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BRASIL

“A cada dia sem respostas, Marielle morre novamente”. E não há respostas há seis meses

Marielle Franco, vereadora no Rio de Janeiro, foi assassinada a 14 de março de 2018 Foto D.R.

Marielle Franco, vereadora no Rio de Janeiro, foi assassinada a 14 de março de 2018 Foto D.R.

Dos 13 tiros, um acertou em Marielle Franco. Matou-a, faz esta sexta-feira seis meses. Morta, a política brasileira ganhou mundo e fez-se presente. As investigações sobre a autoria do crime não chegaram a qualquer conclusão. A vítima tem nome, o assassino não

Texto Christiana Martins

A bala, certeira, não foi de prata, foi de sangue e, precisa, matou Marielle Franco há seis meses. Passados 184 dias, a mão que segurou a metralhadora continua sem dono e o dono sem nome.

Mulher, negra, favelada, bissexual, ativista política brasileira, Marielle, mais do que todas estas categorias, era um símbolo para uma significativa parte da população do Rio de Janeiro, onde era vereadora, e, morta, tornou-se mais visível.

“Marielle, presente” foi o refrão que ecoou no velório da vereadora e que continua a ecoar, agora sob a forma de pinturas nas paredes da cidade, em t-shirts de apoiantes e, sobretudo, na voz dos militantes da causa dos negros e das minorias. Segunda vereadora mais votada nas últimas eleições, apoiada pelo PSOL (Partido Socialismo e Liberdade), Marielle tinha 38 anos quando foi assassinada. Com Marielle morreu também Anderson Gomes, motorista da vereadora, e uma assessora ficou ferida. Misteriosa continua a ser a autoria do crime, que já acumula um tempo de investigação superior ao de outras mortes semelhantes.

Tempo de denúncia

A mulher de Marielle Franco, Mônica Benício, estará no Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, na Suíça, na próxima semana, para denunciar a demora para se chegar a uma conclusão sobre os autores do crime. Mônica carrega na pele a marca da relação conjugal. Depois da morte da companheira, tatuou a palavra “saudade” no antebraço. “É uma forma de, às vezes, lembrar que eu não estou sozinha”, partilhou com o jornal digital “G1”.

Urbanista e também ativista política, Mônica diz que a sua vida está parada desde 14 de março. Todas as energias estão focadas em garantir que o crime não caia no esquecimento. “É angustiante chegar a seis meses sem respostas”, afirma. Já pediu proteção à Comissão Interamericana de Direitos Humanos devido às recorrentes ameaças que tem sofrido.

A Divisão de Homicídios da Polícia Civil do Rio de Janeiro, entretanto, prometeu empenho total no esclarecimento do crime e até o Presidente da República, Michel Temer, assumiu a solução do caso como um compromisso público, “uma questão de honra”. Mas, apesar dos discursos, nada foi descoberto até agora. Mas foi noticiada a diminuição do número de operacionais envolvidos nas investigações. E, desde o início deste mês, toda a equipa de promotores do Ministério Público que atuava na investigação do caso foi trocada.

O dossier do crime envolve, segundo o “G1”, cerca de 40 mil páginas de escutas telefónicas. Mas nem a denúncia de um suposto envolvido terá ajudado a clarificar as investigações. As informações relativas a este elemento do processo foram publicadas no “Globo”, o que terá prejudicado a investigação do caso. O maior problema será mesmo a obtenção de provas conclusivas que associem o mandante, o executor e a causa do crime.

Tudo tem sido feito de forma o mais secreta possível e, em nota à comunicação social, o Gabinete de Intervenção Federal — que tutela os militares que assumiram a segurança do Rio de Janeiro desde fevereiro até ao final deste ano — e a Polícia Civil afirmaram que “as investigações prosseguem sob sigilo, a fim de que possam ser obtidas as provas necessárias à elucidação do crime”.

Pistas sem conclusão

Há cerca de um mês começou a ganhar força a tese de que houve motivação política no homicídio. Em entrevista à Globo News, o ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, revelou que o crime envolvia “órgãos de sectores do Estado ou de representação política”. Dois dias após estas declarações, a revista “Veja” publicou um artigo afirmando que três deputados da cúpula do MDB-RJ, dois dos quais ex-presidentes da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, estavam a ser investigados pela participação no assassinato da vereadora.

Nesta versão, a execução de Marielle Franco seria uma vingança contra o deputado estadual Marcelo Freixo, com quem a vereadora trabalhou durante 11 anos e o seu grande impulsionador na política. Foi Freixo o responsável há dez anos pela abertura da comissão de inquérito das milícias, forças paralelas que extorquem a população e os comerciantes em troca de segurança.

A segunda linha de investigação remete para um “Escritório do Crime”, denominação dada a um grupo de assassinos de elite mercenários, formado por polícias e ex-polícias, altamente especializados em execuções por encomenda. Há quem afirme nos jornais que acompanham o caso que uma linha não exclui a outra.

“A gente quer que a polícia descubra quem ordenou a execução da Marielle e por que ela foi morta. Enquanto isso não se tornar público, nenhum político, jornalista ou juiz estará em paz no Rio de Janeiro”, afirmou Marcelo Freixo à comunicação social.

Freixo, candidato a deputado federal nas próximas eleições, que há uma década vive acompanhado de seguranças, já tinha perdido um irmão, assassinado pelas milícias, uma morte que, como 80% dos homicídios no Brasil, nunca foi esclarecida ou julgada, segundo o jornal “Folha de São Paulo”.

Violência explícita

A política brasileira já não tem como esconder a violência que carrega em si. Há uma semana, Jair Bolsonaro, candidato da extrema direita às eleições presidenciais de 7 de outubro, foi esfaqueado em plena ação de campanha. Unanimemente condenado pelos outros candidatos, o ato reflete a complexidade e a intensidade da violência quotidiana que marca a sociedade brasileira.

