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ELEIÇÕES MAIS IMPORTANTES DA HISTÓRIA DA COLÔMBIA

O guerrilheiro de esquerda que se opõe ao “menino bem comportado” da direita

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O regresso da direita ou o primeiro presidente de esquerda a sério: é esta a escolha que se impõe aos cerca de 36 milhões de eleitores colombianos que no domingo escolhem o sucessor de Juan Manuel Santos. O acordo de paz com as FARC, rejeitado em referendo, foi imposto à força e criou a maior cisão na sociedade colombiana em mais de meio século. De um lado Iván Duque, o delfim de Álvaro Uribe, que quer redesenhar o processo de paz: atinado, pragmático, sorridente e sem carreira partidária, para alguns representa “o refrescar” do sector político. Do outro Gustavo Petro, intelectual que lia livros proibidos e chocava os padres do liceu com o seu ateísmo e que ingressou na milícia M19 - quer a paz total com as guerrilhas e uma economia muito mais centralizada. Tem 37% das intenções de voto contra as 50% de Duque

Texto Ana França

PERFIL | GUSTAVO PETRO

“Justo e impoluto” mas “por vezes sobranceiro porque nem toda a gente tem a sua preparação intelectual”: a última batalha do coronel Aureliano Buendía

Foto EPA

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Como todos nós, Gustavo Petro tem um passado. Como todos nós, esse passado perpassa o presente como os tendões trespassam os músculos. No coração, Gustavo Petro continua guerrilheiro. Não das Forças Armadas Revolucionárias, que essas são as odiadas e ainda temidas FARC, mas do M19, um movimento armado igualmente violento mas que não deixou o mesmo lastro de destruição. Mais urbano que as FARC, deixou, ainda assim, o suficiente para que Gustavo Petro, que este domingo disputa a segunda volta das presidenciais colombianas com Ivan Duque, da direita cética em relação aos acordos de paz com as guerrilhas, seja associado a uma luta fratricida que metade dos colombianos quer esquecer e outra metade punir.

Amigo do falecido presidente da Venezuela Hugo Chávez, formado em Economia e com uma pós-graduação em Preservação do Ambiente e Desenvolvimento Local tirada na Bélgica, para uns Petro é a esperança de uma esquerda que quer chegar finalmente à presidência e para outros o prelúdio da instauração de um regime fechado ao mundo, autocrático e onde reina a fome, como aquele que quem esteja na fronteira da Colômbia avista no horizonte ao olhar as filas de milhares de venezuelanos que há cerca de dois anos têm tentado imigrar. O seu passado é a sua maior fraqueza e se isso é verdade para a maioria dos políticos, é-o especialmente na Colômbia, onde a questão da paz com as múltiplas guerrilhas que, em diferentes momentos da sua história, abalaram as vidas de milhões de pessoas é um dos pontos que mais vai pesar na eleição deste domingo.

Foto EPA

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Como se previa já antes de serem conhecidos os resultados da primeira volta, e porque o referendo pela assinatura ou não dos acordos de paz de março de 2016 dividiu o país a meio (o ‘não’ ganhou com 50,2%), nestas eleições há duas visões distintas para a Colômbia. Petro representa aquela que os seus apoiantes dizem ser a única possível para um futuro sem guerra. Jairo Navarrete é amigo de infância de Gustavo Petro, cresceu com ele em Zipaquirá, a cerca de uma hora de Bogotá, e fez com ele a secundária no Liceu La Salle, que era gerido como um quartel por um grupo de padres que ambos detestavam. “Em 1975 decidimos revelar-nos ateus perante os professores. Não rezávamos no início do dia escolar e foi o escândalo em toda a comunidade: pais, padres, famílias, todos se chocaram com o nosso ateísmo. Fomos suspensos”, conta ao Expresso. “Íamos secretamente a tertúlias de esquerda, na universidade, onde ainda não éramos alunos, todas as semanas, e claro que seria um problema se fossemos apanhados.”

