a castigo. Transmissão na RTP1.
SOLIDARIEDADE
FESTIVAL DO PETISCO MEDITERRÂNICO 2015
O primeiro Festival do Petisco Mediterrânico em Faro, um evento com forte componente solidária, destinando parte das receitas a causas sociais, vai animar a Alameda João de Deus até ao próximo dia 20 de Setembro. Durante o festival o melhor petisco vai ser escolhido por um juri constituído por chefs conceituados.
DEBATE PÚBLICO
PORTUGAL OPEN SOURCE
Com o objetivo de colocar as TIC (Tecnologias de Informação e Comunicação e as tecnologias) e o modelo Open Source na estratégia de crescimento e desenvolvimento de Portugal nos últimos anos, a ESOP - Associação de Empresas de Software Open Source Portuguesas - organiza o debate “POS2020 - Portugal Open Source 2020” às 17h, no auditório J.J. Laginha do ISCTE-IUL, em Lisboa. Participação livre mas sujeita a inscrição.
TEATRO
“UMA MULHER SEM IMPORTÂNCIA”
A peça, inspirada numa comédia escrita por Oscar Wilde em 1892, faz uma crítica sarcástica à alta sociedade londrina nos finais do século XIX, subvertendo os papéis sociais do homem e da mulher da época. Encenação de Joaquim Horta. Início às 21h30, no Teatro Maria Matos, em Lisboa. Preço: € 12





