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Daniel Oliveira

Antes pelo contrário

Daniel Oliveira

O “Prolongamento” será o novo normal

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O mundo que anda à volta do futebol e que pouco tem a ver com o que se joga em campo não se rege, ao contrário do que os mais distraídos pensam, por regras diferentes do resto da sociedade. São as mesmas. Tudo o que de bom e de mau acontece no futebol acontece na política, por exemplo. A diferença é que, tirando meia dúzia de fanáticos, as pessoas sabem que o que acontece na bola não determina a sua vida, o que torna irracionalidade ainda mais fácil. Isso, a brutal exposição mediática e o dinheiro envolvido criam fronteiras diferentes das que estabelecemos para o debate político. É por isso que nenhum dos atuais presidentes dos três grandes teria qualquer hipótese numa carreira política. Nem sequer Pinto da Costa. A esmagadora maioria das pessoas sabe distinguir os dois planos. Mas isso não quer dizer que eles não se infetem.

Quando a situação do meu clube está algures entre a tragédia e a comédia, não me vou meter no meio de um filme cujo guião, se existe, me ultrapassa. Espero que o pó assente, que as notícias deixem de se contradizer e não será aqui que comentarei o tema. Nem sequer comentarei a gravíssima suspeita de corrupção no andebol que, a confirmar-se, não pode deixar de ser condenada por todos, sportinguistas incluídos. Com as devidas consequências. Só quem dá o exemplo pode reclamar para si um qualquer tipo de autoridade moral.

Mas quero falar de outro fenómeno que tem efeitos no futebol e fora dele: os programas de debate entre adeptos mais ou menos conhecidos. Não quero pôr tudo no mesmo saco. Programas como “Play-Off” (domingo, SIC Notícias) ou “Trio d’Ataque” (domingo, RTP3) são, para além das picardias normais da bola, relativamente sóbrios. Continuo a não perceber bem o sentido de ter adeptos a analisar jogos de forma apaixonada num canal que pretende informar, transportando para o futebol a lógica do confronto democrático da política que obviamente não se lhe aplica. Mas isso, por si só, não faz mal a ninguém.

Aquilo não foi um deslize. Aquele programa vive do espetáculo da falta de civilidade, levando a paixão futebolística até à simulação mais abjeta da intolerância. Não ficará pelo futebol. Programas como “Prolongamento” criam novos normais na forma como se debate em televisão

Só que o calor dos debates em vários programas, onde para não variar o surgimento da CMTV contribui para degradar um cenário que já não era famoso, fez com que os programadores percebessem que havia ali um filão. Que ter pessoas a insultarem-se ao vivo era tão barato e tão rentável como ter uma dezena de idiotas fechados numa casa a falarem durante semanas sobre coisa nenhuma. O mote foi ir buscar uma figura moralmente repelente como Pedro Guerra, de quem devemos dizer que foi coerentemente rastejante no jornalismo, na política e no futebol. Perante a impossibilidade de qualquer pessoa normal debater com tão aberrante figura, a TVI24 percebeu que tinha ali um bom conceito para um programa de entretenimento. Juntando um humorista do Sporting e um homem truculento do Porto no programa “Prolongamento” (segunda-feira) poderiam garantir episódios suficientemente caricatos para atrair telespectadores. É como o acidente na estrada, ninguém quer ver mas todos páram para olhar.

Como seria de esperar, a espiral de insultos entre pessoas que obviamente não se respeitam mas que decidem juntar-se todas as semanas acabou, ontem, numa ameaça de violência física. Depois de José de Pina ter chamado “animal” a Pedro Guerra, este levantou-se para pedir explicações. Ainda o programa devia estar no ar e já as imagens se tinham espalhado pelas redes sociais. Toda a gente, muito chocada, foi ver. Eu também e aqui estou a dar protagonismo àquela coisa. Sendo certo que aquilo não é um deslize, um momento menos feliz de um programa de televisão, como já aconteceu noutros. Apesar de estar num canal de informação, aquele programa que vive do espetáculo da falta de civilidade, levando a paixão futebolística até à simulação mais abjeta da intolerância. Aliás, apesar da zanga que o jornalista que modera o programa tentou transmitir, a TVI não parece estar nada incomodada com o sucedido e até mostrou imagens de copos partidos no fim do programa. Faz tudo parte do show.

Supostamente, trata-se de um programa sobre futebol. Dando espaço ao ódio entre adeptos, faz pior ao futebol do que faria à política um programa da mesma natureza. Porque se o futebol já puxa, pela sua natureza tribal, o que de mais irracional existe em todos nós, acender o rastilho do ódio é muito mais fácil. Temos muito mais tolerância para um fanático do nosso clube do que temos para um fanático da nossa cor política.

Mas não se julgue que este tipo de programas ficará circunscrito ao futebol. Esta é uma nova forma de se fazer dinheiro. E tendo mais audiências do que qualquer programa de debate político, é inevitável que políticos com menos escrúpulos e menor preparação tendam a aproximar-se deste estilo. Até porque começa a haver alguma transumância entre os dois mundos e uma confusão de estilos, como se viu com a candidatura de André Ventura, a convite de Passos Coelho, à Câmara Municipal de Loures, transportando para o debate político o mesmo grau de facciosismo real ou simulado e a mesma irracionalidade que se espera num debate entre adeptos. O que programas como “Prolongamento” criam é novos normais. E os novos normais não são apenas novos no futebol. São novos na forma como figuras públicas debatem na televisão, dando o exemplo para a forma como nos tratamos em público. E isto é ainda mais poderoso quando sabemos que a democratização do debate trazida pelas redes sociais, que facilitam o anonimato, está a criar novas regras no debate público.

Uma das coisas que me distingue de alguém que seja liberal na economia é achar que a maioria das coisas tem um valor social antes de ter um valor de mercado. Eu não sou jornalista ou comentador para vender jornais e ter audiência, quero vender jornais e ter audiência porque acredito, mal ou bem, que o que faço tem um papel social. Acredito que a comunicação social, como palco onde se cruzam todos os poderes, tem um papel estruturante na forma como vivemos em sociedade. Hoje, não tenho qualquer dúvida ao afirmar que, genericamente, a maioria do que se faz na televisão portuguesa, e especificamente em canais que se dizem de informação, é socialmente nocivo. Que estão a degradar a vida em sociedade e a democracia. Como recuso a censura, não tenho solução para isto. Só dispenso discursos comovidos no dia da liberdade de imprensa por parte dos que, por ação ou omissão, a põem em perigo criando condições para o colapso da democracia.