Gustavo Petro nasceu há 58 anos em Ciénaga del Oro mas cresceu em Zipaquirá, uma zona onde a milícia M19 estava particularmente ativa. Começou cedo a escolher as suas leituras pela lista dos livros proibidos no seu liceu e foi assim que travou conhecimento com Karl Marx ou Gabriel García Márquez. O idealismo obstinado de Aureliano Buendía, o coronel solitário, sensível e artesão de “Cem Anos de Solidão”, fascinou-o: 32 guerras intentou contra os governos vigentes, 32 perdeu mas isso não interessava a Petro - o coronel Aureliano Buendía lutava, Petro lutava.

Pouco a pouco foi marcando posição dentro das fileiras da milícia que se formou - e adquiriu nome - depois das eleições de 19 de abril de 1970, que o grupo considerou fraudulentas. Antes de se ter tornado violenta e ter ficado conhecida por desenvolver como método principal de financiamento das suas atividades o rapto de filhos de traficantes de droga, o M19 era conhecido por distribuir leite pelos pobres das principais cidades da Colômbia e por utilizar terras de grandes proprietários para construir casas para quem não as tinha. “As FARC eram uma organização mais rural e o M19 tinha uma sensibilidade mais urbana, eram mais audazes com as suas ações e planeavam saídas para a crise da corrupção que eram mais tangíveis e realistas. Estávamos perto de Bogotá, sentíamos o pulso das gentes da cidade e Gustavo trouxe desses dias, e assim continua, essa visão do mundo, essa clareza, essa coragem de ser guerreiro e denunciar as injustiças sociais”, diz o seu amigo ex-guerrilheiro. Com 24 anos, Petro, ele próprio, foi o cabecilha de uma destas brigadas de expropriação e construiu o Bairro Bolívar 83 em terrenos que pertenciam ao clero. Lá ficou dois anos, revezando-se no cultivo na terra com as pessoas que o viam como uma espécie de messias por esta altura. Foi precisamente neste bairro que foi preso pelo exército, dois anos depois de ter começado a aventura. O Bolívar 83 ainda existe. “O Gustavo ainda é essa pessoa dos bairros, que está bem em todo o lado. Acompanhá-lo em campanha é ver uma Colômbia cheia de esperança, que acha mesmo que as coisas podem mudar com ele”, diz um dos organizadores voluntários da sua campanha, Oscar LaBaldia, ao Expresso. O professor de 32 anos juntou-se ao movimento “Colômbia Humana”, sob cujas cores Petro concorre, não apesar mas por causa do passado guerrilheiro de Petro. “Nota-se perfeitamente que ele entende o que as pessoas passaram dos dois lados e ele foi um dos primeiros membros altos do M19 a pedir o fim da guerrilha e a transformação da violência em luta política. Ele quer a paz mas não quer ser brando com que não a quer.”

Em perfis espalhados pela imprensa colombiana, muitas pessoas referem que Petro “detesta trabalhar em equipa”, “não aceita facilmente as ideias dos outros” e “governa só porque não permite que se lhe oponham”

Ao nascimento do M19 seguiram-se espetaculares tomadas de edifícios públicos, raptos de filhos de narcotraficantes, roubos de artefactos históricos como a espada do mítico líder revolucionário Simón Bolívar. Assim se fez uma guerrilha popular entre as camadas mais jovens da sociedade, incluindo as urbanas. Mas Petro foi dos primeiros a propor a transformação do M19 numa força política e dos primeiros a oferecer-se para negociar com os presidentes da altura um fim das hostilidades, entre 1989 e 1990, tarefa que lhe foi entregue em mãos pelo adorado líder do M19 Carlos Pizarro, assassinado em 1990.

De regresso à vida civil, é eleito deputado pelo departamento de Cundinamarca, no centro da Colômbia, pela Aliança Democrática M19, o herdeiro político da sua luta armada. Em 1994 tentou ser reeleito mas não conseguiu e como recebia permanentemente ameaças de morte pelo seu passado acabou por conseguir ser nomeado adido da embaixada colombiana na Bélgica pelo governo de Ernesto Samper. Em 1996 renuncia à carreira diplomática e regressa à Colômbia para tentar a sua sorte como presidente da Câmara de Bogotá. Perde com números bastante embaraçosos: teve apenas sete mil votos ou 0,56% do eleitorado do seu lado.

