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Bernardo Ferrão

Andamos nisto

Bernardo Ferrão

Aprendam a lição dos incêndios. Digam-nos tudo!

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Pedrógão voltou às capas dos jornais. Já passou um ano. Em tempo de balanços e relatos dos sobreviventes, repetem-se alertas e denúncias preocupantes. Afinal não está tudo pronto no terreno como nos andaram a prometer? Faltam meios e organização. Andamos sempre neste jogo sinistro do gato e do rato. Digam-nos a verdade. É melhor para todos. Para o país e para o Governo.

A chuva secou e logo no fim de semana do primeiro ano de Pedrógão. O Instituto de Meteorologia avisa que são esperadas temperaturas perto dos 40 graus e noites tropicais. Quem viveu dias de inferno só pode tremer perante tais previsões. Não trememos todos? Há um ano a nossa história alterou-se de forma dramática. Os fogos de Pedrógão e da região Centro, em outubro, fizeram mais de 100 mortos. Uma chacina insuportável e inadmissível.

Poderíamos gritar “Nunca Mais!”, como fizeram os galegos quando o naufrágio do “Prestige” lhes manchou as costas e comeu o alimento. Mas essas são palavras demasiado definitivas para os muitos problemas que estão por resolver. A floresta e o seu reordenamento não se alteram numa geração. O abandono do interior e o envelhecimento da população exigem o consenso dos poderes de Lisboa. A mudança de mentalidades e a reeducação das populações levam tempo e dedicação. O combate aos fogos e a prevenção precisam de uma nova cultura: mais profissional, mais independente, mais escrutinável e menos condicionada pelas guerras de boys e interesses corporativos.

Uma das lições que tirámos das tragédias do ano passado foi que o nível de tolerância dos portugueses se alterou radicalmente

Elogiei o Governo pela mão de ferro na campanha da limpeza das matas. É verdade que houve erros e radicalismo mas só assim foi possível avançar. Claro que não basta um ano, é fundamental continuar caminho. Mas se o Executivo andou bem neste domínio, noutros vacila. Os jornais mostram-nos que passado um ano há ainda falhas nos meios de combate e na prometida reorganização da Proteção Civil. Não vou aqui enumerar o que está por fazer, o que me parece importante é que o Governo não venha uma vez mais assobiar para o lado ou garantir que afinal já está tudo tratado.

Uma das lições que tirámos das tragédias do ano passado foi que o nível de tolerância dos portugueses se alterou radicalmente. Na sua torre de marfim em São Bento, António Costa, ao contrário de Marcelo, demorou a percebê-lo. O importante não são as consequências do braço de ferro político entre os dois palácios ou os avisos ao primeiro-ministro caso a tragédia se repita. O relevante é que o país não tenha de passar pelo mesmo. Além do que está a fazer e bem, o primeiro-ministro deve assumir todo este processo com a maior transparência.

Por saber que estamos perante domínios de enorme complexidade. E que mesmo por decreto é difícil num ano ter um novo paradigma na prevenção e no combate aos fogos, o Governo deve saber assumi-lo frontalmente. Não pode estar sempre a fugir da culpa, atirando-a para outros, ou a correr atrás do prejuízo. Se for transparente, se nos disser o que já foi feito mas sobretudo o que ainda não foi possível fazer, o Executivo não cria falsas expectativas nem a ideia de que estamos agora muito mais protegidos. Digam-nos tudo. Com verdade. Para que não seja, outra vez, tarde demais.