A tempo e a desmodo
Henrique Raposo
Sim, faz sentido falar em guerra civil nos EUA
Já não será assim, porque a guerra mudou. Mas a ideia de guerra civil nos EUA deixou de ser um absurdo
O termo “guerra civil” deixou de ser metáfora. Na "New Yorker", uma das principais autoras da revista, Robin Wright, sublinhou esta ideia: uma forma de guerra civil passou a ser um futuro verosímil para uma América que tem as faculdades radicalizadas num polo da extrema-esquerda (politicamente correto) e que tem o "país real" pontilhado por centenas de organizações de extrema-direita (neoconfederados, neonazis, anti-islão, anti-LGBT, antissemitas, supremacistas brancos, nacionalistas brancos, skinheads). Charlottesville e Berkeley confrontar-se-ão no futuro, o sangue é mais ou menos inevitável num país com tantas armas. Por outro lado, convém frisar que nesta galáxia de ódio existe um grupo que parece ser uma fusão dos dois extremos, os separatistas negros, espelho perfeito do Ku Klux Klan: recusam qualquer tipo de mistura racial, querem instituições separadas e até sonham com estados negros. O seu número tem subido. Eram 48 em 2000, hoje são quase 200.
O ódio que rebentou em 1865 caiu como pó ao longo de décadas; camada após camada, ano após ano, década após década, esse pó endureceu e criou a guerra civil. O cinema americano tem reportado alguns dos episódios deste crescendo de tensão: a revolta de Ned Turner é de 1831, o episódio “Amistad” é de 1839. A outro nível, "A Cabana do Pai Tomás” e toda a vida política de Lincoln mostram o barril acumulando pólvora. Aliás, o atual Partido Republicano foi fundado por Lincoln nesse clima de pré-guerra civil. O GOP emergiu em 1854 contra a escravatura, ou melhor, contra uma lei (Kansas-Nebraska Act) que abolia o velho Compromisso do Missouri (1820) que mantinha a escravatura encurralada no velho sul, impedindo a sua expansão a norte e a oeste.
É importante falar da história do Partido Republicano porque a fragmentação do sistema partidário antecedeu a guerra. O Partido Republicano apareceu para reagrupar os estilhaços do velho Partido Whig. Por sua vez, o Partido Democrata dividiu-se entre democratas do sul e democratas do norte. De forma simples, os democratas do norte apoiavam a escravatura mas não apoiavam a secessão dos democratas do sul (os confederados). Pois bem, quando olhamos hoje para o sistema partidário americano, as semelhanças com o clima dos anos 50 do século XIX são preocupantes. Como já se percebeu há muito, não existe um Partido Republicano unificado, não existe unidade possível entre um republicano clássico herdeiro de Lincoln e Reagan e um tea party. Porque essa atmosfera de rebelião tea party é a encarnação do velho espírito sulista e confederado. O GOP foi tomado de assalto pelos seus inimigos. Mais cedo ou mais tarde, os John McCain terão de tomar uma decisão a este respeito.
No mesmo sentido, há evidentes divisões à esquerda. É impossível juntar no mesmo partido um liberal clássico como Mark Lilla (grande adversário do politicamente correto ou “identity politics”) e um autor radical como Ta-Nehisi Coates, que escreveu um dos manifestos do maniqueísmo desta esquerda identitária. Nesse livro, “Between the World and Me”, os negros são bons, os brancos são maus, existe uma maldade branca no coração do sonho americano. Tal como há século e meio, é evidente a fissura entre democratas.
O maior problema internacional para Portugal e Europa não está no Médio Oriente, na Rússia, na China, na Coreia, está na política interna dos EUA. Uma América dividida e enfraquecida é o pesadelo de quem acredita no Ocidente e na Ordem Internacional relativamente pacífica de que usufruímos nas últimas décadas.