O seu arqui-inimigo político, Enrique Peñalosa (atual presidente da Câmara) vence essas eleições. Mas desistir não parece estar na fibra de Petro. Mesmo carregando uma vergonha eleitoral desta envergadura, nas eleições legislativas seguintes concorreu como segundo na lista de Antonio Navarro pelo Movimento Via Alternativa. Chegou ao Congresso com 120 mil votos e foi aí que começou a brilhar. Tudo o que era tema polémico ele tomava para si. Entre 2000 e 2002, a crítica à quebra do Banco del Pacifico, que foi fortemente afetado pela crise financeira de 1999, e a denúncia do fecho do Hospital San Juan de Dios, em Bogotá, valeram-lhe a fama de homem do povo, que não tinha compadrios para preservar e por isso era dura no ataque e denúncia da corrupção.

Em 2002 consegue a segunda votação mais alta da Câmara dos Representantes, com quase 79 mil votos. Torna-se a oposição principal de um homem só contra o recém-eleito presidente Álvaro Uribe. Frente a um homem notório pelo seu apoio às milícias paramilitares que lutavam para acabar com as FARC, Petro denunciava os exageros das forças armadas, mesmo as oficiais. Criticou as políticas “brandas com os narcotraficantes” de Uribe, criticou o enriquecimento ilícito das cúpulas políticas colombianas sem deixar ninguém de fora - até membros do seu próprio partido veio a denunciar mais tarde, já como presidente da Câmara de Bogotá, por terem montado um “carrossel de contratação”, tanto de pessoas como de serviços, mediante a aceitação de subornos. Noutros perfis espalhados pela imprensa colombiana, muitas pessoas referem que Petro “detesta trabalhar em equipa”, “não aceita facilmente as ideias dos outros” e “governa só porque não permite que se lhe oponham”. O seu amigo Jairo cede num destes pontos: “Sim, é por vezes sobranceiro porque perde a noção de que nem toda a gente tem a sua preparação intelectual”.

Foto Reuters

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Ao mesmo tempo que deslumbrava as esquerdas, Petro ia tentando uni-las - um plano que esboçou na altura e redesenhou agora para tentar unir toda a Colômbia contra Ivan Duque, o herdeiro de Uribe. Em 2005 nasce o Polo Democrático Alternativo e em 2006 é com ele que Petro chega ao congresso, tornando-se, com a impressionante soma de 143 mil votos, o terceiro senador mais votado de todo o país. Os seus discursos cheios de pormenores da violência dos paramilitares continuam a deixar centenas pregadas à televisão. Um dos mais famosos acontece em outubro de 2006 quando Petro começa a listar os abusos cometidos pelos paramilitares e vai apontando para os os vários senadores e listando as suas associações duvidosas. O alvo era o presidente Uribe, a quem Petro acusou de se ter encontrado com líderes do tráfico de droga, de ser proprietário de um helicóptero utilizado num massacre dos paramilitares e de não se estar a esforçar minimamente para garantir que as milícias não atuavam contra os camponeses. Uribe negou todas as acusações e ofereceu o registo das horas de voo do helicóptero para provar que não tinha estado envolvido em nenhuma ação de guerra naquele dia. Denunciou igualmente as execuções de civis por parte dos militares fazendo-os passar por membros das guerrilhas e as escutas ilegais colocadas nos escritórios de magistrados, jornalistas, ativistas pelos direitos humanos. No último ano do primeiro termo presidencial de Uribe, o Supremo Tribunal da Colômbia revelou que 33% dos senadores, 15% dos deputados e 250 funcionários públicos tinham ligações ao paramilitarismo.

Quem apoia Petro encontra nestas histórias uma prova de que ele não dobra. Oscar LaBaldia conta que Petro até o embaixador que o acolheu na Bélgica denunciou. “Quando descobriu que o embaixador Carlos Arturo Marulanda tinha uma terra de onde mais de 50 famílias foram expulsas pelos paramilitares denunciou-o, disse que ele estava feito com as milícias de direita, mesmo estando sob sua proteção”, conta o professor de 35 anos. Em 2005, Marulanda foi condenado depois de muitos anos a monte, por apropriação indevida, falsificação de documentos e fraude mas nunca por nenhuma ligação aos paramilitares.