E o foco das atenções é, sobretudo, o Rio de Janeiro, cidade que se encontra sob intervenção federal desde fevereiro, com a presença de militares nas ruas até ao final deste ano. O próprio responsável pela operação de segurança pública, general Walter Braga Neto, prometeu em entrevista “desvendar o crime até ao fim do ano”.

FOTO D.R.

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Há seis meses, Marielle voltava para casa, às 21h30, depois de uma reunião política de feministas na Lapa, no bairro do Estácio, no centro do Rio. Um carro aproximou-se e pelo menos 13 tiros foram disparados. “A cada dia sem respostas, Marielle morre novamente. A memória dela merece esse esclarecimento”, afirmou recentemente a irmã da vereadora, Anielle Silva.

As câmaras de segurança na zona, descobriu-se mais tarde, estavam desligadas. Quando os primeiros amigos chegaram ao local do crime, ainda a viram de cabeça pendida, dentro do carro. Cinco suspeitos de ligação ao caso estão presos, mas por outros delitos. E quem apertou o gatilho da metralhadora HKMP5 continua sem nome. Sem rosto.

Nas próximas eleições de 7 de outubro, um grupo de assessoras de Marielle Franco submete-se à avaliação dos eleitores. Dizem que “ela é insubstituível” mas que, em nome do legado da vereadora, irão a votos. Para defender as outras marielles, feministas, negras, faveladas, LGBT. Nas eleições deste ano, esperava-se que Marielle fosse candidata a vice-governadora do Rio de Janeiro.

Há quatro anos, conquistara 46 mil votos. “Nós, mulheres, negras, somos uma minoria em termos de representatividade, somos subrepresentadas, e isso é muito ruim porque nós, mulheres, somos a maioria da população”, disse a vereadora, numa entrevista um ano antes de ser assassinada. No velório de Marielle, centenas de pessoas, a maioria mulheres negras como ela, cantaram a música de Elza Soares: “Você vai se arrepender de levantar a mão para mim.” Será, Brasil?

Opinião

Quem matou Marielle — Exigimos resposta

Por Talíria Petrone

A vereadora e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Niterói Talíria Petrone, apontada como a principal seguidora do legado de Marielle Franco, escreve sobre a perda da amiga e referência política

Faz seis meses, ou 184 dias, que mataram Marielle Franco. Quase não há informação oficial sobre como anda a investigação da execução sumária dessa mulher que era vereadora do PSOL, minha companheira de lutas, amiga querida, mãe de Luyara, filha de Marinete, companheira de Monica. Apesar da estrondosa repercussão nacional e internacional e de toda a pressão das organizações de direitos humanos de todo o mundo, a apuração desse assassinato brutal demora demais a se concluir.

Cada mês a mais que passa sem a elucidação desse crime, sem a identificação e responsabilização dos seus mandantes e executores, soa como uma afronta à democracia e um deboche doloroso contra quem compartilhava com ela os mesmos sonhos e planos de um mundo melhor, de igualdade, liberdade e justiça.

A demasiada morosidade nessa investigação não tem nos impedido, porém, de afirmar, desde o primeiro momento, algumas conclusões sobre as circunstâncias e a natureza desse crime bárbaro, que causou também a morte do motorista Anderson Pedro. Para começar, esse foi um assassinato notoriamente encomendado, planejado, cometido de forma sofisticada, com características típicas de crime de máfia, por profissionais desse ofício mórbido.

Também não há dúvidas de que foi um crime político, uma tentativa de intimidar o PSOL, um ataque a uma democracia ainda muito distante da ideal, à nossa liberdade, às pessoas que, como Marielle, lutam contra o racismo, o machismo e a LGBTfobia. Foi um recado para tentar frear nossa luta dos direitos humanos e do socialismo, em especial, a luta dessa potente mulherada preta que tem cada vez mais assumido o desafio de ocupar a política, de falar por si, defender seus interesses sem intermediários.

Marielle não foi executada em um momento histórico aleatório, mas em meio a uma intervenção militar na segurança pública estadual do Rio de Janeiro, algo que ela denunciava de forma sistemática e contundente. Marielle morreu porque incomodava. A sua vida foi abatida num ano eleitoral. Não tivesse sido assassinada e estaria agora nas ruas em campanha conosco, estado afora, panfletando e pedindo votos para o PSOL. Seria a nossa candidata a vice-governadora do Rio. Perdemos a nossa companheira na defesa dos direitos humanos e do socialismo, perdemos a nossa irmã.

Não podemos aceitar o silêncio do Estado como natural, assim como não são naturais o genocídio negro, a desigualdade, a violência do Estado, o racismo, o machismo, a LGBTfobia e todas as formas de exploração e de opressão do homem pelo homem.

Exigimos uma resposta do Estado para o assassinato de Marielle. Essa falta de resposta a um crime cujas características apontam para o envolvimento de agentes do próprio Estado é perigosa demais para a democracia. Essa demora no resultado do inquérito representa em si mais uma forma de violência contra nós, uma espécie de “autorização” para a violência e o autoritarismo na política.

Sabemos ainda que Marielle foi escolhida para morrer. Escolheram como alvo o seu corpo de mulher, negra, de favela, lésbica, socialista. Calaram Marielle. Mas subestimaram a potência da sua voz, talvez por não terem compreendido o alcance de sua voz coletiva. O recado que era para nos emudecer ampliou a nossa voz.

Não, não nos calaremos e não sairemos das ruas. E vai chegar o dia em que seremos tantas e tantos que vamos conseguir derrubar essa velha política de engravatados mafiosos que tentou, mas não conseguiu matar Marielle dentro de nós.