O livro de Hillary que está a dar que falar
“Para trás, seu nojento. Afasta-te de mim”
Em "What Happened", a ex-candidata presidencial Democrata não poupa Donald Trump Foto Rick Wilking/REUTERS
O livro de memórias de Hillary Clinton sobre a campanha de 2016 não traz verdadeiramente nada de novo, mas reitera um conjunto de ideias a que os últimos meses deram força
Texto Luís M. Faria
Naquela que já se tornou uma mais passagens mais comentadas de "What Happened" (o que aconteceu), o livro de Hillary Clinton publicado no passado dia 12 nos Estados Unidos, ela descreve uma cena memorável da campanha presidencial americana de 2016. "Era o segundo debate, e Donald Trump surgia por trás de mim. Dois dias antes, o mundo tinha-o ouvido a gabar-se de apalpar mulheres. Agora estávamos num pequeno palco, e onde quer que eu fosse, ele seguia-me de perto, olhando para mim, fazendo caretas. Era incrivelmente desconfortável. Ele estava literalmente a respirar pelo meu pescoço abaixo. A pele arrepiou-se-me. Foi um daqueles momentos em que queremos carregar em 'pausa' e perguntar a quem está a ver, 'Bem? O que é que vocês fariam?'. Ficaram calmos, continuariam a sorrir, e prosseguiriam como se ele não estivesse repetidamente a invadir o vosso espaço? Ou viravam-se, olhavam-no nos olhos e diziam-lhe alto e claro: 'Para trás, seu nojento, afasta-te de mim. Sei que adoras intimidar mulheres mas não me consegues intimidar, portanto afasta-te."
Pela descrição, percebe-se que a ex-candidata ainda não está em paz com o candidato que a venceu, como aliás ele com ela. Embora na confusão dos primeiros meses da presidência Trump a questão de Hillary tenha sido quase esquecida — só raramente ele emite um tweet a falar dela, e os seus fãs praticamente já não exigem que seja presa — a verdade é que o ressentimento se mantém, de ambos os lados. Pelo lado de Hillary, com razões bastante reais: os ataques pessoais, muitas vezes aviltantes, de que foi alvo durante a campanha; a utilização política de um escândalo inventado (a sua alegada culpa no caso da morte do embaixador americano em Bengazi); a criação de outro escândalo a partir desse, o do servidor criava que ela usava para tramitar emails quando era secretaria de Estado; a intervenção da Rússia na campanha, entretanto confirmada pelas agências de segurança e objeto de uma investigação em curso; e por última, aquilo que poderá ter sido o fator decisivo, o papel do então diretor do FBI, James Comey, que a 11 dias das eleições enviou ao Congresso uma carta a anunciar que ia reabrir o inquérito relativo aos emails. Uma segunda carta uma semana depois, a dizer que não tinha encontrado comprometedor, ainda foi mais grave para Hillary, pois manteve o caso fresco na cabeça dos votantes.
De todos e de tudo isso ela fala em "What Happened". Vários críticos notaram a aparente contradição em que por vezes parece cair. Por um lado, assume responsabilidade por um facto (por exemplo, diz que foi 'burra' a utilização imprudente de um servidor privado para correspondência oficial); por outro, culpa terceiros pelos efeitos negativos que esse facto teve (o escândalo foi mais burro, explica ela). No fundo, a assunção de responsabilidade é quase um pró-forma, sendo o principal objetivo do livro desculpar-se. E também ajustar contas.
"Deploráveis"
Isso acontece não apenas em relação a Trump mas também ao senador Bernie Sanders — culpado por ter mantido a sua candidatura rival nas primárias durante demasiado tempo, embora Hillary reconheça que ela tinha ideias, e de resto Sanders viria a fazer campanha por ela. Ao vice-presidente Joe Biden — culpado por andar a dizer que as preocupações das classes trabalhadoras não foram atendidas, quando ele próprio andou a falar dessas preocupações em comícios durante meses. E, claro, do próprio Trump, culpado por ter feito uma campanha que apelava a instintos negros. Hillary notando a surpresa de ver como alguém que durante anos era visto basicamente como um promotor de si mesmo, uma figura algo apalhaçada, de repente se convertera em alguém que se projetava politicamente com base no racismo (garantindo que Barack Obama tinha nascido no Quénia, não nos EUA) e noutros lados perigosos da psique americana.
Quanto à assumir a sua própria culpa, além do pró-forma, ela fá-lo aqui e ali. Nomeadamente, quando admite que foi imprudente ter chamado aos apoiantes de Trump um cesto de deploráveis: "Lamento ter feito uma dádiva política a Trump com o meu comentário dos 'deploráveis'." Contudo, logo a seguir reitera que os pontos de vista dessas pessoas são realmente deploráveis. "Não há outra palavra para isso", diz, explicando: "Embora tenha certeza de que muitos apoiantes de Trump tinham razões justas e legitimas para a sua escolha, é um facto desconfortável e incontornável que todos os que votaram em Donald Trump — todos os 62.984.825 — tomaram a decisão de eleger um homem que se vangloriava de assaltos sexuais, que atacou um juiz federal por ser mexicano e pais que perderam um filho na guerra por serem muçulmanos, além de ter uma longa e bem documentada história de discriminação nas suas empresas.
A porta-voz da Casa Branca disse não ter a certeza de Trump vai ler o livro, justificando que ele sabe muito bem o que aconteceu na campanha. Entretanto, uma assessora do presidente, Kellyane Conway, mencionada uma vez em "What Happened" a propósito da "guerra à verdade" que Hillary associa a Trump (Conway usou a expressão "factos alternativos" para negar isso, mas confirmando) deplorou num tweet que a ex-candidata Democrata passasse o 11 de setembro a promover o seu livro nos media. Antes de Conway publicar esse tweet, Hillary publicou um seu a enaltecer "o sacrifício das vítimas e dos socorristas".