No fim da primeira década dos anos 2000, Petro sai do Polo e funda com Jorge Guevara e Luis Carlos Avellaneda o Progresistas. É como o seu novo partido que finalmente chega a presidente da Câmara da capital Bogotá, com 30% dos votos, bem longe dos 0,56% da primeira vez. Mas o seu tempo à frente da Câmara não foi como o seu tempo no Senado. Saiu do seu cargo com sete em cada dez cidadãos felizes com essa decisão. Decretaram-lhe a morte política depois de uma gestão ruinosa da recolha do lixo na cidade e por ter colocado a Câmara a gastar muito mais do que era suposto. As suas medidas de apoio às classes sociais mais baixas - como o subsídio para pagar a conta da água ou a universalidade do sector de saúde - continua a ser aquilo que as pessoas mais referem quando falam dele - e são essas as emoções que movem as pessoas na sua direção. “Há um sentimento generalizado de que ele realmente se preocupa com os pobres e nunca ninguém lhe encontrou uma ação fraudulenta ou ligações a oligarquias ou polos de poder económico”, diz Jairo.

Como escreveram Carlos Hernández Osorio e Laura Ardila Arrieta na página de análise política La Silla, Petro “é a pedra no sapato da esquerda estabelecida e da direita que não tem conseguido, com as suas acusações de ligação do líder ao chavismo, causar assim um dano tão grande nas sondagens que o dão como um sério candidato”.

PERFIL | Iván Duque

O homem que acredita que a Economia bem feita resolve tudo

Foto Leonardo Munoz/EPA/Getty

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Martha Cecilia já votou. Está em Quito, capital do Equador, é colombiana e tem o coração com Iván Duque, o candidato de direita pelo Centro Democrático às eleições deste domingo. “Duque é o único que vai conseguir unir os colombianos, o único que respeita o trabalho árduo, que não vai permitir que as pessoas que durante tanto tempo mantiveram a Colômbia sob estado de guerra escapem à justiça”, diz a diretora de marketing ao Expresso através de uma conversa pelo WhatsApp.

Saiu da Colômbia precisamente por causa da violência que estava a tomar conta da sua pequena aldeia, na zona de Altero, no norte da Colômbia. “Era muito nova mas lembro-me bem do caos.” Esta foi uma das zonas que registou uma das maiores percentagens de votos pelo ‘sim’ aos acordos de paz de 2016, fenómeno que aliás se registou em várias das zonas mais afetadas pelos conflitos, mas Martha não considera que as negociações tenham tido em atenção as perdas das famílias. Não nega, porém, que a paz seja o único caminho. Simplesmente é um caminho que, no seu entender, tem de ser trilhado por Duque. “Duque não quer acabar com os acordos como se escreve tantas vezes nos jornais. Ele apenas não quer que estes crimes passem em branco porque, de facto, nenhum outro país esteve envolto em tanta violência durante tanto tempo e as pessoas merecem justiça. Só com Duque a conseguiremos.” Além disso, Martha Cecilia foca “a recuperação da economia, a preservação dos valores da família e o fim da politiquice como carreira” como fortes razões para votar em Duque.

Iván Duque em ação de campanha em Cali Foto Ernesto Guzman Jr/EPA/Getty

Iván Duque em ação de campanha em Cali Foto Ernesto Guzman Jr/EPA/Getty

A política, de facto, não fez a carreira de Duque - e a pouca experiência nesta área é precisamente uma das fraquezas que lhe apontam. As outras prendem-se mais com os seus apoios do que com ele. O seu grande mentor é Álvaro Uribe, ex-presidente colombiano adorado por milhões de pessoas mas associado pela esquerda a uma época de total impunidade das forças paramilitares, que conduziram vários ataques contra civis - e não apenas contra guerrilheiros - nas zonas onde as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) estavam mais presentes. O escândalo dos “falsos positivos”, o nome dado ao método utilizado pelas milícias que combatiam as FARC para justificar os ataques, apresentando as mortes como se todas fossem militares, foi uma página negra durante a presidência de Uribe e Duque é-lhe tão próximo que pode ser prejudicado por não se opor ao seu discurso revisionista.

Duque é um homem novo para tudo, mas para ser presidente é ainda mais

No entanto é pedir muito a muitos colombianos que confiem os destinos do país num homem como Gustavo Petro, rival de Iván Duque e que não sendo das FARC foi do M19, uma guerrilha igualmente violenta que raptava pessoas como principal forma de financiamento. Petro, o homem de esquerda que se opõe ao “menino bem comportado” de classe média alta com pai político, é também uma carta a favor do voto em Uribe. Santiago Valencia é deputado na Câmara dos Representantes pelo Centro Democrático e, “além da convicção, é também por comparação que estou certo do meu voto”, diz ao Expresso ao telefone a partir de Medellín, onde fez parte da organização da campanha de Duque.

Duque é um homem novo para tudo, mas para ser presidente é ainda mais. Tem 41 anos, a barba sempre impecavelmente feita e um sorriso sempre pronto. A idade não é um problema para Valencia. No seu entender, são os jovens - “como eu e Duque” - que têm de tomar o poder para transformar a Colômbia. “Ele é da minha geração, eu tenho 35 anos, e reconheço-lhe os mesmos valores que eu defendo.” Durante quatro anos serviram juntos no Congresso e do convívio com Duque ficou-lhe a ideia de que o candidato do Centro Democrático é “leal, preparado, um homem justo e respeitador, totalmente transparente e sem um passado manchado por escândalos”. Além disso, Valencia diz que é o facto de Duque ter trabalhado fora do país que lhe dá a certeza de que Duque “não vai tentar isolar a Colômbia”, que “não vamos ser uma Venezuela” e que vai apostar “na diplomacia, nos jovens empresários, na economia de mercado, e em trazer o país para o mapa das nações mais importantes do mundo”.

Duque nasceu em 1976 numa família de classe média alta e muito politizada. O seu pai, Iván Duque Escobar, é a sua maior influência, a luz que o ajuda nas decisões todas que tem de tomar. Num dos vários perfis publicados na imprensa colombiana, o jornal La Silla fala com cerca de dez pessoas, entre amigos, ex-professores, ex-colegas de faculdade e familiares, e não há um que não refira este como traço definidor do jovem Iván. “O pai era o seu melhor amigo e ao mesmo tempo o seu ídolo”, disse Andrés Barreto, amigo de Duque desde pequeno.

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“O seu pai é um força motriz para ele, de um alcance que ninguém consegue imaginar. O Iván Júnior vai ser o melhor que pode em honra ao seu pai, seria insuportável defraudá-lo”, disse Leonor Barreneche, a viúva do pai de Duque também ao La Silla. Na política não fez ainda tanto como o seu pai, que foi gerente do Instituto de Crédito Territorial e do Instituto de Empresas Públicas de Medellín, Governador de Antioquia, e ministro à frente da pasta das Minas e do Desenvolvimento. Numa lhe deu para a presidência mas o pequeno Duque nunca escondeu o que queria ser e o seu pai sempre o incentivou. Na infância gostava tanto de jogar futebol como de ler sondagens de política - e sabia de cor tanto os pontos dos vários campeonatos locais e europeus como as percentagens de aprovação dos vários políticos da época. A lendário biblioteca do seu pai, com 17 mil volumes, era o seu refúgio. Muitas vezes o pai ia lá ter com ele e pedia-lhe que lesse alto os discursos de Jorge Gaitán, o político feito mito quando foi assassinado em 1948, aquando da sua segunda candidatura à presidência, sob a bandeira socialista do Partido Liberal, o mesmo do pai de Duque.

Entre o futebol, a loucura dos DVD dos anos noventa - segundo os amigos, ele sabia citar todas as falas de Rocky - e os livros que lia, as notas sofreram. Entrou na universidade porque o pai conhecia o reitor, mais nada. Estudou Direito mas do que gostava mesmo era de Economia. Santiago Valencia recorda isso mesmo: “Quando tinha reuniões com ele notava-lhe uma atenção quase doentia ao detalhe, principalmente na área da economia. Economia bem feita, diz ele, resolve tudo”, diz o seu colega de Congresso.

Duque considera que o Estado tem de se afastar o mais possível da economia de um país Foto Nacho Doce/REUTERS/Getty

Duque considera que o Estado tem de se afastar o mais possível da economia de um país Foto Nacho Doce/REUTERS/Getty

Era precisamente na Universidade Sergio Arboleda que estava quando o líder conservador Goméz Hurtado foi assassinado à porta desta mesma universidade. Duque já admitiu muitas vezes que este episódio o transtornou muito e que o fez pensar que “tinha de fazer alguma coisa pelo país”.

Naquela altura era Ernesto Samper o presidente, pelo Partido Liberal, e o jovem Iván queria estar na oposição. Quem é que estava na a fazê-la de forma “credível” na altura? Juan Manuel Santos, atual presidente que sai do seu segundo mandato com números muito baixos de popularidade por culpa das negociações de paz com as FARC. Durante a candidatura de Santos à presidência, os dois incompatibilizaram-se e hoje representam visões muito distintas quanto ao destino da Colômbia.

“O americanista”

A sua carreira no sector público arrancou quando foi contratado como consultor da Corporação Andina de Fomento (CAF) e depois como assessor do Ministério da Economia e Finanças de Juan Manuel Santos, durante o governo de Andrés Pastrana. Quando Álvaro Uribe iniciou o seu mandato, Iván Duque continou a trabalhar no Ministério até ser convidado para trabalhar no Banco Interamericano para o Desenvolvimento (BID), em Washington. Foi aí que tirou um mestrado em Direito Económico complementado por um outro em Administração Pública. Esteve no BID uma década e foi nomeado pelo presidente da instituição, Luis Alberto Moreno, chefe da divisão de assuntos culturais, de criatividade e solidariedade. Foi neste período que lançou uma das principais apostas da sua campanha: o apoio às indústrias criativas.

Em 2011 tornou-se assistente de um painel de especialistas convocados pelo então secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, para investigar o ataque cometido por Israel a uma frota de barcos que tentavam levar ajuda humanitária à Faixa de Gaza. Nesse grupo estava Álvaro Uribe, que havia de o inspirar quase tanto como o pai. Em 2014 é eleito senador pelo Centro Democrático, número sete numa lista encabeçada pelo próprio Uribe, mas foram os 12 anos na América que lhe formaram quase toda a personalidade que agora apresenta, como um presente de natal embrulhado em papel luzidio, aos seus eleitores.

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Duque é “americanista”, como disseram alguns ex-colegas dele no Senado ao jornal La Silla. O seu respeito pelo sector privado, a ideia de que o Estado não tem de se meter no desenvolvimento do mercado, a sua obsessão com as startups, o empreendedorismo e com a tecnologia são tudo pontos elencados pelas fontes do La Silla para explicar o rótulo. Segundo reza a lenda, Duque sabe quem foi o chefe de gabinete de Lyndon Johnson, tal é a sua obsessão pela história dos Estados Unidos - além de saber também todos os secretários de Estado dos últimos 40 anos e ter uma foto de Kennedy no seu gabinete. “Iván tornou-se um ator. Está feito um político americano. Vê a política como uma construção de imagens, jamais sai do guião e nunca o apanharão em falso”, disse um seu ex-colega no BID à mesma publicação.

Em 2017, uma sondagem interna conduzida por Uribe para entender quem deveria nomear para ser o candidato presidencial do partido devolve, com surpresa, o nome de Iván Duque. Em março, para o mesmo efeito, realizaram-se eleições entre os vários candidatos da direita para decidir quem iria representar a “Aliança do Não”, o grupo guarda-chuva dos vários partidos que se aliaram na campanha contra os termos do acordo de paz de 2016 e por isso pediram o voto no ‘não’ no referendo. A Colômbia, por muito pouco, seguiu a indicação de Uribe e Duque - 50,2% dos colombianos rejeitaram o acordo entre o governo e as FARC e muitas dessas pessoas vão votar em Iván Duque para garantir que os guerrilheiros não passam incólumes.

Duque foi eleito com quatro milhões de votos nessa consulta interna. No referendo aos acordos de paz votaram cerca de 13 milhões de pessoas, sete deles contra o acordo. Na primeira volta destas eleições, que aconteceu a 20 de maio, Duqué recebeu precisamente esses mesmos sete milhões de votos. “Apenas com Duque temos a certeza de que a segurança das pessoas, essencial no que toca ao desenvolvimento económico e social de todas as regiões, será respeitada. Temos que ter zero tolerância aos grupos armados”, completa o seu colega Santiago Valencia.